Terça-feira, 30 de Maio de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº943

MEMóRIA > José Fonseca e Costa

A morte não anunciada de um cineasta

Por Norma Couri em 03/11/2015 na edição 875

Nos feriados de Finados reverenciamos os mortos do passado. Mas neste dia 1 de Todos-os-Santos morreu o cineasta português José Fonseca e Costa, nascido em Angola, um dos fortes pontos de ligação entre Portugal e o Brasil, mas a imprensa brasileira passou em branco, ausente, silenciosa. O que reforça a ideia de que nossos laços lusos comuns são falsos e tênues, nem tanto irmãos nem tanto uma comunidade da língua portuguesa. Portugal Cineasta José Fonseca e Costa 01

Portugual cienasta José Fonseca e Costa

José Fonseca e Costa

O noticiário exaustivo do fim de semana contava e recontava as mortes e acidentes nas estradas, os arrastões. Esqueceu-se de José Fonseca e Costa, 82 anos, 23 filmes na carreira iniciada em 1964, que inclui dois documentários inspirados em Fernando Pessoa (“Os Mistérios de Lisboa em 2009 e “A Metafísica dos Chocolates”, 1965), dois filmes com atrizes brasileiras, Bianca Byington (“Viúva Rica Solteira Não Fica”, 2006) e Fernanda Torres (“A Mulher do Próximo”,1988) e uma enorme influência do fotógrafo Afonso Beato (“Cinco Dias, Cinco Noites”, 1995, premio de Melhor Fotografia no Festival de Gramado). Seu último filme inacabado, “Axilas” é baseado num conto de Rubem Fonseca.

Foi preso duas vezes pela polícia política de Antonio Salazar, a PIDE, impedido de assumir um cargo de assistente de direção na Rádio e Televisão Portuguesa, com pelo menos uma bolsa de estudos recusada ao Fundo do Cinema Nacional para estudar no Reino Unido. Vingou-se e foi trabalhar com Michelangelo Antonioni no filme “O Eclipse”. Em Lisboa era uma âncora para os brasileiros, uma CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa) verdadeira já que tinha Angola na pele, e Portugal para arrematar o inicio de uma longa amizade.

Não justifica o silêncio da imprensa brasileira. Neste momento em que o Rio de Janeiro terminou seu festival internacional e São Paulo assiste à 39ª. Mostra Internacional de Cinema até o fim de semana que vem, o Brasil devia uma homenagem cinematográfica a seus filmes.

Os portugueses, nossos irmãos tão distantes, choraram sua morte, o que não ecoou por aqui. Somos um, somos nenhum, somos o avesso, estamos tão longe do noticiário português hoje como os portugueses do nosso – o que não acontece com os países de língua hispânica altamente reverenciados na Espanha e vice-versa. Ainda não colocamos nossa CPLP em prática, para valer. Mas podemos chorar com os ecos da imprensa portuguesa.

Depoimentos

Ana Filgueiras, diretora da ONG Cidadãos do Mundo, brava lutadora pela integração dos países de língua portuguesa:

“Não o conheci em Portugal, e sim no Brasil que o Zé – como amante dos grandes espaços e da alegria de viver – amava de paixão. Lembro a alegria com que dançávamos na passarela do Rio de Janeiro acompanhando a Mangueira até de madrugada…Foi lá que vi o belíssimo “Música Moçambique” e tenho a certeza de que foi aí que Chico,Caetano,Gil e tantos outros que o viram – apontaram o ouvido para a música dos PALOP, Países de Língua Portuguesa. Para inveja de muitos “Kilas, o Mau da Fita” (1977-80) foi dos filmes que mais espectadores reuniu depois do 25 de Abril e—na contramão do que a ‘elite pensante’ apregoava—Manoel de Oliveira elegeu “Cinco Dias, Cinco Noites” seu filme favorito”

Mario Dujisin, chileno, correspondente em Lisboa do site Other News:

