Sábado, 20 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Com ele a imprensa reaprendeu a falar

Por Alberto Dines em 30/04/2007 na edição 430

A morte [no domingo, 29/4] de Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha de S.Paulo, além dos sentimentos de respeito e solidariedade, nos remete a uma reflexão sobre a imprensa no Brasil.


A grande revolução operada pela Folha ocorreu em 1975, durante a ditadura militar, quando os jornais estavam silenciados pela censura ou pela autocensura. Frias, então, aceitou a sugestão do diretor de redação, o jornalista Cláudio Abramo, e resolveu fazer da Folha um jornal de opinião. Apostou na distensão política proposta pelo presidente Geisel e assim, talvez pela primeira vez, um jornal se transformava de dentro para fora, a partir do seu conteúdo.


A Folha não se preocupou muito com a aparência, não convocou consultores nem marqueteiros. Simplesmente apostou no jornalismo. Frias nunca foi jornalista, mas acreditava no poder transformador da imprensa. Assumiu que o leitor quer, antes de tudo, um jornal capaz de falar com clareza e convicção.


Abramo e Frias criaram uma página de editoriais, na página 2 e, em seguida, ampliaram o espaço, incorporando a página 3, com a seção ‘Tendências / Debates’. A Folha foi obrigada a recuar dois anos depois diante da pressão da linha-dura, mas tornou a avançar.


Hoje, não há um grande jornal brasileiro que não adote este paradigma. A novidade incomodou há 30 anos e incomoda agora. Graças a Octavio Frias de Oliveira, um empresário inovador, a imprensa brasileira reaprendeu a falar.


***


O programa Observatório da Imprensa na TV de terça-feira, 1º de maio, reprisa a entrevista com Octavio Frias de Oliveira exibida em 26/11/2002. Ao vivo, às 22h30 na TVE e às 23h40, na TV Cultura.


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Empresário foi obstinado por independência e novidades


Copyright Folha de S.Paulo, 30/4/2007


Depois da infância com dificuldades, Frias passou pelos setores financeiro, agropecuário, imobiliário e, a partir de 1962, quando adquiriu a Folha, transformou-a no jornal mais influente e de maior circulação do país.


Obcecado pelo trabalho, estabeleceu para a imprensa brasileira um patamar inédito de distanciamento frente aos poderes político e econômico, baseado na pluralidade e no espírito público do jornalismo.


Penúltimo dos nove filhos do casal Luiz Torres de Oliveira e Elvira Frias de Oliveira, Frias nasceu em Copacabana, em 5 de agosto de 1912.


Pertencia a uma família tradicional do Rio de Janeiro. Seu bisavô fora o Barão de Itambi, político influente no Segundo Reinado. Seu avô, Luiz Plinio d´Oliveira, construiu os Arcos da Lapa, adutora que trazia água de Santa Tereza para o centro da capital.


Apesar dessas raízes, sua infância foi marcada por dificuldades. Em 1918, seu pai, que era juiz de direito em Queluz (SP), licenciou-se para trabalhar com o industrial Jorge Street, casado com uma tia de Elvira, um pioneiro do setor têxtil. A família mudou-se para São Paulo, e Frias foi estudar no Colégio São Luís, mantido por padres jesuítas e um dos mais conceituados da cidade.


Antes de completar oito anos, Frias perdeu a mãe. Em seguida, a família foi abalada com a quebra da indústria de Street e passou a viver apuros financeiros. Já não era mais possível pagar em dia as mensalidades do colégio, freqüentado pela elite paulista, e o menino Frias ia às aulas com sapato furado, forrado com jornal por dentro para tapar o buraco. Gostava de história universal, sonhava em ser advogado, mas resolveu abandonar os estudos aos 14 anos para começar a trabalhar.


Seu primeiro emprego (1926) foi como office-boy na Companhia de Gás de São Paulo, que pertencia, como grande parte dos serviços públicos da época, a empresários ingleses.


Passou a ajudar nas despesas da casa e chamou a atenção de seus chefes. Em três meses foi promovido a mecanógrafo, ou seja, operador de máquinas de contabilidade.


Em 1930, foi convidado e aceitou um posto na Secretaria da Fazenda do governo do Estado, a fim de organizar a confecção mecânica dos tributos. Para aumentar a renda, vendia rádios à noite. Em 1940, já era diretor do Departamento Estadual do Serviço Público, respondendo pela diretoria de Contabilidade e Planejamento.


Embora adotasse, desde cedo, uma atitude cética em relação à política, alistou-se nas tropas da Revolução Constitucionalista, que eclodiu em julho de 1932. Permaneceu dois meses em Cunha, na região do Vale do Paraíba, onde passou o aniversário na trincheira, participou de escaramuças e viu companheiros serem mortos. Acreditava que a ação militar contra o governo central, entretanto, era uma aventura fadada ao fracasso e não alimentava simpatia pela liderança oligárquica do movimento.


Nos anos seguintes, manteve-se distante tanto do comunismo como do integralismo, as duas correntes que empolgavam a juventude. Seus interesses estavam na atividade empresarial. Passou a se dedicar aos negócios a partir do início da década de 40, contrariamente aos conselhos de seu pai, que prezava a estabilidade do serviço público.


Quando garoto, Frias assistiu a inúmeras discussões entre seu pai e seu tio-avô, o empresário Jorge Street, que ergueu três impérios empresariais e foi três vezes à falência.


Construiu, 15 anos antes da Revolução de 1930 e do advento das leis trabalhistas, a Vila Maria Zélia, no Brás, que provia os operários de moradia, escola e assistência médica. Freqüentemente, as discussões entre o juiz e o industrial, parentes por casamento, versavam sobre as vantagens e desvantagens da social-democracia escandinava, que despertava, então, grande curiosidade.


Em 1943, Frias participou, na condição de um dos acionistas-fundadores, do estabelecimento do Banco Nacional Imobiliário (BNI, mais tarde Banco Nacional Interamericano), sob a liderança de Orozimbo Roxo Loureiro. Como diretor da carteira imobiliária, lançou um programa de condomínios a preço de custo. Foram construídos, assim, mais de uma dezena de prédios, entre eles o Copan, que viria a se tornar um dos símbolos de São Paulo.


Convidado por Frias, de quem se tornou amigo, Oscar Niemeyer projetou ainda, além do Copan, a Galeria Califórnia, na rua Barão de Itapetininga, um prédio na praça da República e outro na rua Direita, antiga sede das Indústrias Matarazzo. Um discípulo de Niemeyer, o arquiteto e pintor Carlos Lemos, projetou na mesma época, com financiamento do BNI, o Teatro Maria Della Costa. Cândido Portinari e Di Cavalcanti fizeram painéis para alguns desses edifícios e também se tornaram amigos de Frias.


Como diretor de banco, viajou várias vezes aos Estados Unidos, onde tomou contato com a cultura empresarial norte-americana e foi fortemente influenciado por ela.


O BNI inovou ao criar o ‘canguru-mirim’, campanha de estímulo à poupança infantil. Chegou a vender prédios para o advogado José Nabantino Ramos, então controlador da Folha e um dos pioneiros na introdução da psicanálise em São Paulo.


Por divergências quanto à administração, Frias deixou o banco. No dia seguinte ao rompimento com Loureiro, Frias caiu do cavalo e quase teve uma fratura de espinha. Ficou seis meses engessado. Semanas depois, o automóvel que dirigia entrou na traseira de um caminhão parado, sem sinalização, na via Dutra. Morreram Zuleika Lara de Oliveira, sua primeira mulher, e um irmão dele, José. Seis meses após sua saída do banco, o BNI foi adquirido pelo Bradesco, depois de ter entrado em liquidação.


Frias fundou, em 1953, uma empresa própria (Transaco -Transações Comerciais), uma das primeiras firmas especializadas na venda de ações diretamente ao público.


Traduziu para o português o livro ‘Do Fracasso ao Sucesso na Arte de Vender’, clássico comercial do norte-americano Frank Bettger. Organizou cursos de vendas -algo inédito no Brasil-, para uma equipe que chegou a contar com 500 vendedores.


