Quarta-feira, 13 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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Os 40 anos do falecimento da radialista Marina Moura Peixoto

Por Fernando Moura Peixoto em 10/02/2015 na edição 837

“Menina prodígio – aos três anos e oito meses dava seu primeiro recital –, companheira inseparável de Perilo Galvão Peixoto (1913-2002), Marina Quartin de Moura – esse seu nome de solteira – também foi um marco na antiga Rádio MEC, Ministério da Educação e Cultura, onde chegou a chefiar o setor musical da emissora, que era uma referência de qualidade na radiofonia brasileira.” Produtora dos programas Atendendo Aos Ouvintes, Em Resposta À Sua Carta, Música de Todos os Tempos, Música, Apenas Música e Quartetos – todos de maior sucesso, ela ingressou na Rádio MEC em 1942. Além de produtora musical, também escrevia sobre o tema. Teve artigos estampados em jornais da época. No Diário de Notícias, por exemplo, publicou o texto “O Saxofone na Música Erudita” e “A Mulher na Composição Musical”. Nesta última, registra todas as compositoras que marcaram época no panorama musical erudito. Em 1932, como emérita pianista, recebeu a Medalha de Ouro da Escola Nacional de Música, por unanimidade de votos, com apenas 15 anos. Desde cedo impressionava público e especialistas, sendo saudada pela mídia de então como “Pianista Minúscula”, “Marina Criança” e “Marina Artista”. Acerca de seu talento precoce, em abril de 1923 a revista O Beija Flor fazia o seguinte comentário: “Marina Moura, filha do sr. Eduardo José de Moura Filho [1867-1948], é uma mimosa e excepcional pianista carioca que tem pasmado assistentes entendidos, em recitais que vem realizando desde os quatro anos de idade, na Associação dos Empregados do Comércio, no Theatro Municipal e no Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro, conquistando sucessivos triunfos.”

Mãe extremada e profissionalmente solidária com os amigos, em 1964, à época da ditadura militar, quando chefiava o setor musical da Rádio MEC, prestou-se como testemunha de defesa a companheiros que eram apontados pelo regime de então como subversivos, entre eles, a professora Maria Yedda Leite Linhares (1921-2011) e o pesquisador musical Hermínio Bello de Carvalho (1935). Ambos seriam absolvidos. Em duas crônicas publicadas por Artur da Távola (1936-2008) no jornal O Dia, em setembro de 1999, Marina Moura Peixoto e Perilo Galvão Peixoto – que produziu o programa Ópera Completa, de 1953 a 1956, na mesma Rádio MEC – foram incluídos na lista “Ave, Radialistas”, que destacava cerca de trezentos profissionais que fizeram o rádio do século 20. Escreveu então o jornalista: “Rádio, século 20. Pouca gente sabe agradecer ao rádio. O que fez, faz e fará pela alegria, distração, informação e cultura. Devemos ser gratos. Muito gratos aos radialistas. Fim de século! Século da televisão? Talvez. Sem dúvida, o século do rádio.” Arnaldo José Senise (1945-2007), jornalista, musicólogo, pedagogo e pesquisador, autor de um livro sobre Guiomar Novaes (1894-1979), A Volta da Primeira Dama do Piano, considerava a arte de Marina “inimitável”. “Em 2005, entusiasmado, afirmou: “Ela tinha todas as grandes qualidades das pianistas excepcionais: tom, técnica, temperamento e lirismo, conduzidos sempre por uma inteligência musical bem preparada e cultivada.” Entre as façanhas que atribuiu a Marina, além da precocidade artística – ela passou a concentrar-se na música não muito depois de ter nascido, em 27 de março de 1917, na Tijuca, no Rio de Janeiro – está a de executar obras depois de apenas tê-las ouvido, sem ver a música. “É um dom extraordinário”, diz Arnaldo Senise, confirmando outro dote que também extasiava as plateias: a capacidade que tinha, ainda aos quatro anos incompletos, de identificar, de costas para o piano, e depois tocar os acordes sugeridos por pessoas presentes às audições.” “O interesse de Senise pela vida e obra de Marina foi despertado ainda durante a diplomação dele pelo Conservatório de Música de Jaú, em São Paulo. Ao continuar seus estudos de piano, estética e análise musical com Sofia Mello de Oliveira (1897-1980), dileta discípula de Luigi Chiaffarelli (1856-1923), ouviu dela menções elogiosas a Marina Quartin de Moura – o Peixoto, no sobrenome, só viria em 1945, quando casou e abandonou a carreira artística.”