“Era um de meus melhores amigos em todo o mundo e, sem dúvida, meu melhor amigo português. Foi vítima de pneumonia porque já estava sumamente debilitado por uma leucemia. Entre suas últimas vontades, deixou instruções a seu produtor, Paulo Branco, para terminar seu último filme, muito importante para ele, um projeto já bastante adiantado (“Axilas”, baseado num conto de Rubem Fonseca”)– e seu desejo expresso de não celebrar velório”

Ana Souza Dias, subdiretora do Diário de Notícias, editorial “O Inconformado”:

“É tentador ir buscar o nome de um dos protagonistas de “O Recado”[1970]- Maldevivre, interpretado por um José Viana inesquecível – para falar do realizador José Fonseca e Costa, que ontem morreu aos 82 anos. Sábio e sonhador, Maldevivre era um vagabundo que nos reconfortava porque anunciava as mudanças que estavam quase, quase a acontecer, naquele início da década de 1970.

Fonseca e Costa era de outra sabedoria, cheia de palavras e gestos, e gostava da vida, das mulheres, da arte, da boa comida, da conversa imparável. Falava sempre com veemência, olhar curioso e inquiridor, capaz da maior amizade e da língua mais viperina. Não perdoava, e tinha muito para não perdoar. Indignava-se, e tinha muito para se indignar. “O Recado” marcou um momento central do cinema português, a rasgar caminhos novos, desassombrado e belíssimo, com o rosto da atriz Maria Cabral a mostrar-nos as hesitações, as esperanças e as dores de toda uma geração.

Uma década depois, “Kilas, o Mau da Fita”, foi o retrato de um ambiente malandro, tão bem interpretado por Mário Viegas. Fonseca e Costa provou com as aventuras do Bairro Alto que o cinema português tinha muito para contar e para rir, e o público acorreu em massa. Fazer cinema de grande qualidade e que atrai público, eis o que ele escolheu, eis o que ele conseguiu. Os filmes sucederam-se – “Sem Sombra de Pecado”, “Balada da Praia dos Cães”, “Cinco Dias Cinco Noites” – sempre com um rigor que não deixava nada ao acaso.

A frontalidade – nunca deixava de dizer o que pensava – paga-se caro. Ficou anos e anos sem filmar, cheio de argumentos na cabeça fervilhante. Só este ano voltou ao cinema, e estava tão doente que o trabalho ficou inacabado. Deixou indicações precisas e rigorosas, nada ficou dependente do acaso. Fazem falta vozes assim, capazes de entender o ar do tempo e de ver o que está errado. De discutir olhos nos olhos, num mal de vivre vibrante e corajoso”.

Miguel Esteves Cardoso no jornal Público, autor de “O Fonseca imortal”;

Tenho a sorte de ser um dos muitos amigos a sério que o Zé Fonseca e Costa foi fazendo ao longo da vida dele. O Fonseca amava o mundo, à parte certas pessoas. Os ódios dele ardiam como grandes amores. Perguntava-me “como é que tu és capaz de gostar daquele gajo?” Quando eu respondia, ele, em vez de amuar ou de ficar zangado, encolhia os ombros e passava, magnânima e aristocraticamente, a outro assunto interessante. O Fonseca era um senhor e um rapaz e um gajo porreiro ao mesmo tempo. Sabia viver bem e fazia questão de partilhar generosamente essa sabedoria. Ensinou-me, quando eu trabalhei com ele (e eu nunca mais me esqueci) que o prazer é mais importante do que trabalhar e que trabalhar sem prazer não valia a pena. Assim era também com os dois cineastas que o deslumbravam: Welles e Antonioni.

O Fonseca conhecia o nome de quem fazia o melhor Manhattan e a morada onde se comiam as melhores ostras. Fosse em Lisboa, Madrid, Paris, Londres, Nova Iorque, São Paulo ou Havana. E todas essas pessoas gostavam do Fonseca. Porque o Fonseca incluía-as na vida dele e apreciava-os como mereciam. O Fonseca era um prazer, um artista e um egoísta e altruista heróico. Era um ser livre. Era destemido. Não tinha medo de fazer boa figura e muito menos má. Até as lágrimas que me saltam dos olhos parecem felizes, só de pensar nele. Mas não poderiam ser mais tristes. Morreu o Fonseca e morrer não era coisa que ele nos fizesse.