Frias se casou novamente com Dagmar de Arruda Camargo, que já tinha uma filha de casamento anterior, Maria Helena, e com quem teve três filhos: Otavio, Luís e Maria Cristina.


Data desse período na Transaco sua primeira ligação com a imprensa: a empresa prestou serviços profissionais à ‘Tribuna da Imprensa’, o jornal carioca de Carlos Lacerda, e à ‘Folha da Manhã’ de Nabantino.


Este havia transformado um diário pouco expressivo num jornal moderno. Em 1960, foram reunidos três títulos da empresa (o carro-chefe ‘Folha da Manhã’, a ‘Folha da Tarde’ e a mais antiga ‘Folha da Noite’, fundada por Olival Costa e Pedro Cunha em 19 de fevereiro de 1921) num só jornal -a Folha de S.Paulo.


Em 1954, o empresário comprou um pequeno sítio nas proximidades de São José dos Campos, no interior paulista. Mas as intenções de lazer não duraram muito tempo.


Logo o sítio se transformou em granja e depois num empreendimento avícola de porte, que chegou a manter um plantel de 2 milhões de aves. Atualmente, a Granja Itambi se dedica apenas à pecuária.


Associado ao empresário Carlos Caldeira Filho, Frias fundou a Estação Rodoviária de São Paulo, inaugurada em 1961. Mas o principal empreendimento dos dois sócios seria concretizado pouco depois, em 13 de agosto de 1962, com a aquisição da Folha de S.Paulo, que disputava, com o ‘Diário de S.Paulo’, a posição de segundo jornal da capital paulista, e que atravessava período de dificuldades financeiras.


Agastado com a greve dos jornalistas de 1961, Nabantino decidira se desfazer do controle acionário do jornal.


Frias e Caldeira, respectivamente presidente e superintendente da empresa, voltaram-se à tarefa prioritária de recuperar o equilíbrio financeiro do jornal. Para dirigir a Redação, Frias nomeou o cientista José Reis, um dos criadores da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência (SBPC).


Trouxe para integrar a equipe o responsável pela modernização do rival ‘O Estado de S. Paulo’, o jornalista Cláudio Abramo, que viria a suceder Reis e manter, com Frias, uma produtiva convivência profissional que se prolongou por mais de 20 anos.


Em 1964, a Folha apoiou a derrubada do presidente João Goulart e o estabelecimento de um regime de tutela militar -temporária, conforme se acreditava- sobre o país.


Superada a fase de adversidades econômico-financeiras, a nova gestão passou a se dedicar à modernização industrial e à montagem de uma estrutura de distribuição que alicerçou os saltos de circulação que estavam por vir. Foram comprados novos equipamentos e impressoras nos EUA.


Em 1968, a Folha se tornava o primeiro jornal latino-americano a ser impresso no sistema offset. Em 1971, outro pioneirismo: o jornal adotava composição ‘a frio’, abandonando os tradicionais moldes de chumbo. A Folha crescia em circulação e melhorava sua participação no mercado publicitário.


No final dos anos 60, Frias chegou a organizar o embrião de uma rede nacional de televisão, congregando à TV Excelsior de São Paulo, líder de audiência cujo controle adquiriu em 1967, mais três emissoras no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. Por insistência de Caldeira, porém, os dois sócios abandonaram a empreitada em 1969.


Mais ágil e inovador do que o concorrente tradicional, a Folha ganhava espaço junto às camadas médias que ascenderam com o ‘milagre econômico’, fixando-se como publicação de grande presença entre jovens e mulheres.


Ao mesmo tempo, dedicava-se com desenvoltura crescentea áreas do jornalismo até então pouco exploradas, como o noticiário econômico, esportivo, educacional e de serviços.


Em 1968, em companhia de Carlos Caldeira, Frias assumiu a Fundação Cásper Líbero, na época em sérias dificuldades financeiras. O equilíbrio econômico foi alcançado, a TV Gazeta, inaugurada. Ambos se retiraram tão logo a situação se normalizou.


A partir do final de 1973, o jornal passou a adotar uma atitude política mais independente e afirmativa, em vez da ‘neutralidade’ acrítica do intervalo 1968-1973.


