Sábado, 30 de Julho de 2016
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº913

MEMóRIA > Os jornais como arma política

A imprensa gaúcha na revolução de 1923

Por Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite em 09/01/2016 na edição 884
Assis Brasil

Assis Brasil

Há 93 anos, no mês de janeiro, eclodiu, em nosso estado, a Revolução de 23. O poder constituído e oposição se digladiaram novamente no cenário político. O ódio e revanchismo, desde a Revolução Federalista (1893-1895), não haviam sido aplacados.  Em 1923, o Rio Grande do Sul foi palco do confronto entre os assisistas e borgistas.  O primeiro grupo era formado pelos dissidentes do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), sob a liderança de Assis Brasil (1857- 1938) e o segundo grupo, composto por chimangos, era comandado por Antônio Augusto Borges de Medeiros (1863-1961) que governou o Estado por mais de 20 anos.

As facções políticas

Chimango ou borgista (lenço branco) é uma alusão à ave de rapina dos pampas. Consagrou-se na obra “Antônio Chimango” (1915) de Ramiro Barcelos (1851-1916). Nesta, o autor usou a alcunha de Amaro Juvenal, criticando o presidente do estado Borges de Medeiros.  Maragato (lenço vermelho) nos remete à Maragateria, na Espanha, cujos habitantes eram vistos como bandoleiros. Usado pela situação (PRR), o termo visava a depreciar os adversários exilados, no Uruguai, porém foi aceito com orgulho, pela oposição, desde a Revolução Federalista (1893-1895).

O historiador Helio M. Mariante (1915-2005) definiu o confronto como uma luta de guerrilhas entre facções políticas. Os chimangos ou borgistas eram superiores, belicamente, e tinham o apoio da Brigada Militar.  Durante o conflito, a oposição contou com os caudilhos Honório Lemes (1864-1930), “O Leão do Caverá”, Zeca Netto (1864 -1948), “O Condor dos Tapes”, e Leonel Rocha (1865-1947) que combateram, no interior do RS, as forças borgistas. O confronto durou 300 dias, totalizando 21 combates, nos quais se perderam mais de mil vidas.

Borges de Medeiros

Borges de Medeiros

A fraude eleitoral

Nas eleições, de 25/11/1922, Borges de Medeiros foi vitorioso.  Embora a escandalosa fraude, o resultado foi ratificado pela Comissão de Poderes da Assembleia, em 16/01/1923, curiosamente composta, exclusivamente. por borgistas. Segundo o historiador Moacyr Flores, havia 267.690 eleitores nos 72 municípios do RS. Foram 106.360 votos a favor do chimango Borges de Medeiros, enquanto Assis Brasil teve 32.217.

No dia 25/01/1923, na posse do seu 5º mandato, a oposição deu início ao confronto, a partir de Passo Fundo e Palmeira das Missões. A crise na pecuária, após a I Guerra Mundial (1914-1918), aliada à reeleição fraudulenta, foi o estopim, para que iniciasse os combates. O presidente do estado Borges de Medeiros não atendia às reivindicações, principalmente, dos pecuaristas e tinha uma política de desenvolvimento global da economia voltada à modernização e aos transportes. Adepto da doutrina positivista, inspirada em Augusto Comte (1798- 1857), alegava que o Estado existia para todos e não para uma determinada classe, geralmente, abastada e que não desejava “abrir mão” de seus privilégios.

A imprensa Legalista

Durante o período no qual a Revolução de 1923 se desenrolou, a violência contra a imprensa de ambos os lados foi predominante. A oposição promoveu o empastelamento de diversos jornais governistas, ocorrendo, em alguns casos, o espancamento de seus redatores. Na cidade de Quaraí, a sede do jornal O Cidadão, Órgão do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR) fundado em 1908, foi destruída, quando Honório Lemes, “O Leão do Caverá”, tomou a cidade. Este periódico, de acordo com o pesquisador João Batista Marçal, foi o de maior longevidade, em Quaraí, circulando em torno de 30 anos. O Diário Popular (1890) de Pelotas, quase sofreu o mesmo destino, tendo a intervenção de Zeca Neto (Condor dos Tapes) que impediu a sua destruição.  O Dever, fundado em Bagé, em 1901, circulou até meados da década de 30, sendo porta-voz do Partido Republicano Rio-Grandense.

A imprensa maragata

Em resposta aos maragatos, os borgistas procuraram silenciar os jornais da oposição, por meio das autoridades, proibindo a circulação de diversos periódicos, entre eles: O Correio do Sul (1914-2008) fundado, em Bagé, por Fanfas Ribas que sofreu represálias; O Maragato de Santana do Livramento, sob a direção de Rafael Cabeda e Rodolfo Costa, passou a ser editado, em Rivera, a partir de 17 de março de 1897, devido a questões políticas que geravam perseguições e o Correio da Serra, de Santa Maria, fundado, em 1917, por Arnaldo Melo, que circulou até 1930, defendendo a bandeira maragata.

Os jornais na capital

Em Porto Alegre, segundo o jornalista e pesquisador Francisco Rüdiger, em seu livro Tendências do Jornalismo (2003), O Democrata foi a principal vítima da repressão. Fechado pela polícia, este periódico era contrário à ditadura de Borges de Medeiros e à presidência de Arthur Bernardes (1875-1955), trazendo em seu cabeçalho o curioso dístico: “Rezemos no altar da Pátria, o “De Profundis”, da ditadura rio-grandense”. Outro periódico de oposição ferrenha, surgido em Porto Alegre, foi a Última Hora que realizou intensa campanha contra a candidatura de Borges de Medeiros. Lançado em 1914, a Última Hora, foi o porta-voz da oposição, cobrindo em suas matérias a Revolução de 23. Este periódico deixou de circular em fevereiro de 1926.

Um dos expedientes utilizados, pela máquina borgista, era o controle policial que foi vivenciado pelo historiador Walter Spalding (1901-1976). Este e outros amigos que trabalhavam na redação do jornal Última Hora, ao saírem da redação, na Rua dos Andradas, percebiam a vigilância de policiais fardados ou disfarçados, especialmente, na hora da saída do jornal para serem vendidos. Esses policiais eram os primeiros a comprá-los, ainda dentro da redação, visando à análise das matérias e à tomada de providências, caso não aprovassem o conteúdo.  Na cidade de Pelotas, Frediano Trebbi, responsável pelo jornal O Rebate, foi surrado na rua e, posteriormente baleado pela Brigada Militar. Diante desse quadro de brigas e perseguições, muitos jornalistas se refugiaram no exterior, onde se publicou, entre outros jornais, A Liberdade, de André Carrazoni.

Segundo o jornalista Carlos Reverbel (1912-1997), os heróis mais pungentes, no confronto de 1923, foram Honório Lemes e Fanfa Ribas: o primeiro nas coxilhas e o segundo nas colunas do Correio do Sul.

As arbitrariedades no jornalismo político-partidário rio-grandense, na época, eram marcantes devido ao monopólio do poder, exercido pelos chimangos, que limitava o espaço de atuação da oposição maragata, confundindo as funções do político com as do jornalista.

A respeito da importância do papel da Imprensa, no processo histórico, o jornalista Juremir Machado da Silva registrou, em sua apresentação, no livro História Social da Imprensa (2003), de José Marques de Melo: “A imprensa é História e faz História. A modernidade certamente não existiria sem ela.”

Não podemos nos esquecer de jornais político-partidários cuja longevidade comprova sua força e poder doutrinário. Neste aspecto se destacam A Federação (1884-1937) que durou 53 anos; O Diário Popular de Pelotas (1890) terceiro mais antigo jornal, ainda em circulação, no RS e a Gazeta de Alegrete (1882) o jornal mais antigo do interior do estado ainda em circulação. Estes três periódicos foram fundados no século XIX.

