Quarta-feira, 25 de Abril de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº984
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MEMóRIA > EDUARDO MARTINS (1939-2008)

A morte de um mestre

Por Adhemar Oricchio em 15/04/2008 na edição 481

A imprensa brasileira perde um dos seus mais nobres representantes e nós, um grande amigo. A impressão é a de que Eduardo Martins já nasceu para o jornalismo; era sua vida e ele a exerceu até seus últimos dias. Intransigente e ranzinza, principalmente quando se tratava da língua portuguesa. Obstinado pela perfeição, não admitia erros e não fazia questão de esconder quando notava algum deslize por parte de um jornalista –mesmo dos demais companheiros de redação, até mesmo dos contínuos.


Compartilhei por 32 anos com o Eduardo duas grandes paixões: a editoria do Interior do Estado de S.Paulo e a Sociedade Esportiva Palmeiras. Passávamos horas e horas falando desses dois assuntos. Em meados dos anos 1980, quando ele editava Interior e eu era responsável pela rede de sucursais e correspondentes, trocávamos idéias para pautas e edições do material do dia seguinte. Quanto ao nosso querido ‘verdão’, resolvíamos lá, no dia-a-dia, todas as questões de táticas e contratações de jogadores, mesmo porque nessa época éramos uma ‘academia de futebol’.


Durante a elaboração do Manual de Redação e Estilo do Estadão, Eduardo era um obstinado, levava às últimas conseqüências o seu trabalho, coletava informações aqui e ali para incluir na sua grande obra, que se transformou em uma espécie de bíblia para todos os estudantes, jornalistas e mesmo para as pessoas que queiram escrever textos corretamente.


Vida e jornalismo


Nos seus mais de 40 anos na Redação do Estadão, sempre foi uma referência e um porto seguro para aqueles que tinham alguma dúvida. Lembro-me que nas reuniões de pauta discutíamos sempre a edição do dia e o Eduardo aparecia com o jornal todo rabiscado em vermelho, com sugestões e correções. Era o ‘chato’ que todos respeitavam, pois suas intervenções eram sempre pertinentes e todo dia tínhamos alguma coisa a aprender com o ‘mestre’ Eduardo.


A morte ceifou uma das mentes mais brilhantes do jornalismo. Aos 17 anos de idade Eduardo compartilhava do ‘mesão’ que elaborava a primeira página do O Estado de S.Paulo e, já naquela época, se destacava para uma carreira de sucesso. Passou por todas as editorias do jornal, inclusive como editor de Nacional à época da ditadura militar, quando o Estadão marcou presença ao publicar versos de Camões para substituir as matérias censuradas. Uma época terrível e heróica para os jornalistas que queriam a plena democracia e a liberdade de imprensa.


Eduardo soube superar todas as adversidades da profissão e sempre conseguiu amealhar o respeito de todos que encontravam nele o mestre que os ajudaria a escrever o texto correto.


O amigo Eduardo morreu como sempre viveu: ‘reclamão’, não deixava por menos, mas muitos jornalistas, inclusive eu, agradecem a intransigência do velho companheiro. Graças a ele aprendemos um pouco mais sobre a vida e o jornalismo. Que os serviços prestados pelo Eduardo sirvam de exemplo para todos nós.


 


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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/04/2008 Luiz Carlos lopes

    Correspondente do Estadão por mais de trinta anos, sempre cobrindo Interior, conheci Eduardo Martins principalmente no tempo em que ele respondia pela Editoria do Interior. Dele cultivei a ‘biblia’ que, para sempre, norteou meus caminhos na redação: o Manual de Redação e Estilo, seu legado para velhos e novos jornalistas. Nele, Eduardo Martins se perpetua.

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