Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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MEMóRIA > Jornal da Tarde 1966-2012

A censura chega ao Jornal da Tarde

Por Equipe do Observatório da Imprensa em 30/04/2019 na edição 1035

Na luta contra a censura imposta pela ditadura militar a partir do AI-5, em dezembro de 1968, o Jornal da Tarde começou com uma vitória: driblar os policiais que tentavam impedir a circulação do jornal. Essa é uma das histórias que o jornalista e escritor Ferdinando Casagrande conta em Jornal da Tarde – Uma ousadia que reinventou a imprensa brasileira, obra vencedora do primeiro Prêmio Livro-Reportagem Amazon, a ser publicada também pela editora Record até o fim do ano.

Em uma parceria com o autor, o Observatório da Imprensa publica, durante quatro semanas, capítulos do livro com alguns dos momentos mais relevantes da história do JT, como o jornal era chamado. Nesta segunda edição (a primeira pode ser conferida aqui), o capítulo 22 da obra, a redação se posiciona contra as medidas do governo.

Jornal da Tarde – Uma ousadia que reinventou a imprensa brasileira
Autor: Ferdinando Casagrande

Capítulo 21

A censura a O Estado e ao Jornal da Tarde começou horas antes de o presidente Costa e Silva assinar o Ato Institucional número 5, que dissolvia o Congresso Nacional, submetia o Poder Judiciário ao Executivo e dava ao presidente da República poderes extraordinários. Na madrugada do dia 13 de dezembro, a Polícia Federal invadiu a sede do jornal para apreender, nas rotativas, os exemplares d’O Estado que estavam sendo impressos.

A ordem partiu do chefe da Polícia Federal em São Paulo, general Silvio Correia de Andrade. O motivo era o editorial da página 3, intitulado “Instituições em frangalhos”. No texto, escrito após a Câmara dos Deputados negar autorização para que o Executivo processasse o deputado Márcio Moreira Alves, o doutor Julinho criticava a figura do presidente da República: “Governar uma nação de 80 milhões de habitantes é coisa muito diferente do comando de uma divisão ou de um exército”. E dispensava os habituais eufemismos para classificar abertamente o regime como uma ditadura militar.

Horas mais tarde, investigadores da PF voltaram ao edifício da Major Quedinho para apreender também o Jornal da Tarde, cuja impressão começava no final da manhã. Avisados do que estava acontecendo na oficina, alguns jornalistas desceram ao saguão para falar com os policiais. Estavam nesse grupo Ewaldo Dantas Ferreira, Carlos Brickmann, Inajar de Souza, Percival de Souza, Fernando Portela, Guiherme Duncan de Miranda, Sandro Vaia, Rolf Kuntz e Miguel Jorge — que anos mais tarde seria ministro do governo Lula. Brickmann iniciou o diálogo com os tiras.

— Quem é o senhor?
— Sou da Polícia. Tenho ordem verbal para impedir que o jornal saia.
— E quantos homens o senhor trouxe para cumprir a ordem?
— Um.
— Vocês estão apenas em dois? – perguntou Brikcmann, surpreso. — Então sinto muito, mas o jornal vai sair.
— Como vai sair? Vocês vão descumprir uma ordem policial?
— É uma questão matemática. Vocês são dois, nós estamos em maior número. Ou o senhor pede reforço, ou o jornal vai sair.

O policial ligou para a sede da PF explicando o que se passava. Enquanto esperavam por mais agentes, os policiais se posicionaram na porta de saída dos caminhões, na Rua Major Quedinho. Os jornalistas e os engenheiros da produção mandaram a gráfica a tirar o jornal por uma canaleta improvisada, que despejava os exemplares em caminhões estacionados na rua Martins Fontes, atrás do prédio.

Como o reforço demorava a chegar, um dos policiais pediu para usar o telefone do balcão de anúncios, que ficava bem na frente de uma janela com vista para a Martins Fontes. Por ali, ele poderia ver os caminhões sendo carregados. Ao perceber essa possibilidade, Guilherme Duncan de Miranda, todo cortês, se antecipou.

— Deixe-me fechar esta cortina para que o sol não o atrapalhe.
O reforço finalmente chegou, comandado pelo delegado Alcides Faro, oficial de gabinete do general Silvio Correa de Andrade, e bloqueou a saída dos caminhões pela Major Quedinho. O carregamento, porém, continuou pela Martins Fontes. Um cidadão que passava pelo local abordou os policiais.
— O que está acontecendo? – perguntou ao chefe da operação. — É contrabando, doutor?
— Não, é jornal apreendido mesmo.
— Apreendido coisa nenhuma. Vocês pensam que eu sou bobo? Então eu não estou vendo sair um monte de jornal do lado de lá, na outra rua?

Os policiais trocaram olhares e um dos agentes comentou com o chefe:
— Doutor Faro, aqui tem algum macete.

Os policiais foram para a rua Martins Fontes, mas já era tarde. Ao todo, 84.900 exemplares do JT haviam sido escoados pela canaleta improvisada. Foram distribuídos na capital, no litoral e nas cidades do interior num raio de 100 quilômetros.

Ao descobrir que fora ludibriado, o general Correa de Andrade ficou furioso e saiu pessoalmente recolhendo exemplares nas bancas da cidade. Ivan Ângelo presenciou a cena na rua Maranhão, bairro de Higienópolis, onde morava.
— Este jornal traiu a Revolução de 64 – explicava o general aos jornaleiros enquanto recolhia os exemplares.

***

Naquela mesma tarde, o governador Abreu Sodré, amigo da família Mesquita, marcou um encontro dos donos do jornal com o chefe da Polícia Federal no Palácio dos Bandeirantes. Doutor Julinho não compareceu, mas enviou seu filho, Julio Neto.

O general Correa de Andrade explicou que a apreensão havia sido uma decisão pessoal, por considerar que o editorial inflamava a opinião pública contra o presidente. E pediu que O Estado e o JT passassem a fazer autocensura das matérias publicadas. Julio Neto, imaginando que isso lhe seria pedido, já trazia a resposta:

— Nós não aceitamos fazer autocensura, — avisou ao general. — Se o governo quer censurar nossos jornais, que coloque censores na redação.

Os primeiros censores chegaram ao prédio d’O Estado naquela mesma noite, às 22 horas. Eram funcionários da Divisão de Diversões Públicas da Secretaria Estadual de Segurança. No JT, o censor tomou uma vaia assim que entrou na redação. Ainda sem entender o que estava acontecendo, foi se sentar ao lado de Ivan Ângelo. Revoltados com aquela situação, os jornalistas começaram a se retirar da sala. Quando percebeu o movimento, o censor perguntou a Ivan:

— Isso é comigo?
— Com certeza. Eu trabalho aqui há três anos e isso nunca aconteceu comigo.

***

O AI-5 anunciado naquela mesma noite pelo ministro da Justiça, Luís Antônio da Gama e Silva, suspendia várias garantias constitucionais, como o habeas corpus para crimes contra a segurança nacional, o direito de realizar manifestações públicas de ordem política, o direito de votar e ser votado em eleições sindicais e o foro privilegiado em função do cargo — este último, mirando claramente no deputado Márcio Moreira Alves, que havia feito o discurso inflamado contra os militares na tribuna da Câmara dos Deputados no início de setembro. Também acabava com a liberdade de imprensa.

Revoltados com as medidas, os jornalistas do JT entraram em greve contra a edição do Ato. Ruy Mesquita, Murilo Felisberto, Ivan Ângelo e mais alguns editores tiveram de fechar a edição com a ajuda de contínuos e telefonistas.

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