A Folha apoiou a idéia da abertura política e se colocou a serviço da redemocratização, abriu suas páginas para todas as tendências de opinião e incrementou o teor crítico de suas edições.


Frias acreditava firmemente na filosofia de uma publicação isenta e pluralista, capaz de oferecer o mais amplo leque de visões sobre os fatos. Encontrou um colaborador habilitado em Cláudio Abramo, responsável pela área editorial entre 1965 e 1973, sucedido por Ruy Lopes (1973), e Boris Casoy (1974), reconduzido a essa função em 1975, onde permaneceu até 1977, quando Casoy, em meio à crise provocada por uma tentativa de golpe militar contra o presidente Ernesto Geisel, foi convidado por Frias a retornar ao cargo.


Abramo reformulou o jornal e fez a primeira (1976) de uma série de reformas gráficas que se sucederiam.


Reuniu colunistas como Janio de Freitas, Paulo Francis, Tarso de Castro, Glauber Rocha, Flavio Rangel, Alberto Dines, Mino Carta, Osvaldo Peralva, Luiz Alberto Bahia e Fernando Henrique Cardoso.


A Folha se transformava num dos principais focos de debate público do país. Ao contrário de algumas expectativas, essa linha editorial foi preservada e desenvolvida durante o período em que Casoy foi editor-responsável.


Em 1983-84, a Folha foi o baluarte, na imprensa, do movimento Diretas-Já, a favor de eleições populares para a Presidência da República. Apoiou o Plano Cruzado, em 1986, e fez campanhas contra o fisiologismo político durante o governo José Sarney, manifestando-se contrária à prorrogação do mandato presidencial.


O jornal manteve-se em posição crítica durante a ascensão e o apogeu de Fernando Collor. Embora apoiasse suas propostas de liberalização econômica, foi a primeira publicação a recomendar o impeachment do chefe do governo, que acabou caindo em 1992.


Em 1986, tornou-se o jornal de maior circulação em todo o país, liderança que mantém desde então. Em 1995, um ano depois de ultrapassar a marca de 1 milhão de exemplares aosdomingos, a Folha inaugurou seu novo parque gráfico, considerado o maior e tecnologicamente mais atualizado na América Latina, um projeto orçado em U$S 120 milhões.


Em 1991, Frias e Caldeira decidiram dissolver a sociedade que mantinham, cabendo ao primeiro a empresa de comunicações e ao segundo os demais negócios e imóveis em comum.


A partir de meados da década de 80, Octavio Frias de Oliveira começou a transferir a operação executiva para seus filhos Luís e Otavio, respectivamente nas funções de presidente e diretor editorial do Grupo Folha.


Até poucos meses atrás, o publisher participava do dia-a-dia do jornal, seja acompanhando os números da empresa, seja definindo a linha dos editoriais, seja criticando reportagens ou recomendando pautas jornalísticas.


Embora tenha sempre afirmado não ser jornalista, mas empresário, trouxe furos de reportagem, como a notícia de que o estado de saúde de Tancredo Neves era muito mais grave do que afirmavam, em março de 1985, médicos e autoridades do novo governo.


Consolidado o seu papel na imprensa brasileira, o Grupo Folha passou a investir em novas tecnologias. Em 1996, lançou o Universo Online (UOL), principal provedor de conteúdo e de acesso à internet do país. Líder absoluto na categoria de notícias da rede brasileira, o UOL é hoje uma empresa de capital aberto, na qual o Grupo Folha tem 41,9% das ações, o grupo de telefonia Portugal Telecom tem 29% e o restante está em poder do público.


Atualmente, a Folha é o centro de uma série de atividades na esfera da indústria das comunicações, abrangendo outros jornais -o ‘Agora São Paulo’, campeão de vendas em bancas no Estado de São Paulo, o ‘Valor Econômico’, lançado em 2000 em associação com as Organizações Globo, e o ‘Alô Negócios’, o maior jornal de Curitiba em número de classificados.


Fazem parte também do grupo: o Datafolha, instituto de pesquisas de opinião, a Publifolha, editora de livros, o Banco de Dados da Folha, a Folhapress, agência de notícias, a Plural, maior indústria gráfica de impressão offset do país, a São Paulo Distribuição e Logística, em parceria com o Grupo Estado, e a Transfolha.


