Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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Palhaço triste de Chaplin em uma vila mexicana

Por Gustavo Fioratti em 02/12/2014 na edição 827

Toda vez que começava um episódio de “Chaves”, todo mundo sabia, alguém cometeria um erro besta, desviando o rumo daquela vida pacata.

Esse alguém, em geral, era o próprio Chaves, um menino de rua desamparado, sem pai, sem mãe, sem um irmão que o defendesse.

Além de ser vítima do sistema, o personagem de Roberto Bolaños virava o centro do espancamento geral. A menina Chiquinha o trapaceava, Seu Madruga usava o coitado de laranja para escamotear problemas do ócio, o mimado Quico fazia o pobre menino passar vontade, exibindo brinquedos e pirulitos gigantes.

Com esse rico personagem, Roberto Gómez Bolaños criou o idiota perfeito, uma criança às vezes lunática, às vezes limitada, e sempre com fome.

Quando fazia algo de errado e alguém o indagava, ele se entregava de um jeito muito simples: mexendo nos suspensórios. Quando sofria bullying, dizia que ninguém tinha paciência com ele e entrava dentro de um barril, seu refúgio.

Personagem clássico

Para interpretar a figura do idiota perfeito é preciso certa sofisticação no olhar perdido, na falta de malícia em toda e qualquer intenção. Bolaños tinha essa qualidade nata, porque o Chapolin Colorado, herói torto, era totalmente igual.

Quando ele chegava para combater um bandido muito mau, por exemplo, ele pioraria a situação. Acabaria, provavelmente, ajudando o sujeito, ou o irritaria ainda mais, agravando tudo. Mesmo o final feliz era garantido por um erro, que teria efeito contrário e se tornaria um acerto. Mas, intencionalmente, Chapolin não acerta nunca. E nem deve. A empatia com o espectador, qualidade capaz de segurar a audiência por anos e anos, surge justamente da falta de habilidade.

Por isso o Chaves de Roberto Bolaños tornou-se um personagem clássico. No fundo, resgatou a figura do palhaço triste também interpretada por Charles Chaplin e Lucille Ball, da série “I Love Lucy”.

Só que dentro de uma vila mexicana, o que lhe garante alguns bons momentos de afeto. Um alívio para as crianças.

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Gustavo Fioratti, para a Folha de S.Paulo

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