O mais longevo jornal maragato

Representando à oposição maragata, após a proclamação da República (1889) destacou-se, em termos longevidade, o Echo do Sul. Este periódico foi publicado primeiro em Jaguarão em 1855 com o título de Jaguarense, passando a chamar-se Echo do Sul a partir de 1857, quando foi transferido para Rio Grande. Em sua fase inicial foi conservador, passando mais tarde a fazer oposição ao PRR. Encerrou suas atividades em 1937. O Echo do Sul circulou por 80 anos, tendo maior duração que o jornal A Reforma (1869- 1912), do líder maragato Gaspar Silveira Martins (1835-1901) representando o Partido Liberal, durante o Império e, depois, já no período republicano o Partido Federalista (PF).

Pacto de Pedras Altas Wikimedia

Assinatura do Pacto das Pedras Altas / Foto reproduzida por Wikimedia / Creative Commons

Alguns títulos de jornais citados, neste texto, fazem parte da hemeroteca do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa. Esta instituição, fundada, em 10 de setembro de 1974, pelo jornalista Sérgio Dillenburg, com o apoio da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), é responsável pela guarda, preservação e difusão da história dos meios de comunicação no Rio Grande do Sul.

A assinatura do Tratado de Paz ou Pacto de Pedras Altas, em 14/12/1923, resultou em alterações na Constituição estadual, de 1891, que previa reeleições sucessivas e o voto a descoberto (não secreto). O voto deixará de ser a descoberto, em 1932, com as mudanças no Código da Justiça Eleitoral. O fato de tornar público o voto, fazia parte do ideal positivista de transparência; porém, na prática, favorecia a corrupção eleitoral.

Após 05 mandatos de Borges de Medeiros, encerrou-se o seu ciclo hegemônico com a posse de Getúlio Dornelles Vargas (1882-1954), em 25/01/1928, como Presidente do Estado. Em seu governo, Getúlio Vargas conseguiu unir tradicionais adversários políticos na Frente Única Gaúcha (FUG). Criada em 1928, a FUG uniu o Partido Republicano Riograndense (PRR), liderado por Borges de Medeiros (1863-1961)  e o Partido Libertador de Assis Brasil (1857- 1938) e Raul Pilla (1892-1973). Em  1929, integrou a campanha da Aliança Liberal à presidência da República, apoiando Getúlio Vargas.

No dia 03 de outubro de 1930, na capital gaúcha, eclodia a Revolução de 30, liderada pela Aliança Liberal (Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul), que levou Getúlio Vargas a ocupar a presidência do Brasil, após ter sido derrotado, em eleição fraudulenta, pelo paulista Júlio Prestes de Albuquerque (1882-1946). Era o fim da política do café com leite que dominava o cenário nacional desde a época do presidente paulista Campos Sales (1898-1902). Iniciava assim a Era Vargas em nosso país …

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Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite é pesquisador e coordenador do setor de imprensa do Museu da Comunicação (MUSECOM), em Porto Alegre.
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Referências bibliográficas

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GUIMARAENS, Rafael. Rua da Praia. Um Passeio no Tempo. Porto Alegre: Libretos, 2010

JUNG, Roberto Rossi. Paco / Procurado Vivo ou Morto. Porto Alegre: Errejota Livros Editora, 2009.

KOÜHN, Fábio. Breve História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Leitura XXI, 2007.

MARÇAL, João Batista. Quaraí um século de imprensa (1878-1978). Porto Alegre: Tarca de Comunicação,2014.

PENNA, Rejane, (Org,) O tempo e o Rio Grande nas imagens do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: IEL, 2011.

PESAVENTO, Sandra  Jatahy. História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982.

RÜDIGER, Francisco. Tendências do jornalismo. Porto Alegre: UFRGS, 2003.

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