Terça-feira, 18 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
Menu

MEMóRIA >

A cara do Estadão

Por Julio Ottoboni em 15/04/2008 na edição 481

A morte do jornalista Eduardo Martins encerra um ciclo nos jornais brasileiros, o das redações-escolas. Se o Estadão tinha uma identidade personificada, um traçado facial humano, era com certeza a cara do Eduardo Martins. Erudito, ranzinza, meticuloso, competente, didático, conservador e por vezes mal-humorado. Sem dúvida, uma referência em diversos sentidos dentro do jornal. Gostassem ou não do jeito dele, ninguém que o teve como companheiro pode contestar sua eficiência, profissionalismo e dedicação.


Apesar do meu cargo de repórter da rede nacional, trabalhei diretamente ligado a ele por vários anos na década de 1990, quando o jornalão dos Mesquitas primava ainda por ter uma cobertura paulista, e não somente paulistana. Ter como editor o criador do Manual de Redação e Estilo não era fácil – ou se conhecia a ‘bíblia’ do Eduardo, ou se tinha a certeza que o texto seria alvo da caneta. Sem dó nem piedade.


A conseqüência dos deslizes eram mensagens ou broncas telefônicas sobre os erros cometidos. Não lhe escapava nada. E a solução era abrir o manual de 400 páginas e coluna dupla e estudar. Sem dúvida, uma escola fantástica, dirigida por alguém que realmente se importava com a qualidade do que seria impresso e em exigir isto de todos, desde os novatos até os históricos da redação.


Rígido, nunca censor


Como todo professor exigente – e ele tinha uma postura professoral –, muitos viam aquela cruzada pela normatização do texto e do estilo como algo secundário ou mesmo cerceador. Alguma coisa entre o irritante e o ‘chato’, adjetivo esse que acabou por colar na própria figura do mestre.


Mas com o passar do tempo grande parte acabava por perceber que estava numa escola de jornalismo, onde as falhas eram sistematicamente corrigidas por um jornalista exemplar. Mesmo aqueles que se remoíam de raiva ao ver os erros marcados em caneta vermelha nas páginas do jornal, solenemente pregadas numa das pilastras da redação, sabiam que estavam diante de um homem obstinado e exemplarmente perfeccionista.


O ganho profissional em se ter alguém como o Eduardo Martins ao lado era fantástico, é inegável. E ele era um apaixonado por belos textos, o que o fez um grande conhecedor de literatura e profundo admirador da música de Adoniran Barbosa. Se o repórter desenvolvia um estilo próprio, dentro das regras estabelecidas, era elogiado. Apesar da rigidez, ele nunca se tornou um censor ou castrador da criatividade.


Jornalista-professor


Para facilitar a vida dos mais aflitos, o jornal criou o curso interno do Manual de Redação. E uma das saídas era sumariar os itens mais importantes em pequenas apostilas, que até hoje, quase uma década depois de minha saída do Estadão, ainda utilizo.


Eduardo Martins fez história, não só Grupo Estado. Num país cujos índices de leitura são baixíssimos, inclusive na classe média, ele conseguiu transformar o Manual de Redação e Estilo, uma ferramenta exclusiva do jornal, em best-seller celebradíssimo pelos quatro cantos do país.


Com o falecimento de Eduardo Martins – o homem das palavras cruzadas –, boa parte da história do Estadão seguirá com ele. Espero que não deixem essa rica memória, tanto pessoal como institucional, desaparecer no esquecimento. Embora acredite que com ele se foi o último jornalista-professor das redações.


 


Leia também


A morte de um mestre — Adhemar Oricchio


A paixão pela palavra certa — José Maria Mayrink

******

Jornalista

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem