Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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A italianinha da Rádio Record

Por Wladir Dupont em 24/04/2007 na edição 430

No auge de sua carreira literária, meados dos anos 1980, o escritor Marcos Rey, fiel cronista das ínfimas glórias e fundas misérias do homo paulistano, gostava de revelar – às vezes só insinuar, divertido – o pano de fundo de seus romances e contos, com ênfase nos bastidores do rádio, das boates e do teatro de revista, ambientes por ele bem trilhados e conhecidos.


Assim, relatava, numa tarde ensolarada de 1950, ele, então um jovem redator da rádio Excelsior, dirigida por seu irmão, o também escritor e jornalista Mario Donato (autor do escandaloso, para a época, romance Presença de Anita), fez questão de acompanhar até a uma estação concorrente, a Record, uma colega locutora, Nair Bello, ítalo-paulistana do Cambuci, de escassos 20 anos de idade.


Da Excelsior, na ampla Rua 24 de Maio, no centro de São Paulo, até a Record, na estreita Rua Quintino Bocaiúva, eles atravessaram o Viaduto do Chá e Marcos, depois de conferir se estava tudo mesmo nos conformes, mais tranqüilo despediu-se da moreninha magra e jeitosa e voltou à sua máquina de escrever, do outro lado da cidade. Seus cuidados com a moça, ‘uma frágil franguinha’, se explicavam: era inquietante a fama dos galãs da Record, que não perdoavam: menina bonita, nova na casa, só assinava contrato se passasse, ‘com louvor’, em certos testes, digamos, pouco convencionais.


Contudo, esperta e despachada, Nair, ao parecer, safou-se bem dos vorazes garanhões da Record e lá começou sua grande carreira de atriz, encerrada semana passada, aos 75 anos, depois de vegetar cinco meses na UTI de um hospital paulistano.


Fanatismo mal-disfarçado


Muito se escreveu sobre sua marcante presença na televisão, uma e outra passagem pelo cinema, mas pouco se falou de sua escola básica como artista: o rádio, sobretudo o movimentado e eclético rádio paulistano das décadas de 1940 e 50, no qual a PRB-9 Rádio Record, autoproclamada ‘A Maior’, fundada em 1931 e dirigida com pulso firme por Paulo Machado de Carvalho, em poucos anos se impôs como uma das mais completas e prestigiosas emissoras de São Paulo.


Do seu cast (o termo de então para elenco) de produtores e redatores, por exemplo, faziam parte Octávio Gabus Mendes, Osvaldo Moles, Raul Duarte, Hervé Cordovil. Do radioteatro de alto nível cuidava Oduvaldo Vianna (futuro pai de Vianninha); destaque ainda para Manuel Durães e suas radionovelas no domingo depois do almoço. Entre seus locutores pioneiros estavam César Ladeira, Renato Macedo e Nicolau Tuma, o ‘speaker metralhadora’, tal o ritmo frenético e empolgante de sua voz ao narrar os lances no campo de futebol. Nos anos 50 se revelaria ali outro grande locutor esportivo, Geraldo José de Almeida, um são-paulino fanático que mal disfarçava, ao microfone, sua paixão pelo tricolor.


Craques do microfone


Foi nesse clima criativo e até certo ponto experimental que o olhar observador do jornalista e escritor Osvaldo Moles sentiu o potencial de comediante do também jovem radioator Adoniran Barbosa. Graças aos textos bem bolados do mestre, levados ao ar em vários programas de enorme audiência, João Rubinato (era esse o nome de batismo de Adoniran, caipira de Valinhos) afinou seus amplos recursos de humorista criando inúmeros tipos populares, tão engraçados quanto autênticos.


Um elenco de craques, tanto por trás como na frente do microfone, situação a que não ficou indiferente a iniciante Nair Bello, logo dona do privilégio de fazer ‘escadinha’ a Adoniran, na época um artista já conhecido do público ouvinte, pois vinha de outras rádios, a mais recente a PRG 2 Tupi, dos Diários Associados de Assis Chateaubriand.


Ainda verdinha, uma simples locutora, às vezes apresentadora, Nair não recusava serviço e de maneira descontraída mas inteligente sorvia dicas e ensinamentos dos veteranos das duas áreas principais da Record – humorismo e radioteatro.


Na verdade, como revela um dos biógrafos de Adoniran, o jornalista Celso de Campos Jr. (Adoniran – uma biografia, 607 pp., Editora Globo, São Paulo, 2004), os primeiros registros de Nair na Record confirmam suas funções de locutora, mas sempre pronta para escalação em programas diversos. Um deles, de grande sucesso, O crime não compensa, narrado por outro iniciante, Randal Juliano, que faria longa carreira na organização da família Machado de Carvalho.


Esse programa, dramático, que radiofonizava crimes famosos na cidade, muitos deles apurados pelo delegado Artur Leite de Barros Júnior (ele próprio o apresentador), era transmitido todas as sextas-feiras à noite, direto do auditório da Quintino Bocaiúva. Nele entrava quase todo o elenco da emissora, incluindo Nair, em papéis menores, e Adoniran, com sua voz cavernosa, sempre fazendo o criminoso doidão, assassino cruel. Para se ter uma idéia de como se forjavam os talentos ali contratados, relata o ótimo biógrafo de Adoniran, ‘algumas das irradiações contavam com mais de trinta papéis a serem interpretados’.


Tremendo esbregue


Na Record, Nair fez de tudo durante três anos, mas pouco desenvolveu seu lado cômico. Casou-se, teve filhos e deixou a emissora. Mas voltaria ao trabalho em 1956, agora no Canal 7, TV Record, onde outro antigo colega de rádio, Blota Jr., na convivência diária com ela intuiu sua queda para uma comicidade peculiar, de gestos peninsulares e palavras e expressões ditas na lata – muitas vezes, anos mais tarde, ao lado de outro grande comediante, o impagável Ronald Golias. Com freqüência, os dois, muito amigos, não agüentavam os cacos exagerados e escondiam as risadas. Depois ela foi para a Rede Globo, e o resto é a história – e o êxito – conhecido de todos.


De espírito alegre, jeitão meio debochado, frases pontilhadas de palavrões e gargalhadas, sotaque italianado, Nair não se envergonhava de contar um episódio dos tempos de Record, vivido ao lado de Adoniran. Compositor inspirado – autor, entre outras, das antológicas Saudosa Maloca, Trem das Onze e Samba do Arnesto – ele costumava mostrar o rascunho de suas músicas à amiga. A uma dessas composições, Iracema, que descrevia o trágico atropelamento de uma noiva a um mês do casamento, Nair, que sempre elogiara as músicas de Adoniran, deu-lhe um tremendo esbregue: ‘Você está louco?!? Fazer samba sobre mulher atropelada? Ninguém vai gostar de uma coisa dessas, pode ter certeza. Não vai dar em nada!’.


Mas deu, e como! Foi um dos grandes sucessos de Adoniran, e Nair, sempre espontânea e sincera, muitos anos depois reconheceria a bola fora em seu jeitão gozador: ‘Eu não entendo porra nenhuma de música popular mesmo!’

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Jornalista e escritor

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