Na construção de todas essas empresas, Frias mostrou seus traços mais marcantes: inteligência prática e intuitiva, o tino comercial, a informalidade no trato, a curiosidade pelos empreendimentos produtivos. De hábitos simples, quase espartanos, ele era agnóstico em religião, liberal em política e economia e, até alguns anos atrás, praticante de esportes.


Nos últimos anos, recebeu uma série de homenagens. No79º aniversário da Folha, em fevereiro de 2000, a Câmara dos Deputados, em seção solene, homenageou o Grupo Folha e seu publisher. Em 2002, a Fiam (Faculdades Integradas Alcântara Machado) inaugurou a cátedra Octavio Frias de Oliveira, com programação de seminários mensais. Frias recebeu da entidade o título de professor honoris causa em fevereiro.


Em dezembro, a Fundação Professor Edevaldo Alves da Silva, do Centro Universitário Alcântara Machado, em São Paulo, lançou o livro ‘Octavio Frias de Oliveira: 40 Anos de Liderança no Grupo Folha’, reunindo textos de jornalistas que trabalharam ou trabalham na empresa.


Em 3 de maio do ano passado, o publisher da Folha recebeu o prêmio Personalidade da Comunicação 2006, concedido pelo 9º Congresso Brasileiro de Jornalismo Empresarial, Assessoria de Imprensa e Relações Públicas.


Em agosto, foi lançado no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, o livro ‘A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira’, escrito pelo jornalista Engel Paschoal e editado pela Mega Brasil. A Publifolha relançou o livro em março deste ano (328 págs.). A obra traça um perfil do empresário e traz depoimentos de diversas personalidades do mundo político, empresarial e jornalístico.


No dia 4 de setembro passado, o então governador Cláudio Lembo condecorou Frias com a Ordem do Ipiranga, a mais elevada honraria do Estado de São Paulo.


De franqueza desconcertante, mas avesso a entrevistas, surpreendeu ao dar uma declaração em 2003 comentando o estado de endividamento da mídia no país. Estava em discussão a possibilidade de o BNDES conceder empréstimos ao setor. Disse Frias: ‘O que interessa ao governo é a mídia de joelhos. Não uma mídia morta. Uma mídia independente não interessa a governo nenhum’.


***


Morre Octavio Frias de Oliveira, publisher do Grupo Folha


José Maria Mayrink # copyright O Estado de S.Paulo, 30/4/2007


Morreu ontem [domingo, 29/4] à tarde, aos 94 anos, Octavio Frias de Oliveira, publisher do Grupo Folha. A morte ocorreu às 15h25 em decorrência de complicações que começaram em novembro, quando sofreu uma queda em casa e precisou ser submetido a uma cirurgia para a remoção de um hematoma craniano.


Nas últimas semanas, o quadro clínico do empresário piorou. Ele teve uma insuficiência renal grave e estava inconsciente havia alguns dias. Até as 20h30, ainda não havia sido definido onde o corpo seria velado nem detalhes do enterro de Frias.


Adolescência difícil


Carioca por acidente, o jornalista Octavio Frias de Oliveira nasceu no bairro de Copacabana, na casa dos avós, em 5 de agosto de 1912, quando sua família morava em Queluz, na divisa de São Paulo com o Estado do Rio. Nessa cidade, seu pai, Luiz Torres de Oliveira, era juiz. Descendente de nobres endinheirados, os barões de Itambi e de Itaboraí, ele atravessou infância e adolescência apertadas em São Paulo.


Ainda menino, Frias precisou arrumar emprego para ajudar nas despesas, quando estudava no Colégio São Luís, na Avenida Paulista. Usava sapatos furados e andava de bonde, enquanto os colegas ricos desfilavam de carro.


Começou aí a carreira do futuro empresário que faria do trabalho uma paixão. Foi office-boy, vendedor de aparelhos de rádio, funcionário público, incorporador imobiliário, corretor de títulos, banqueiro e criador de frangos, antes de comprar a Folha de S. Paulo, uma decisão que mudou sua vida, aos 50 anos de idade.


