Domingo, 19 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1037
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MEMóRIA > Jornal da Tarde 1966-2012

Como cozinhar a censura

Por Equipe do Observatório da Imprensa em 14/05/2019 na edição 1037

Com os censores dentro da redação do Jornal da Tarde, Ruy Mesquita teria uma das ideias mais originais da história da imprensa brasileira — e que se transformaria num marco da luta pela liberdade de expressão no país durante a ditadura: combater a censura com receitas culinárias, como conta o jornalista e escritor Ferdinando Casagrande em Jornal da Tarde – Uma ousadia que reinventou a imprensa brasileira, obra vencedora do primeiro Prêmio Livro-Reportagem Amazon, a ser publicada também pela editora Record até o fim do ano.

Em uma parceria com o autor, o Observatório da Imprensa publica, durante quatro semanas, capítulos do livro com alguns dos momentos mais relevantes da história do JT, como o jornal era chamado. Esta é a última edição; as anteriores podem ser conferidas aqui, aqui e aqui.

JORNAL DA TARDE – UMA OUSADIA QUE REINVENTOU A IMPRENSA BRASILEIRA
FERDINANDO CASAGRANDE

Capítulo 26

O fechamento já caminhava para o final na manhã do dia 15 de março de 1973 quando o secretário-gráfico ligou da oficina. O censor de plantão estava estripando a página 4 do Jornal da Tarde. Ele havia acabado de riscar com seu lápis vermelho toda a terceira coluna. Retalhar partes de matérias era comum, muito mais frequente do que cortar textos ou páginas inteiras.

Até aquela data, Ruy Mesquita não havia achado uma solução que lhe agradasse para situações como aquela. A redação fizera sugestões, O Estado vinha testando algumas fórmulas, mas nada que realmente fosse a cara do JT. Por isso, quando havia tempo para o início da impressão, a redação tinha por norma esperar a chegada de Ruy ao prédio, às 9 da manhã, para decidir o que colocar no lugar. Naquele dia, o diretor chegou com uma nova ideia e convocou Murilo Felisberto para saber o que ele pensava a respeito.— Pensei em publicar receitas culinárias no lugar das matérias cortadas.

Murilo ficou em silêncio por alguns instantes.

— É uma ideia genial, doutor Ruy, — respondeu com um sorriso nos lábios. — Se o censor for estúpido o suficiente para deixar isso passar, vamos fazer história.

Ruy havia considerado a hipótese de os censores rejeitarem a publicação de receitas, mas achou que tinha boas chances. Chegou a imaginar um diálogo em que ele pediria ao censor que explicasse o que havia de subversivo num prato de frango a passarinho, ou de polenta de milho.

Murilo voltou para sua mesa na redação e pediu ajuda a Flávio Márcio.

— Flavinho, arruma rápido um livro de receitas culinárias e escolhe um prato.

— Vai para o fogão a essa hora, Murilo?

— Não, vamos cozinhar a censura.

Flávio Márcio apareceu com um livro da Nestlé, Murilo escolheu aleatoriamente uma das receitas e mandou alguém bater numa lauda para encaminhar para a diagramação. O texto não cabia, então ele mandou cortar pelo pé. Alguém ponderou que o prato não daria certo se a receita fosse mutilada.

— Se não der certo, melhor ainda — respondeu Murilo.

Ruy não teve de convencer os censores de que culinária não era subversão. Nenhum deles se opôs à publicação da primeira receita, na edição daquele dia. Nem da segunda, impressa na página 10 da edição de 31 de março seguinte. A primeira receita, como era de se esperar, causou estranhamento aos leitores. Alguns chegaram a telefonar para a redação para reclamar que o prato não dava certo.

Foram informados que se tratava de texto aleatório, usado para completar o espaço deixado por um artigo censurado pela ditadura. O mesmo aconteceu com a segunda e, a partir daí, nos dias de publicação de receitas, os telefones da redação não paravam de tocar. Eram leitores querendo saber qual matéria havia sido censurada.

***

Nem sempre os jornalistas precisavam cortar as receitas pelo pé. Em algumas ocasiões, o espaço aberto pela censura era tão grande que o problema se invertia: não havia banquete, por maior que fosse, que preenchesse tantos centímetros. Um caso assim aconteceu na edição de 3 de janeiro de 1974, quando o censor mandou cortar uma página inteira. Nesse dia, a redação copiou uma lista de cinco quitutes que se repetiam pelo espaço, escancarando o absurdo daquela situação. O texto começava por uma sugestão de “Docinho de abóbora e coco”, e o editor ainda se divertiu escrevendo o título “Salgados” no alto da página.

Como os censores não reagiam contra as receitas, os jornalistas começaram a se empolgar. Carlos Brickmann, que não desperdiçava uma chance de aprontar uma boa molecagem e desde o primeiro dia enxergara enorme potencial nas receitas, procurou Ruy depois de algum tempo para propor uma ousadia.

— Nós podemos editar os títulos dos pratos, Ruy. Podemos inventar nomes que cutuquem os nossos algozes.

Ruy gostou da ideia e autorizou a brincadeira. Nasceu assim a série de receitas inventadas, com títulos que faziam referências a políticos e autoridades da época. Uma das mais famosas era motivo de orgulho para o próprio Ruy, que se gabava de ter criado o título “Lauto Pastel”, em referência ao então governador Laudo Natel, outro inimigo da família Mesquita.

Os ministros também ganhavam homenagens em pratos como “Aves à Passarinho”, “Steak à Delfim” e “Filé à Gaminha”, por exemplo. O ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, considerado o chefe e mentor intelectual da censura, mereceu uma página inteira intitulada “Receitas do Alfredo’s”.

Os censores deixavam passar os textos culinários, mas não aliviavam nos cortes. Entre os assuntos proibidos em 1973 constaram a importação de uma duvidosa carne congelada do Uruguai, o envenamento de crianças numa escola do interior, notícias sobre o surto de meningite que começava a crescer em São Paulo e qualquer reportagem sobre a atuação do Esquadrão da Morte que citasse o nome do delegado Sérgio Paranhos Fleury.

O fato político mais importante varrido das páginas do jornal foi a renúncia do então ministro da Agricultura, Cirne Lima. O jornal só pôde noticiar a substituição por José de Moura Cavalcanti, sem explicar aos leitores que Cirne Lima deixava o governo por discordar do então todo-poderoso ministro da Fazenda, Delfim Neto. No total, o JT foi proibido de publicar 200 reportagens completas naquele ano. O número de cortes de parágrafos, trechos, frases, nomes foi muito maior, mas se perdeu na memória.

***

A redação não se vingava apenas nos títulos das receitas. Em pelo menos uma ocasião, os jornalistas planejaram uma sabotagem concreta contra um dos censores que todos os dias mandava o porteiro reservar a vaga bem na frente da entrada do jornal para que ele estacionasse o seu Sinca vermelho tufão. O plano era simples, quase infantil. Consistia em murchar os pneus do Sinca para que o censor, ao sair do fechamento depois de retalhar o jornal, tivesse de voltar a pé para casa. No meio da noite, o esquadrão designado para o ataque desceu à rua e executou a ação. Foram para o bar exultantes após deixar o Sinca com os quatro pneus vazios. Nem desconfiavam que a missão havia sido um completo fracasso.

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