Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Divulgação de escândalo Watergate seria mais difícil hoje

Por Carlos Eduardo Lins da Silva em 28/10/2014 na edição 822

Em maio de 2009, na reunião mundial de ombudsmans em Washington, uma das sessões ocorreu no auditório do “Washington Post”.

A conferencista era a publisher do jornal, Katharine Weymouth, então com 42 anos, neta da lendária Katharine Graham.

Na plateia, estava Ben Bradlee, aos 88 anos, que, com a avó de Weymouth, foi um dos protagonistas do caso Watergate. Nos debates, o ombudsman da Folha dirigiu uma pergunta a Bradlee, e a partir dali, para constrangimento de Weymouth, o centro das atenções saiu da tribuna onde ela estava para o fundo da sala, onde Bradlee havia se sentado.

Todos queriam ouvir as opiniões de quem, por 23 anos, havia dirigido um jornal que Watergate transformou num dos mais prestigiosos do mundo.

No coquetel que se seguiu, uma grande roda se formou em torno dele. Lépido e bom de copo, Bradlee entreteve os colegas por 45 minutos com histórias saborosas dos tempos de glória do “Post”, que já se acabavam.

Não era uma entrevista coletiva, nem havia condições para análises aprofundadas.

Pressões poderosas

Teria sido interessante discutir com o líder do jornal que não deixou morrer o caso Watergate mesmo depois da reeleição esmagadora de Richard Nixon, em 1972, se algo similar seria possível no ambiente jornalístico atual.

Bradlee teve momentos de dúvida sobre se valia a pena continuar na investigação e mesmo se deveria continuar confiando totalmente na dupla de repórteres que a conduzia, como revelou sua biografia, escrita por Jeff Himmelman e publicada em 2012.

Mas a maneira como se fazia jornalismo e política na década de 1970 era muito diferente da que existe agora, 40 anos depois. Claro que as pressões do governo federal e seus aliados sobre o “Post” eram muito pesadas.

Mas Bradlee e Graham podiam tomar suas decisões mais ou menos tranquilos, e com tempo para refletir.

Na ecologia cibernética das notícias contemporâneas, o “Post” teria de lidar com um universo de informações disparatadas e recebido tantos ataques vindos de uma infinidade de veículos de vários portes (das mídias sociais às emissoras de rádio e TV de notícias 24 horas), que a capacidade de resistir do comando da redação seria testada de modo mais intenso.

As pressões oriundas de meios de comunicação de grande alcance e ideologicamente radicalizados, como a Fox News, e da instrumentalização política de Twitter, Facebook e similares certamente tornariam a tarefa de Bradlee mais complicada.

A capacidade do governo federal americano de coibir vazamentos por meio de ações legais contra jornalistas que os publicam, como a administração Obama tem realizado, poderia também impedir o trabalho dos sucessores de Bob Woodward e Carl Bernstein, e até colocá-los na cadeia.

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Carlos Eduardo Lins da Silva, livre-docente e doutor em comunicação pela USP, é autor do livro “O Marketing Eleitoral” (Publifolha). Foi secretário de redação e ombudsman da Folha de S.Paulo

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