“O passado só tem sentido quando vivo”

Autor do encarte da série “Grandes Pianistas Brasileiros”, Arnaldo José Senise levantava material para publicação de livro, acompanhado de CD, com gravações inéditas de Marina, que considerava uma das melhores intérpretes das obras de Chopin, quando veio a falecer, em 2007, inviabilizando o projeto. “Senise e equipe percorreram as várias capitais, entre elas, Aracaju, Maceió, João Pessoa e Vitória, aonde Marina fez tour artístico levando sua ‘arte inconfundível e emocionante’. Recolhia documentos, pesquisava jornais da época, crônicas e artigos que foram publicados sobre a artista.” “Pasmem, a maior dificuldade ele encontrou exatamente na Rádio Ministério da Educação e Cultura, onde Marina também se destacou como produtora musical. Foi um trabalho árduo, de muito convencimento. Havia poucos remanescentes daquela época, algum material espalhado no arquivo morto, como fotos e scripts dos programas. De gravação, uma muito especial: a das canjas musicais que ela dava a notáveis da época, entre eles Roquette-Pinto (1884-1954), Heitor Villa Lobos (1887-1959) e Fernando Segismundo (1915-2014), só para citar alguns. As gravações, todas com músicas brasileiras que vão engrossar o CD com o livro sobre a vida e obra da artista carioca, foram feitas a pedido de Roquette-Pinto, sem o conhecimento prévio de Marina – informou Senise.”

“O depoimento mais emocionado foi o de Fernando Segismundo. Ele nutria grande apreço não só por Marina como também pelo seu marido, o médico, jornalista e radialista Perilo Galvão Peixoto, que também conduzia um programa na mesma rádio em que a mulher trabalhava. Segismundo fala de uma Marina refinada, mas que era dotada também de grande simplicidade durante suas apresentações, onde mesclava sempre alegria e bom humor”, ressaltou Senise. Mas não é só ele que tem menções elogiosas a Marina. O jornalista, radialista e professor Reynaldo C. Tavares – autor dos consagrados livro e CD Histórias Que o Rádio Não Contou – também reverencia a memória de Marina. “Num país em que se cultua apenas os fúteis artistas desprovidos de talento, mas prestigiados pela mídia tupiniquim, é gratificante ler sobre a vida e a obra da grandiosa pianista Marina Moura Peixoto. Sua história de vida, seu apego à arte, que ela tão bem traduziu nos acordes pianísticos que encantaram o Brasil afora, é uma história que merece ser sempre recontada.” “Referência nas faculdades de Comunicação, na cadeira de Rádio-Tele-Educação, referenda não só a presença de Marina como pianista, mas também o grande serviço que prestou à radiodifusão como produtora do programa Atendendo Aos Ouvintes, na antiga Rádio MEC. Sem exagero é possível dizer que foi o primeiro programa interativo, de utilidade pública, difundindo arte, com trocas de informação com os ouvintes, que tinham nela sempre um referencial de qualidade e conhecimento”, contou o jornalista.” Se viva fosse, Marina Moura Peixoto estaria fazendo 98 anos no dia 27 de março deste ano. Ela morreu precocemente em 26 de fevereiro de 1975, vítima de um câncer, aos 57 anos incompletos. “O passado só tem sentido quando vivo. O verdadeiro passado não é aquilo que não existe mais. É aquilo que conserva um sentido para as nossas vidas de hoje. Pois memórias, como já dizia Afonso Arinos de Melo Franco (1905-1990), nada mais são que a reelaboração de um mundo extinto, mas nem por isso menos real.”

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Fernando Moura Peixoto é jornalista

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