Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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‘Podemos elogiá-lo à vontade’

Por Marcelo Torres em 19/08/2014 na edição 812

“Está morto: podemos elogiá-lo à vontade”, diz o narrador de O Empréstimo, conto de Machado de Assis. “Tinha um olhar de lanceta, cortante e agudo”, e assim dá-se a conhecer o tabelião Vaz Nunes.

Tomo de empréstimo essas aspas de Machado para falar das aspas póstumas para Eduardo Campos, que teve a vida interrompida de forma trágica no fatídico 13 de agosto, em acidente aéreo. Eduardo, que tinha esse olhar de lanceta, cortante e agudo, o olhar anfíbio, como dizia a matéria de capa da revista piauí deste agosto. Eduardo que, depois de morto, é coberto de elogios.

Em A morte e a morte de Quincas Berro D’Água, de Jorge Amado, o narrador diz: “Quando um homem morre, ele se reintegra em sua respeitabilidade a mais autêntica, ainda que tenha cometido loucuras em sua vida”. Referia-se à morte ou às mortes de Joaquim Soares da Cunha, o Quincas Berro D’Água, um sujeito que se afastara da família para se entregar à bebida e viver e morrer como um pária social.

Calma, não estou querendo comparar as duas mortes, muito menos relacionar um com o outro falecido, até porque o primeiro é apenas um ser do plano da ficção e o segundo era uma pessoa de carne e osso. Além de tudo, ainda que eles estivessem no patamar do real, sabe-se que Quincas partiu como um velho traste, enquanto Eduardo foi pessoa ilustrada – deputado, ministro, governador, até candidato a presidente.

O melhor, o mais preparado

O que quero mostrar é como, no noticiário e nos comentários, numa oficina ou num salão de beleza, um morto – um morto famoso – é logo transformado em um mito, talvez um deus do seu tempo e do seu mundo. De acordo com as pesquisas Ibope, Vox Populi e Datafolha, de 50% a 60% dos brasileiros não conheciam Eduardo Campos, e essa era, inclusive, uma das justificativas para sua até então baixa performance nas pesquisas.

Mas eis que a morte chega e provoca uma reviravolta, talvez até milagres. De uma hora para outra, gente que nunca ouvira falar no candidato do PSB agora o cobre de elogios, todo mundo agora ia votar nele. Não se pode duvidar da sinceridade do votante que ora se declara, o que se estranha é não ter havido antes tantos votos declarados como agora há, no calor da tragédia. O que havia era um movimento inverso – um ligeiro viés de queda nas pesquisas de intenção de votos.

Naquele fatídico dia, o 13 de agosto, quem primeiro me trouxe a má notícia foi um dos manobristas da escola do meu filho. Às 12h58, assim que descemos do carro, seu Valtino veio tenso, ansioso, assustado, os olhos de incredulidade: “Tá sabendo que Leonardo Campos morreu?” Ele falou de um jeito que parecia se tratar de alguém da escola, talvez um pai de aluno. “Desculpa, seu Valtino, mas quem é Leonardo Campos?” “O candidato a presidente! Leonardo Campos! O melhor de todos…” “O senhor quer dizer que Eduardo Campos morreu? É isso mesmo?” “É isso. Deu agora no rádio. Eu ia votar nele. Era a nossa única esperança…”

Naquele instante chegavam uns cinco ou seis pais e mães e todos dizendo que iam votar nele, que ele era o melhor candidato, ele era o mais preparado, ele era o mais bonito, e agora não tinham opção, ele era a única esperança…

O desdém dos finados

“Mas como é que esse homem só estava com 8% no Ibope?, pensei. Pesquisas compradas, deve ser isso. Pesquisas compradas… E ainda teve uma matéria no UOL que dizia: “O estivador Donizete Maguila Júnior, 37, que mora próximo, disse que chorou ao ver o corpo do político. Ele conta que foi um dos primeiros a chegar ao local”. “Eu iria votar nele. Reconheci o corpo na hora. Era o meu candidato. Ele passava confiança. Chorei quando vi”, disse Maguila Júnior. Já em matéria veiculada no site do Jornal do Brasil, Maguila Júnior teria dito o seguinte: “O estrondo foi tão forte que as vidraças de casa quebraram e meu cachorro morreu. Em princípio, vi seis corpos. Vi pessoas gritando, chorando e muito machucadas. Mas logo reconheci o nosso candidato pela cor dos olhos”.

Não temos como duvidar do estivador quando ele fala das vidraças quebradas, da morte do cachorro, da sua confiança no candidato, do voto ora declarado e do choro sincero. Mas que reconheceu o corpo do homem pela cor dos olhos… Segundo vimos, os corpos das pessoas que estavam no avião foram dilacerados, sendo que a identificação só poderá ser feita no Instituto Médico Legal (IML), por meio de DNA, arcada dentária etc. Mas ele reconheceu o corpo do seu candidato pela cor dos olhos…

Eis aí a cobertura de uma tragédia, e com ela as opiniões antes desconhecidas, as simpatias apenas agora declaradas, os votos secretos revelados, todas as honras e todas as glórias para o novo herói nacional. Num exercício de ficção, fico a imaginar o que estaria o morto pensando sobre esses elogios, esses votos, esses choros – toda essa coroação póstuma. Então lembro do defunto-narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas: “O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós [mortos] é que não se nos dá do exame nem do julgamento.”

Então, longe do olhar da opinião terrena, já indiferente ao exame e julgamento dos vivos, o morto – neste caso, o vivíssimo Brás Cubas – conclui dizendo o seguinte: “Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.”

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Marcelo Torres é jornalista e tem pós-graduação em Jornalismo Literário

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