Pagou a fatura com cheque, numa sexta-feira, 13 de agosto de 1962, avisando que o dinheiro só estaria disponível três dias depois. Era um negócio de ocasião, porque não tinha a intenção de investir na imprensa. Frias conhecia bem a Folha, pois uma pequena corretora de sua propriedade, a Transaco, havia vendido assinaturas do jornal, mas não era do ramo.


‘Não tinha nenhum gosto pela atividade’, revelou ao jornalista Engel Paschoal, autor do livro A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira, biografia lançada em agosto, com informações dele e depoimentos de amigos e colaboradores.


‘Eu passei minha vida lendo o Estado, até chegar à Folha, mas não era um grande leitor de jornal’, acrescentou o empresário na entrevista. Fez o negócio pensando só em ganhar dinheiro e porque era amigo dos donos do jornal, José Nabantino Ramos e Clóvis Queiroga, seu cunhado, conforme relata no livro.


Frias era funcionário público da Recebedoria de Rendas da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, quando estourou a Revolução Constitucionalista, em 1932. ‘Eu não acreditava naquela revolução, achava que nós íamos perder, mas a pressão era tão grande que resolvi me alistar também, para desespero de meu pai, que não queria que eu fosse de jeito nenhum.’


Ele achava que ‘aquilo era sacanagem dos paulistas da UDN’, mas foi lutar nas trincheiras. A UDN, à qual Frias se referia, era a sigla da União Democrática Nacional, partido de oposição que só seria fundado 13 anos depois, em 1945.


Gosto pelo esporte


Contemporâneo do escultor Brecheret, do pintor Di Cavalcanti e do poeta Guilherme de Almeida, que também lutou em 1932, Frias não queria saber de vida intelectual. Gostava de praticar esportes.


Jogava futebol e tênis, torcia pelo Paulistano e depois pelo São Paulo, treinava no Palmeiras e descia a serra pelo Caminho do Mar para nadar em Santos. Andou a cavalo até os 83 anos, esquiou até os 84, mergulhou até os 89, praticou ioga e dirigiu até os 92.


Em 1947, Frias casou-se com sua primeira mulher, Zuleika Lara de Oliveira, que morreria num acidente de automóvel – ela e um irmão de Frias, oito anos depois, quando ele bateu de frente num caminhão, na Via Dutra. Voltavam de São José dos Campos, onde o empresário montou a Granja Itambi para a produção de frangos. Nunca chegou a ser um bom negócio, mas era um passatempo que adorava. Segundo sua filha Maria Cristina, ele sempre dizia que gostava mais da granja do que da Folha.


Aos 36 anos, Frias pediu demissão no emprego público para se tornar sócio do Banco Nacional Imobiliário (depois Inter-Americano), com participação de 10% do capital.


‘Entrei com a cara e a coragem. Quem entrou com o dinheiro foram os acionistas que nós arrumamos. Eu não entendia nada de banco. Mas sempre fui um homem que sabia organizar as coisas’, essa foi a explicação que Frias deu para sua aventura de banqueiro. Quando o BNI quebrou, após financiar a campanha eleitoral de Orozimbo Roxo Loureiro, sócio majoritário, Frias sofreu o baque, embora estivesse licenciado.


Recomeço


Com os bens bloqueados, foi obrigado a recomeçar do nada. Dedicou-se então à Transaco, a corretora que vendera, com sucesso, assinaturas da Folha. Estendeu seus negócios ao Rio, onde vendeu também assinaturas da Tribuna da Imprensa e distribuiu material de propaganda de Carlos Lacerda na campanha para o governo do então Estado da Guanabara. ‘Inundei o Rio com placas do Carlos Lacerda, com 30% de comissão’, lembrou Frias no depoimento a Paschoal. Ele sabia ganhar dinheiro e aplicava tudo a juros.


Nos negócios imobiliários, Frias se tornou sócio de Carlos Caldeira Filho, que havia lançado um condomínio, a preço de custo, em Santos, onde foi contratado pelo BNI. Foram sócios e amigos. Um dos empreendimentos de maior sucesso da dupla foi o Edifício Copan, que o arquiteto Oscar Niemeyer projetou para a comemoração do 4º Centenário de São Paulo, em 1954. Outro bom negócio foi a construção da Estação Rodoviária, no centro da cidade. Iniciativa de Caldeira, o terminal deu lucro desde o dia da inauguração, em 1961.


Em 1955, passou a morar com Dagmar de Arruda Camargo, quando ela se separou do marido. Oficializaram a união dez anos depois, quando Dagmar já era viúva. Ela trazia uma filha do primeiro casamento, Maria Helena, e teve mais três com Frias – Otavio, Maria Cristina e Luís. Havia também Beth, a filha que ele havia adotado com Zuleika, sua primeira mulher. Criada por uma tia, Beth, que estudou e se tornou bailarina, morreu em fevereiro de 1981.


Ao comprar a Folha, o empresário que não queria saber de jornal instalou-se no quinto andar do prédio da Alameda Barão de Limeira, onde ele e Caldeira ocupavam salas vizinhas. Confiou a redação ao jornalista José Reis e dedicou toda a atenção à situação econômica e financeira da empresa.


Em 1965, comprou também os jornais Última Hora e Notícias Populares, aos quais se somavam a Folha da Tarde na capital e a Cidade de Santos, no litoral. O vespertino Folha da Tarde foi uma dor de cabeça para o empresário durante o regime militar, quando passou das mãos de uma equipe de esquerda, em 1969, para um grupo de direita, nos anos seguintes.


Depoimentos de editores que trabalharam na empresa naquela época atestam a infiltração de policiais na redação e a utilização de caminhões de transporte da Folha em missões clandestinas do DOI-Codi, órgão de repressão da ditadura.


A situação mudou a partir de 1976, quando o jornal abriu suas páginas para o debate pluralista de idéias, iniciativa que todos creditam a Frias. Em 1983, o jornal apoiou a campanha Diretas Já, que levou multidões às ruas, no ano seguinte, numa mobilização nacional pela eleição direta do presidente da República. Esse engajamento político aumentou o prestígio e a credibilidade da Folha entre os leitores.


‘Faro de jornalista’


Embora sempre fizesse questão de dizer que era empresário, Frias ‘tinha alma e faro de jornalista’, observa o repórter Ricardo Kotscho, que trabalhou diretamente com ele. ‘Por isso, costumava chamar à sua sala, independentemente da função que exerciam, profissionais de diferentes áreas da redação’, escreveu Kotscho em seu livro Do Golpe ao Planalto. Entre esses jornalistas, destaca-se o nome de Cláudio Abramo, braço direito de Frias, que gostava de discutir com ele sobre socialismo e capitalismo.


Frias sabia ganhar dinheiro, mas não era homem de luxos nem de coisas supérfluas. Costumava usar roupas velhas, sem nenhuma vaidade. ‘Dinheiro só terá sentido enquanto estiver, de alguma forma, a serviço da sociedade’, ensinava aos filhos, aos quais transferiu cedo a condução dos negócios. Isso jogou sobre eles um ‘peso um pouco massacrante’, observou Otavio Frias Filho, diretor de redação desde 1984. ‘Pus os filhos para trabalhar já há algum tempo’, disse o empresário no fim da vida, satisfeito com essa decisão.


Ao receber o prêmio Personalidade da Comunicação 2006, em maio, Frias fez um balanço positivo de sua trajetória. ‘Tive algum êxito como empresário. Consegui dar minha modesta contribuição no grande trabalho coletivo de criar riquezas, gerar empregos, fortalecer empresas e lançar produtos. Atribuo esse êxito ao trabalho perseverante e a alguma sorte’, declarou em seu discurso.


Dizia que cometeu muitos pequenos erros, mas nenhum grande, porque sempre foi muito cauteloso. Não se arrependia de nada, ‘faria tudo igualzinho’, mas não compraria a Folha, ‘porque não teria dinheiro para pagar o que ela vale hoje’.


Ao se aposentar, continuou a se interessar pelo dia-a-dia do jornal. Acompanhava de perto os editoriais, discutia alguns assuntos específicos com os filhos e participava da orientação geral, mas sem função executiva.

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