Segunda-feira, 22 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Como fará falta

Por Pedro Doria em 24/02/2015 na edição 839

O New York Times é, talvez, a principal referência do jornalismo impresso mundial. É um jornal ao qual todos prestamos atenção, ainda mais em momentos de transformação como o atual. A cada dois anos há uma violenta mudança na maneira pela qual pessoas se informam. Vivemos o apogeu e a queda da blogosfera, houve um período curto de domínio dos sites de agregação, transitamos daí para as redes sociais e agora iniciamos o período em que estas redes se encontram com celulares para nos dominar o cotidiano. São mudanças contínuas, que exigem, de nós, jogo de cintura e capacidade de acompanhar o ritmo dos leitores. Neste ambiente, a voz de David Carr, colunista que comentava sobre o negócio da mídia no Times, era companhia imprescindível.

Carr morreu repentinamente, na quinta-feira [12/2]. Tinha 58 anos. Seu coração não aguentou a metástase do câncer de pulmão, falhou. O repórter estava, como cabe, na redação. Como sua voz nos fará falta.

A imprensa de opinião é de melhor qualidade quando traz, para o leitor, inteligência. Carr era isso: um homem inteligente. Capaz de reflexões originais, um sujeito arguto, que encontrava ângulos inusitados para observar o que as indústrias de jornalismo e entretenimento encaram.

Ele tinha, também, algo de idealista. Carr carregava consigo uma bandeira que erguia sempre, a de sua crença inabalável na importância do jornalismo. Do bom jornalismo: aquele capaz de trazer à tona fatos que o poder preferiria esconder. O jornalismo que não se curva a quaisquer pressões. Perante todas as tentações do discurso da internet que se seduz pelo amadorismo, Carr insistia na importância de redações profissionais, seguindo rígidos critérios éticos, fazendo o trabalho duro e lento de levantar os dados, buscar comprová-los, um dia após o outro.

Defensores apaixonados

Não era ludita: embora preferisse o Twitter ao mais popular Facebook, entregava-se à internet com determinação. Acabara de começar a carreira de professor, na Universidade de Boston. Em seu curso inaugural, escreveu, “nós vamos aprender como descobrir uma boa história, como apurar os fatos a seu respeito”, a definição de jornalismo tradicional. Mas, igualmente, “aprenderemos sobre os sistemas de publicação na internet, a confecção de pacotes multimídia, técnicas de distribuição e divulgação do trabalho”. Um pé no passado, outro no futuro.

Carr era, para muitos, a imagem do Times. Um colunista tão importante que marcava o jornal. No jornalismo, há poucos cargos assim relevantes como o que alcançou. Conseguiu o feito porque era de uma inteligência tão particular que lhe permitiu sobreviver a uma vida dificílima. Por dez anos, viveu do consumo continuado de cocaína e crack, passava os dias sob seu efeito, entre uma carreira e uma injeção. Pai de duas meninas gêmeas, arrancou-se a si próprio do fundo do poço sem conseguir trazer a mulher. Criou as filhas sozinho, galgou degraus na imprensa alternativa, começou a escrever para revistas intelectualizadas e, um dia, estava no principal jornal americano. Lançada em 2008, sua autobiografia é um trabalho de reportagem no qual entrevistou gente com quem conviveu nos anos das drogas para ser capaz de contar sua história. Friamente sincero, porém nunca desleal.

Num tempo em que o poder se organiza para burlar o jornalismo, entregando sua versão oficial enquanto faz propaganda pelos meios digitais, esta é uma profissão que necessita de defensores apaixonados. Nisto, David Carr era de longe o melhor. Como fará falta.

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Pedro Doria, do Globo

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