Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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MEMóRIA > EDUARDO CAMPOS (1965-2014)

Os desencontros na cobertura

Por Thiago Amorim Caminada em 19/08/2014 na edição 812
Reproduzido do objETHOS, 18/8/2014; título original “Os desencontros na cobertura da morte de Eduardo Campos”, intertítulo do OI

A queda de um suposto helicóptero na cidade de Santos, na última quarta-feira (13) trouxe reviravoltas estarrecedoras. Primeiro que não era um helicóptero (como apareceu publicado em diversos sites), mas, na verdade, um avião de pequeno porte e isso já foi o suficiente para fazer com que muitos veículos jornalísticos divulgassem informações erradas. Depois que o avião transportava o candidato de terceira via à presidência da república, Eduardo Campos. Mesmo todas as evidências apontando para o que de fato aconteceu, os veículos tiveram toda a parcimônia que caso exigia. A morte de Campos só foi noticiada após confirmação oficial dos órgãos reguladores de que não havia sobreviventes na aeronave.

Bastou essa confirmação para que iniciasse um festival de irresponsabilidades. Em poucos minutos os noticiários incluíam mentirosamente na lista de passageiros sua vice na chapa Marina Silva, seu esposa Renata Campos e Miguel, o filho mais novo. Marina logo foi descartada, enquanto que a esposa e o filho de seis meses foram dados com vítimas certas do acidente por mais de meia hora. As incertezas da imprensa chegam a ser confirmadas no texto de Carta Capital. Enquanto a lista de pessoas que embarcaram no Rio de Janeiro era confirmada, surgiu um suposto socorrista que afirmou ter visto o corpo de Eduardo Campos e, inclusive, aberto seus olhos. Mais um mentiroso, como você pode conferir aqui.

Qualidade e credibilidade

No campo político, mais desconhecimento. O senador Cristóvão Buarque, apoiador da candidatura do pernambucano, mesmo sendo filiado ao PDT, foi entrevistado pela Band News como membro do PSB, partido que encabeça a coligação Coragem pra mudar. Sobre a sucessão na campanha? Uma infinita quantidade de prazos, combinações e possibilidades foram publicadas e muitas delas com equívocos. Já se vislumbram os próximos capítulos: a caça pelos culpados e disputa pela cabeça da chapa.

Em mais esta cobertura, faltou aos profissionais da notícia os mesmos critérios de verificação aplicados na confirmação certeira da morte de Campos. Bastou o acidente aéreo no litoral paulista se transformar em uma tragédia política para o afã por furos, declarações exclusivas e versões mirabolantes contagiarem os ânimos. Em uma cobertura de um fato tão delicado, contaminou-se a qualidade do produto informativo e a credibilidade profissional. Enquanto jornalistas profissionais se comportarem e compactuarem com espalhadores de boatos, será cada vez mais difícil acreditar nas instituições jornalísticas.

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Thiago Amorim Caminada é mestrando no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

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