Segunda-feira, 25 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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MEMóRIA > MEMÓRIAS DA DITADURA

Jornalista revela tortura com cobra durante a ditadura

Por ‘FSP’ em 26/08/2014 na edição 813
Reproduzido da Folha de S. Paulo, 20/8/2014

Em texto divulgado nesta terça (19) no site “Observatório da Imprensa”, o jornalista Luiz Cláudio Cunha publicou pela primeira vez um depoimento da também jornalista Míriam Leitão em que ela conta como foi torturada com uma cobra, nua e grávida, durante a ditadura (1964-1985).

Estudante de filosofia, Míriam foi presa em Vitória, no final de 1972, quando passeava na praia com o então companheiro, Marcelo Netto.

Opositores do regime instaurado em 1964 e com ligações com o PC do B, partido banido pela ditadura, eles passaram por diversas sessões de tortura no período em que ficaram presos.

Mantido por nove meses em uma solitária, Marcelo Netto também sobreviveu.

No depoimento, a jornalista narra o período que passou numa unidade do Exército no Espírito Santo. Além de espancamentos, simulações de fuzilamento e ameaças de estupro, Míriam foi torturada com cães pastores alemães e uma cobra jiboia, colocada numa sala escura com ela após a então estudante, grávida de seu primeiro filho, ser despida pelos militares.

“Me davam tapas, chutes, puxavam pelo cabelo, bateram com minha cabeça na parede. Eu sangrava na nuca, o sangue molhou meu cabelo. (…) Não recebi um único telefonema, não vi nenhum advogado, ninguém sabia o que tinha acontecido comigo, eu não sabia se as pessoas tinham ideia do meu desaparecimento”, diz o depoimento da jornalista de “O Globo”.

Míriam Leitão disse à Folha que a decisão de trazer a público sua história em reportagem do “Observatório da Imprensa” está relacionada ao atual momento político –uma Comissão Nacional da Verdade, que deve concluir os trabalhos no final do ano, apura os crimes do período– e à insistência do jornalista Luiz Cláudio Cunha em convencê-la a falar.

“O país está olhando para seu passado. Estou convencida de que ainda falta um passo: as Forças Armadas devem reconhecer que erraram. Isso ajudaria o país a seguir adiante”, afirmou ela.

Miriam contou que havia relatado a violência diante de um tribunal militar, em 1973.

Meses após ser libertada, ela compareceu à 2ª Auditoria da Aeronáutica, no Rio, onde prestou depoimento. “Ali, falei sobre a cobra, os cachorros, denunciei a tortura que sofri quando estava grávida, na prisão”, relatou.

No fim do depoimento, Míriam conta como conviveu com o episódio: “Minha vingança foi sobreviver e vencer. Por meus filhos e netos, ainda aguardo um pedido de desculpas das Forças Armadas. Não cultivo nenhum ódio. Não sinto nada disso. Mas, esse gesto me daria segurança no futuro democrático do país”.

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