Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

MEMóRIA > JOSUÉ MONTELLO (1917-2006)

O escritor que não dormia

Por Edmílson Caminha em 25/11/2014 na edição 826
Reproduzido d’O TREM Itabirano nº 111, novembro 2014; título original “Montello, o escritor que não dormia”; intertítulos do OI

Em 2000, o 18° Encontro Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho ocorreu em São Luís do Maranhão. Sugeri aos organizadores que homenageassem Josué Montello, o grande escritor maranhense então com 83 anos e cerca de 150 livros publicados. Autor da ideia, saudei-o na solenidade de abertura, a que compareceu, com a sua Yvonne, para receber placa que dizia do reconhecimento e da admiração dos muitos leitores que conquistara em mais de meio século de carreira.

Autor dos romances Cais da Sagração, Os Tambores de São Luís e Noite sobre Alcântara, monumental trilogia maranhense que enriquece nossa literatura, é dele, também, Antes que os Pássaros Acordem, sobre os alemães em Paris ao tempo da Segunda Guerra Mundial. Eleito aos 37 anos para a Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual viria a ser presidente, foi, entre as muitas funções que exerceu, diretor geral da Biblioteca Nacional; subchefe da Casa Civil da Presidência da República, no governo Juscelino Kubitschek; reitor da Universidade Federal do Maranhão e embaixador do Brasil junto à Unesco, na Paris que tanto amava.

Quando falei, preferi destacar-lhe o exemplo de nobreza humana e de solidariedade fraterna para com o governante de quem fora próximo, como auxiliar de confiança e redator de discursos. Amigo do ex-presidente, acompanhou-o aos quartéis durante o IPM que o acusava de corrupto e de ligação com os comunistas. Na presença do homenageado, fiz questão de dizer: “São muitos os que se põem ao lado de quem manda; poucos os que assim continuam quando se perde o poder; e pouquíssimos os que não abandonam quem cai em desgraça. Para o Juscelino melancólico e amargurado, este homem foi o amigo que não faltou, o parceiro que não se esquivou, o companheiro que não desertou”.

No dia seguinte, Ana Maria e eu visitamos a Casa de Cultura Josué Montello, no centro de São Luís. Com o casal anfitrião saboreamos um sorvete, delicioso, de bacuri com sapoti e conversamos por mais de duas horas, durante as quais o escritor, simpaticamente, respondeu às perguntas que lhe fiz.

Adido cultural

Você tem dúvidas quanto às verdadeiras circunstâncias do acidente em que morreu o mineiro Juscelino Kubitschek?

– Nenhuma. Juscelino fora a São Paulo ver aquela senhora com quem mantinha um romance, e por isso regressava ao Rio de carro – ele, que só viajava de avião –, para não se encontrar com dona Sarah, que sempre o esperava no aeroporto. Quando morreu, o ex-presidente levava no bolso o pequeno caderno em que tomava notas do que lhe interessava – inclusive os encontros amorosos. Um médico, pretenso amigo dele, correu à Via Dutra quando soube do desastre, pegou as anotações e as entregou ao general Golbery do Couto e Silva. Desconheço que fim levou esse diário: sei que acabou chegando a Armando Falcão.

E a derrota de Juscelino na eleição para a Academia Brasileira de Letras?

– Mas ele não foi derrotado: Juscelino ganhou a eleição por um voto! O problema é que esse voto desapareceu da urna, com o que Bernardo Élis se elegeu. Foi doloroso para o ex-presidente, que caiu em prantos ao receber a notícia de que perdera.

Aquela famosa frase de JK, “Deus poupou-me o sentimento do medo”, quem realmente a escreveu? Autran Dourado afirma que foi ele…

– Não! Foi Álvaro Lins, autor de memoráveis discursos para o presidente. Eu me orgulho de haver escrito o da inauguração de Brasília, um dos mais importantes feitos por Juscelino… Quando lançou a campanha “JK 65”, o ex-presidente telefonou para Dourado pedindo-lhe a colaboração. A resposta foi que não dispunha de tempo, já que se dedicava totalmente à carreira de escritor… Juscelino, que lhe havia presenteado com um cartório, retrucou: “Veja como são as coisas, Dourado. Quando você era escritor, dizia-me que queria ser escrivão. Agora, que é escrivão, me diz que quer ser escritor…”

Como subchefe da Casa Civil no governo Kubitschek, natural que você tratasse o presidente por “senhor”. Por que, depois, manteve o tratamento na relação que cultivavam como grandes amigos?

– Para que não se sentisse menor, menos importante, por já não ocupar o poder. Sempre o chamei de senhor, mesmo nos momentos informais, nas conversas mais íntimas.

Você foi amigo do general Costa e Silva?

– Amigo não, mas nos dávamos bem. Tudo por conta de um artigo que escrevi para o Jornal do Brasil, contando as conversas do cadete Costa com o escritor Lima Barreto, internados ambos em uma enfermaria do Hospital do Exército… Costa e Silva gostou da história, e passou a me tratar com simpatia. Certa ocasião, ele – já escolhido para a presidência – aproximou-se de mim em uma recepção diplomática e disse que gostaria de me nomear adido cultural junto à embaixada do Brasil em Paris. Respondi-lhe que, nos próximos dois anos, não haveria como aceitar a indicação, pois que eu assumira a tarefa de organizar e fazer funcionar o Conselho Federal de Cultura. “O cargo ficará, então, à espera do senhor.” E ficou: passados os dois anos, fui empossado adido cultural na França – para o descontentamento do meu antecessor, Guilherme Figueiredo…

Tramas engenhosas

Às belas histórias que escrevia, juntem-se as que Montello gostava de contar. Como a da eleição do conterrâneo Viriato Correia para a ABL. Depois de várias candidaturas, resolve tentar mais uma vez, e pede a opinião de Fidélis, o porteiro que, de tanto ouvir segredos de quem votava, conhecia como ninguém os bastidores da instituição:

– Seja sincero: você acha que agora dá?

E o velho servidor, que certamente desconhecia a obra do postulante:

– Doutor Viriato, pra Deus nada é impossível…

Por mérito literário ou – quem sabe? – intercessão divina, o candidato venceu a disputa.

Insone, Josué dormia apenas três horas por noite, suficientes para restaurar-lhe as energias. Certa vez, um embaixador africano junto à Unesco, de quem o colega brasileiro era vizinho de apartamento no andar inferior, aborda-o à saída do prédio na elegante Avenue Foch:

– Desculpe-me perguntar, mas o senhor nunca dorme…?

– Durmo, sim. Pouco, mas durmo…

– É que, quando me deito às dez da noite, ouço o senhor a datilografar na sua máquina de escrever. Quando acordo, às seis da manhã, o teque-teque é o mesmo!

Felizmente: dormisse as oito horas regulamentares, Josué Montello não nos teria deixado tantos livros, que impressionam pelo engenho da trama e pela força das personagens. Morto em 2006, a caminho dos 89 anos, costumava dividir os romancistas entre “os que escrevem uma história” e “os que contam uma história”. Mestre do gênero, Os Tambores de São Luís continuam a bater para provar que quem os fez pertence à egrégia minoria dos que estão em ambos os grupos.

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Edmílson Caminha é escritor e jornalista

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