Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

MEMóRIA > Um canto de resistência

Belchior: da contracultura ao mundo do espetáculo

Por Elstor Hanzen em 30/05/2017 na edição 944

450px-Belchior_(2004)

Belchior jamais pôde ser limitado a um movimento cultural nem enquadrado no nome que a indústria do entretenimento e do espetáculo lhe tentaram atribuir. Coerente e autêntico, o cantor cearense não se acomodou às etiquetas da arte nem aos estereótipos da imagem; resolveu mergulhar na vida e praticar na plenitude o que pregava nas letras.

Viveu como nômade os últimos anos de sua vida no Rio Grande do Sul. Contudo, permaneceu lúcido e intransigente até o fim contra a ideia de separar o sujeito da obra, o prazer como mercadoria, a arte como simples moeda de troca, práticas tão corriqueiras na atual sociedade do espetáculo. “É preciso muita lucidez para não ceder, ficar com a cabeça no lugar. Eu, por exemplo, tinha uma série de fatores considerados negativos pela indústria do disco: a voz que era estranha, o fato de abordar temas, como dizer, ásperos, o fato de não ser exatamente um cantor galã. Eu podia ter amaciado meus temas, feito jogadas. Mas não fiz.”, revelou em uma entrevista, em 1977.

Essa consciência e a postura de não obedecer nem reverenciar a lei do mercado não é bem vista pela sociedade da produção e do consumo e, por isso, parece ser imperdoável. Em contraposição, seus colegas da Bahia se enquadraram melhor no script da indústria fonográfica, consequentemente, tornaram-se “medalhões” e bem-sucedidos comercialmente. O próprio Caetano reconheceu essa diferença em um artigo ao Globo. “Sugeriam que nós, os baianos, já representávamos o estabelecido, o velho, enquanto ele seria o novo e a verdadeira rebeldia. Me parecia uma interessante reação ao habitual “tudo amiguinho, tudo certo’”, escreveu, após a morte de Belchior.

Dentro do movimento Tropicália no final dos anos 60, no século passado, quando Gilberto Gil e Caetano Veloso cantavam alegria, alegria e mundo maravilhoso e divino; Belchior contra-atacava e apresentava uma interpretação mais progressista e viva diante do exposto. “Mas trago na cabeça uma canção de rádio/em que o antigo compositor baiano me dizia/ – ‘Tudo é divino! Tudo é maravilhoso’/Mas sei que nada é divino/Nada/Nada é maravilhoso, nada/Nada é misterioso…”, na parte que encerra a canção, “Apenas um rapaz latino-americano”.

Belchior acrescentava que tudo o que retratava na letra ainda era pouco, perto da vida real. Posteriormente, o cantor afirmou não se tratar de uma simples contestação da letra, mas, cujo intuito era deslocar o ângulo de visão e ampliar a compreensão do público sobre aquela realidade. O mesmo contraponto fez na letra: “E Que Tudo Mais Vá Para o Céu”, para a música do Roberto Carlos – “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno”.

A leitura consciente da complexidade do mundo e de expor suas cruezas – como de fato é a realidade – não se encaixa bem no mundo que vive das aparências, porque é visto como perda de tempo já que trava o ritmo dos negócios. Por isso, quando mais raso, flexível e passível o artista for melhor é para transformá-lo em produto e, deste jeito, um medíocre, graças à força da mídia, vira sucesso e se transforma em celebridade, enquanto talentos genuínos ficam sem vez. O mesmo teria acontecido com o cearense de Sobral, caso dependesse da mídia e não tivesse tanto talento e capacidade artística, teria entrado na história como um personagem romântico, voz fanha e um bigodudo – uma figura.

Essa dissimulação do mundo em prol da lei do mercado, com a qual Belchior não se identificava nem se amaciava, não se limita a questões isoladas nem pontuais, está inserida num contexto mais abrangente, a sociedade do exibicionismo, que já foi prevista por Guy Debord, em 1967, no “A Sociedade do Espetáculo”. No livro, o autor faz uma crítica direta contra a nova fórmula do capitalismo se expandir e alterar o comportamento das populações mundo afora. Coincidentemente, na mesma época em que o francês escreveu sua obra, os músicos brasileiros projetavam seus trabalhos no cenário nacional.

Debord previu há 50 anos, portanto, o que vivemos hoje na plenitude: a oposição do mundo da aparência ao da essência; a fofoca à verdade; a opinião ao fato. Enfim, de forma mais contextual e nas palavras do autor. “O espetáculo, compreendido, na sua totalidade é o resultado e o projeto do modo de produção existente. É o coração da irrealidade da sociedade atual.

Sob todas as suas formas particulares de informação ou propaganda ou consumo direto do entretenimento, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante. A forma e o conteúdo do espetáculo são a justificação das condições e dos fins do sistema existente. O espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida humana, socialmente falando, como simples aparência”.

Dois mundos

A partir dessa lógica se separou o mundo real do mundo representado pelo espetáculo. Este último, graças à técnica, recorta uma imagem da realidade e cria uma “realidade” melhor do que a realidade em si. Ou seja, o que foi chamado de hiper-realismo e de simulacro, por outro francês, Jean Baudrillard. Segundo Baudrillard, vivemos em uma era cujos símbolos têm mais peso e mais força do que a própria realidade. Desse fenômeno surgem os simulacros, simulações malfeitas do real que, contraditoriamente, são mais atraentes ao espectador do que o próprio objeto reproduzido. O que acontece, por exemplo, quando assistirmos a um show e a um jogo pela televisão, temos imagens e ângulos melhores do que fossemos ver no lugar do evento.

Tal cultura de viver o mundo simulado em detrimento do real foi potencializado ainda mais pelo imediatismo das redes sociais, a troca de mensagens em tempo real, os grupos produtores de notícias falsas e a massa de distribuidores dessa gama de informações. Quando, em geral, tudo isso é apenas uma realidade dissimulada e projetada para o espetáculo, não havendo nenhuma relação histórica dos fatos. Isso traz uma aceleração de todo tipo de sentimento e de emoção, além é claro, da ansiedade e do ódio, construindo um contexto em que a opinião, a convicção, os adjetivos, as versões dos fatos e as aparências funcionam melhor à verdade e aos fatos. Diante disso, surge uma nova realidade social: a pós-verdade.

Para Debord, essa falsa realidade gera uma contrapartida selvagem, por ele nominado de boato. “No início, o boato foi supersticioso, ingênuo, autointoxicado. Mas, em nosso tempo, a vigilância começou a infiltrar na população pessoas suscetíveis de lançar, ao primeiro sinal, os boatos que lhe convêm. É a aplicação prática de uma teoria formulada há anos, cuja origem está na sociologia norte-americana da publicidade: a teoria dos indivíduos chamados ‘locomotivas’, isto é, que são seguidos e imitados pelos outros do mesmo meio; desta vez, passando do espontâneo ao praticado”. Ou como agora, as conhecidas celebridades, que têm a mesma função, embora o nome tenha mudado. Ademais, há, agora, inclusive recursos orçamentários, “profissionais” e massiva distribuição das falsas notícias que, infelizmente, beneficiam poucos e prejudicam muitos.

No atual momento em que estamos, como se sabe, o apelo às emoções e às crenças tem mais importância aos fatos objetivos na modelagem da opinião pública. O fenômeno já está tão presente no cotidiano, por exemplo, que até a justiça se manifesta em público dizendo ter convicções, mas não provas contra determinados acusados. Como se percebe, é o pacote completo do espetáculo e da sociedade de consumo, que não é coisa recente, apenas o nome pós-verdade foi incorporado ao dicionário em 2016.

Oculto é mais importante

O discurso do espetáculo vende uma cultura de nos fazer esquecer que somos únicos, mortais e frágeis; quer nos fazer acreditar que somos grandiosos, potentes e poderosos. É uma ideia virtual e dissonante da realidade do fato. Pois, foi exatamente essa alienação que as canções do compositor cearense debateram, desde os anos 1970, além das relações mercantis e a própria indústria cultural. Sua critica a esse estilo de vida venho em versos. “A minha alucinação é suportar o dia a dia, e meu delírio é a experiência com coisas reais”, Belchior entendia a experiência com o real como a verdadeira emancipação do ser humano.

Com a industrialização e a tecnologia, a vivência foi terceirizada, assim fomos reduzidos a meros espectadores a contemplar passivamente as imagens virtuais projetadas pela sociedade do espetáculo e, no máximo, agimos para cumprir ordens e para consumir. “No plano das técnicas, a imagem construída e escolhida por outra pessoa se tornou a principal ligação do indivíduo com o mundo que, antes, ele olhava por si mesmo, de cada lugar aonde pudesse ir”, lembra Guy Deborad. O sistema social que separa o homem de sua produção e natureza, conclui o autor – impede o reconhecimento recíproco entre sujeito e objeto –, consequentemente, não emancipa a pessoa nem traz felicidade.

O mundo da permanente renovação tecnológica, da generalização do segredo, da mentira sem contestação e do presente perpétuo, foi previsto por Deborad também. Segundo o ele, o fato de a mentira não ter contestação, ela ganha uma nova qualidade: vira verdade. “Ao mesmo tempo, a verdade deixou de existir quase em toda parte, ou, no melhor do caso, ficou reduzida a uma hipótese que nunca poderá ser demonstrada”, previa.

Em uma sociedade na qual a mentira e o boato eram para serem exceções e uma espécie de contrapartida ao espetáculo social, elas ultrapassaram o limite e se transformaram em regra. Belchior sabia, no entanto, que o espetáculo era feito para distrair com o óbvio e o banal, consciente que o mais importante sempre ficava oculto ou incomunicável, assim como seu sumiço voluntário da vida pública.

Talvez, por preferir viver a vida de forma autêntica, dar mais relevância à essência das coisas em oposição aos bens materiais e ao espetáculo da vida, tornou-se um incompreendido para a sociedade do pensamento único e da cobiça pela posse. Ou quem sabe, Belchior tenha adotado semelhante lógica de vida ao do ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica. Porém, sem a mesma paciência nem disposição de comunicação do uruguaio. O fato é que, Belchior, não quis ser um pássaro na gaiola nem fazer as concessões e atender as expectativas do mercado. Enfim, uma espécie de contracultura da ordem oficial do espetáculo.

**

Elstor Hanzen é jornalista e especialista em convergência de mídias.

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem