Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

MEMóRIA > SÉRGIO FLEURY (1941-2014)

Um repórter do tempo das ‘pretinhas’

Por Israel Tabak em 25/11/2014 na edição 826

Cotocos de cigarros enfileirados ao lado da máquina de escrever. Um terrível cheiro de chumbo saindo de rudimentares condutos de ventilação que passavam também pela oficina, no tempo das linotipos. O chumbo “encanado” não era suficiente para atrapalhar a inspiração que a fumaça tragada ao longo do dia trazia a Sérgio Fleury, nos idos de 1966, quando o conheci na velha sede do Jornal do Brasil, na Avenida Rio Branco, Centro do Rio de Janeiro.

Fleury era dono de uma singular sensibilidade para captar pequenos e interessantes detalhes de fatos que passariam ao largo de um repórter burocrático. Personagens, comportamentos, cenas, paisagens, um cotidiano em constantes e às vezes traumáticas transformações na cidade que ele amava muito. Desde cedo também se apaixonou pelo jornalismo bem feito, decente.

Na realidade, todos nós que tivemos a sorte de trabalhar no JB daquela época éramos apaixonados pelo nosso ofício. Tempos de criatividade, inovação, modernização, profissionalização e dignificação do trabalho do jornalista, em um veículo que ficou sem competidor durante muitos anos, anos-luz à frente dos demais.

Projeto de vida

Fazer um lead era arte requintada. Alguns repórteres se torturavam para criá-lo. O texto de Fleury saía leve e solto, como ele mesmo levava a vida. Tornou-se exemplo de profissional como hoje há poucos: o repórter que ia para a rua à cata de boas histórias, avesso às quatro paredes e às fontes de sempre, ao declaratório insípido, aos números frios e descontextualizados, à notícia que já vem dos gabinetes numa folha de papel mal redigida.

Procurava desenterrar de ambientes e lugares menos formais o material que realmente interessava. Foi assim que, a partir de rabiscos em papéis retirados da lata de lixo, reconstruiu a história de uma importante reunião, cujos participantes, autores dos rabiscos, haviam negado acesso aos jornalistas.

A reportagem de qualidade, como quase sempre ocorre nas redações brasileiras, perdeu um expoente quando Sérgio Fleury deixou as ruas, convocado para ser chefe de reportagem, editor ou assessor de imprensa, em vários locais. Mas, quase ao mesmo tempo, a herança bendita do velho JB ganhou seu mais notável militante. Não se tratava de um saudosismo estéril, da simples perpetuação de um passado distante e já desinteressante, como alguns poucos invejosos podem fazer crer.

A criação de um blog como o Álbum Jotabeniano, as reuniões, eventos criativos, almoços, jantares que ele organizava, ao lado de outros colegas, tendo como pano de fundo o velho JB, acabaram se constituindo em um importante resgate histórico da fase mais apaixonante e criativa da reportagem brasileira, o marco zero do nosso moderno jornalismo. Viver de fazer boas reportagens, sustentar a família batucando as “pretinhas” passou a ser possível e – mais do que isso – se transformou no projeto de vida dos jovens que começavam a sair das faculdades de comunicação.

Convivência rica

Sérgio Fleury, que tentara antes a arquitetura, começou no Jornal do Brasil em 1965 e não era formado, como muitos repórteres dos anos 1960. Mas, no momento atual, quando a chamada convergência de mídias – eufemismo para o barateamento da mão de obra – e a consequente desvalorização da reportagem bem fundamentada produzem um retrocesso na qualidade dos veículos, o exemplo de Fleury deve servir de inspiração para quem ainda acredita na força transformadora do jornalismo.

No JB, o fazer jornalístico nos absorvia, de dia e de noite, de madrugada, na redação, no bar, na praia e até em casa. Pobres das nossas famílias que até hoje têm que ouvir infindáveis histórias, que não cansamos de, obsessivamente, contar e repetir, como se fosse a primeira vez. Fleury se foi e com ele um repertório de narrativas deliciosas, que nós, seus amigos, não temos o direito de deixar sumir da memória.

Vamos continuar perpetuando, em nossos corações, um tempo incomparável, de alegrias e conquistas, de rica convivência humana que – na muito sentida ausência de Fleury – vai continuar iluminando o nosso caminho.

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Israel Tabak é jornalista

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