Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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As emoções do senhor das entrelinhas

Por Maria Cristina Fernandes em 14/04/2015 na edição 846

Na noite do dia 13 de dezembro de 1968, o jornalista Carlos Castello Branco comemorou os 20 anos de seu casamento com uma festa em que os convidados, apreensivos, se reuniram em frente à televisão para ouvir o anúncio do AI-­5 pelo ministro da Justiça, Gama e Silva.

Naquela manhã, o dono da casa havia enviado o texto de sua coluna para o “Jornal do Brasil” em que antecipava o teor das medidas. Já passava da meia­noite quando Castello chamou a mulher e disse que iria dormir porque seria preso dali a algumas horas.

No dia em que seu titular foi preso, a “Coluna do Castello” anunciava: “Ao Ato Institucional de ontem não deverá seguir­se nenhum outro ato institucional. Ele é completo e não deixou de fora, aparentemente, nada em matéria de previsão de poderes discricionários expressos. A experiência do governo Castelo Branco, que teve de editar atos desse tipo por quatro vezes, terá aproveitado ao redator do novo edito.”

O texto é uma das obras­primas da escrita nas entrelinhas que consagrou o jornalista morto em 1993, aos 73 anos. Numa entrevista em 1986, definiu o capítulo que escreveu no jornalismo brasileiro. A pretexto de falar de um desafeto, Samuel Wainer, cujo “Última Hora” surfou na comoção em torno do suicídio de Getúlio Vargas e nas mobilizações que insuflaram o governo João Goulart, disse que a notícia não deveria ser usada para causar emoções ou “expressar sentimentos populares”.

Se o regime de exceção, que o prendeu várias vezes, forjou sua escrita, também levou­o a atravessar a fronteira do engajamento a bordo de suas emoções. É isso que sugere o jornalista Carlos Marchi em “Todo Aquele Imenso Mar de Liberdade ­ A Dura Vida do Jornalista Carlos Castello Branco” (Ed. Record, 559 páginas), ao descrever as mudanças na vida de Castelinho, como era conhecido, depois da morte, aos 25 anos, de seu filho mais velho, Rodrigo.

O ponto de partida do livro é o diálogo do jornalista em Paris com Jango, o presidente deposto e exilado:

– Eles matam pessoas, Castello!

Ainda que guardasse silenciosas suspeitas sobre as circunstâncias da morte do filho num acidente automobilístico em Brasília, a ênfase de seu interlocutor o surpreendeu. Impiedoso, Jango contou que tinha decidido transferir seus filhos de Buenos Aires para Londres por temer a colaboração das ditaduras do cone sul. E sugeriu que a morte do filho do jornalista mais bem informado de Brasília, ocorrida quatro meses antes numa sucessão de outros desaparecimentos, mostrava a reação da linha dura do regime contra a abertura prometida pelo governo Ernesto Geisel.

“Roubaram  desmedidamente”

Castelinho era, desde sempre, a ferida que os militares tinham que coçar todos os dias, na definição de Roberto Médici, filho do terceiro dos presidentes da ditadura e uma das principais fontes do jornalista. Três meses antes da morte de Rodrigo, Castelinho reagira de pronto à demissão do comandante do Segundo Exército, Ednardo D’Ávila, responsável pelos porões do DOI­-Codi, onde morrera Vladimir Herzog e, três meses depois, Manoel Fiel Filho: “…servirá a um só tempo de advertência aos que por acaso se afeiçoaram a Barbaras práticas de interrogatório de pessoas detidas para averiguação ou em flagrante de atos subversivos”.

Castelinho continuava a dispensar uma escrita para despertar emoções, mas dispôs­se a encabeçar a chapa que disputaria o Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, uma decisão que surpreenderia o governo Ernesto Geisel. O jornalista que tinha como político de sua maior admiração o udenista Milton Campos, ministro da Justiça de Castelo Branco, assumiria a presidência de um sindicato que se transformaria em um respeitado e relevante foco de pressão pela abertura.

As 7.446 colunas do jornalista, uma das melhores fontes sobre a história recente do Brasil, já haviam sido reunidas pela filha Luciana na internet em site que leva o nome do pai. O que o livro reconstitui, com base em 42 depoimentos e pesquisas em arquivos familiares, é a trajetória de um piauiense que aprendeu a ouvir e observar seu entorno como estratégia de sobrevivência. Quinto dos nove filhos de um desembargador de Teresina e de uma dona de casa, Castello começou a aguçar seus instintos de retirante em Belo Horizonte, para onde o pai mandou estudar direito.

Em texto sobre outro piauiense contemporâneo de juventude em Belo Horizonte, Francelino Pereira, Castello falaria sobre a provação mineira: “Enfrentamos a esquivança e a ironia de quem nos recebia com benevolência, mas com a reserva natural do caráter desses montanheses”.

