Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MEMóRIA > HILDA HILST (1930-2004)

A concordância profunda

Por Gabriel Perissé em 10/02/2004 na edição 263

Li agora mesmo, neste último segundo, em manchete internética: ‘Sepultada em Campinas corpo da escritora Hilda Hilst’. A pressa de noticiar levou ao erro de concordância, e a pressa, não contente, permitiu e permite que o erro continue no ar, online, e o erro vem em letras que, para efeitos de web, poderíamos chamar garrafais (o tamanho da fonte é 19,5), e a pressa fará com que eu leia, aceite, engula, e nada comente.

Mas minha mente já quarentona perdeu o dom da distração. O erro de concordância (e justamente com a escritora) me dá ânsia, impaciência, sinto a vontade farisaica de jogar pedras na tela do computador, tentando atingir o virtual jornalista.

Esqueça a violência, Gabriel, não atire a primeira pedra. Você mesmo, talvez aqui mesmo, neste artigo mesmo, cometerá o seu erro, ou mais de um, participará da violência diária contra o idioma, que comete também alguns adultérios…

Minha mente quarentona se acomoda com a argumentação. O mouse me afasta do erro. Contudo, o erro sempre oculta entre suas vestes uma verdade menos óbvia. Por trás de um deslize pode haver uma captação genial da realidade. Minha mente quarentona entra em crise e volto à página.

Volto à página antes que um cristo salve a frase, ou antes que outras notícias mais urgentes a substituam: ‘Sepultada em Campinas corpo da escritora Hilda Hilst’. Ainda está lá, graças a Deus, gritando em meus ouvidos.

A escritora, posta em sossego, observa minha inquietação. E se houver nas entreletras uma mensagem metafísica? O corpo não foi sepultado em Campinas. A escritora, sim, mas o corpo não. A concordância superficial entre verbo e escritora deixa de fora o corpo insepulto. Que corpo será este?

O corpo de sua obra literária. Vai-se a escritora, ficam os livros. Verdade tão antiga e tão nova, que a minha intolerância gramatical jamais conseguiria vislumbrar. O extenso corpo da escritora são os seus quarenta e um títulos, são as suas páginas vivas sobre a vida, são as suas cartas sedutoras, seus contos e cantares, seus cascos e carícias.

Confesso, nunca fui um grande leitor de Hilda Hilst. Se li dois livros de sua lavra, foi muito. Mas, graças ao acertado erro do jornalista virtual, descobri a concordância profunda entre a imortalidade possível e o corpo de papel que todo escritor escreve para si mesmo.

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(*) Doutor em Educação pela USP e escritor

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