Nem parece teu, Fonseca…

Jorge Leitão Ramos, no jornal Expresso, “O Homem que Gostava das Mulheres”

José Fonseca e Costa faleceu este domingo, dia 1, de manhã, no Hospital de Santa Maria onde estava internado. Deixa uma obra cinematográfica ímpar no moderno cinema português. Na sua primeira longa-metragem (“O Recado”, 1971), uma mulher servia-lhe de alter ego para uma reflexão magoada sobre uma geração que aprendera que se devia resistir ao salazarismo, mas que sofrera um dolorido processo de acomodação.

Na última (“Viúva Rica Solteira Não Fica”, 2006), uma outra mulher assassinava metodicamente os sucessivos maridos, não por interesse, mas porque eles mereciam mesmo ser despachados deste mundo onde só estavam a estorvar. Pelo meio, fez cinema onde os personagens mais extraordinários sempre foram femininos. Podiam ser desvairados (como a Maria da Luz/Lucília de “Sem Sombra de Pecado”), sofredores (como a prostituta das serranias que Ana Padrão tornou inesquecível em “Cinco Dias, Cinco Noites), de uma sedução fatal (assim era a Mena de “Balada da Praia dos Cães”, fêmea sem dono) ou sobreviventes de um mar de lama (a Pepsi Rita de “Kilas”) – mas não eram fracos, nem pusilânimes, agarravam a vida nas mãos, iam em frente. Vários desses filmes foram êxitos históricos, outros foram ignorados pelo público, mas José Fonseca e Costa nunca desistiu de querer conciliar fazer filmes de autor – por alguma razão fora quando jovem assistente de Antonioni – com a vontade de ter o maior número de espectadores possível. Foi o único cineasta da sua geração a consegui-lo, nunca se acantonou na arte pela arte, nem se vendeu à bilheteira.

Era natural de Angola de onde veio no fim da 2ª Guerra Mundial para se tornar um cidadão de Lisboa, cidade que amava. Nos anos 50/60 andou pelos cineclubes, pela luta política, militou no Partido Comunista, conheceu, por duas vezes, os cárceres da PIDE. Entrou pelo cinema com a geração do Cinema Novo que havia de mudar tudo – mantendo-se ferozmente individualista. Lisboa, Madrid, Rio de Janeiro, Paris, Londres eram cidades onde se movia num cosmopolitismo que os portugueses da sua geração não podiam senão invejar. Ao mesmo tempo era um nacionalista africano em terra estrangeira que, em 1976, ainda se atrevia a terminar um filme com a frase “quem manda nos trabalhadores são os trabalhadores de armas na mão”, enquanto uma mulher negra se sumia no horizonte empunhando uma espingarda.

“O Recado”, “Os Demónios de Alcácer-Kibir”, “Kilas”, “Sem Sombra de Pecado”, “Balada da Praia dos Cães, “Cinco Dias, Cinco Noites”, “Viúva Rica Solteira Não Fica” – a lista de filmes memoráveis de Fonseca e Costa é longa e não se esgota nos títulos citados, apesar de ter deixado alguns dos melhores sonhos por fazer (“O Anjo Ancorado”, logo nos anos 60, “O Senhor Ventura”, o mais doloroso, no final da década de 80) – e por completar um filme derradeiro, “Axilas”, com 2/3 já rodados e que o produtor Paulo Branco garante ir ter bom termo. Filmou até 9 de Outubro, data em que teve uma homenagem, a que compareceu, em Linda-a-Velha. Depois, uma pneumonia cavalgou a leucemia com que vinha lutando há muitos meses e o seu estado tornou-se irreversível. Tinha 82 anos”.

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