Na faculdade e na redação do “Estado de Minas”, onde começou como repórter policial, Castelinho se tornaria amigo do grupo de quatro mineiros que seriam celebrizados pela literatura: Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende. Dirigia a este último, de quem seria amigo até o resto da vida, uma provocação frequente. Único do grupo a viver longe da família, morava sozinho numa pensão. Saía da redação do “Estado de Minas” a pé com Otto até sua casa. O dono da casa entrava, subia para seu quarto, abria a janela e, do umbral, continuava a conversar com Castelinho, que permanecia na rua: “Nos oito anos e meio que passei em Minas, nunca entrei numa casa de família porque ninguém nunca me convidou para entrar”.

Nos 15 anos seguintes em que morou no Rio tinha a casa dos pais, que haviam se transferido para a cidade, além daquela para a qual se mudaria depois do seu casamento. Seu primeiro apartamento foi comprado com empréstimo do Banco Nacional, por intermédio de José Aparecido Oliveira, secretário de Magalhães Pinto, governador de Minas e dono do banco. Quem acelerava o trâmite dos empréstimos para jornalistas era o sobrinho do dono, José Luiz de Magalhães Lins, que dirigia o Nacional e seria um dos maiores amigos de Castelinho. Mexia­se mais para tirar o jornalista das grades do que Nascimento Brito, seu patrão no “Jornal do Brasil”. Foi de Lins também o cheque caução da primeira internação grave de Castelinho depois de um infarto.

Para dar conta das prestações do empréstimo arrumou no governo Juscelino Kubitschek uma nomeação para o cargo de procurador do Departamento Nacional de Estradas de Rodagens (DNER). O empréstimo e os empregos públicos ­ seu e da mulher ­ arrumados por políticos são tratados pelo autor com uma cautela mais reverente que a do próprio Castello, que se colocava sem cerimônia na vala comum de uma época que os jornalistas tinham que acumular bicos em várias redações para sustentar suas famílias.

O jornalista que não entrava nas casas das famílias mineiras virou alvo de assédio ao se mudar para a nova capital federal. Sem convite, dois presidentes no exercício do cargo bateram à sua porta no Lago Sul. O primeiro foi José Sarney, que lá desembarcou com uma garrafa de uísque para tomar satisfações a pretexto de que ambos já estavam velhos para trocar de amigos. O segundo foi Fernando Collor de Mello, melhor amigo do filho morto no acidente.

Nas colunas sobre o governo Collor, voltaria ao tempo das entrelinhas ­ “o embrulho em que se meteu servirá apenas de advertência aos futuros governantes para que, ao se instalarem no poder, cuidem mais da euforia dos amigos do que da animosidade dos inimigos”. Em carta ao amigo Otto Lara Resende, no entanto, escreveu aquilo que parecia inibido pela amizades de juventude do filho morto: “Sei que esse rapaz e sua quadrilha roubaram desmedidamente e em tal escala e tal forma que não dá para  entender”.

A relação entre Castello e Collor registra um dos tropeços do livro. O autor cita carta do jornalista ao então presidente como resposta a cumprimentos pela posse de Castelinho na Academia Brasileira de Letras, em 1983, época em que Collor ainda era deputado federal.

Radar avariado

A intimidade de Castello com o poder foi estreitada com a mudança da capital federal. Se no Rio, repórteres e fontes conviviam na Câmara, no Senado e nos palácios, nos primeiros anos de Brasília esbarravam­se nos poucos restaurantes, bares e clubes e passaram a se frequentar com assiduidade. A intimidade com suas fontes não deixava espaço para ilusões com a política. Em entrevista de 1977 ao Pasquim, saiu das entrelinhas: “A política é um pouco ofício de bandido”.

Castelinho, que debitava o uísque na conta de sua timidez, duplicou as doses depois da morte do filho. Ninguém conseguia entender como aquele jornalista que parecia alheio e não tomava notas reproduzia com fidedignidade, no dia seguinte, as confabulações que testemunhava.

A intimidade de Castello com suas fontes pode tê­lo levado a dar, a algumas delas, mais importância do que efetivamente tinham e a poupar outras em seus descaminhos, mas não o impediu de prever e influenciar o rumo dos acontecimentos contando aos seus leitores o que poucos sabiam.

Era quando o fato político saía dos gabinetes de Brasília e ia para as ruas, que o jornalista perdia o pé. Foi o que aconteceu com o movimento popular que pediu a volta das eleições diretas para presidente. É com uma autorreferência que Marchi registra a avaria no radar de Castello, tão parcimonioso no uso da primeira pessoa quanto na escrita de suas emoções. O autor da biografia intitulou­se, na condição de um dos três substitutos da coluna publicada às segundas­feiras, como o jornalista que inaugurara, naquele espaço, a menção à campanha das Diretas Já.

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Maria Cristina Fernandes, do Valor Econômico

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