Sexta-feira, 20 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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MEMóRIA > Janela do diálogo

Conversa com José Marques de Melo

Por Carlos Chaparro em 26/06/2018 na edição 993

Querido amigo Marques de Melo:

Recebi hoje a notícia da tua morte. Um infarto fulminante te levou para outra dimensão da VIDA. E faço questão de acentuar a palavra VIDA por não acreditar na morte. Sim, meu amigo: para mim não existe o processo da morte. O que existe é o processo da vida, do qual o falecimento físico faz parte.

E porque a morte não existe, faço também questão de pedir licença para te usar como interlocutor nesta “Janela do Diálogo”, que por coincidência hoje inauguro, como espaço de conversas abertas sobre JORNALISMO, área do conhecimento que muito te deve.

Começo por te dizer, amigo, que a convicção racional que me leva a descrer da morte conduz-me, também, à evidência de que pessoas como tu, que usaram o tempo e os dons da existência física para construir e reelaborar VIDA, vivas continuarão nos efeitos da obra realizada e nas descendências genéticas e intelectuais – no teu caso, descendências herdeiras não apenas do conhecimento por ti produzido e organizado no muito que pensaste, escreveste, disseste e fizeste, mas herdeiras também dos compromissos que assumiste e nos ensinaste a assumir, em favor dos valores humanistas da democracia.

Por caminhos de concordâncias e divergências, tu me fizeste um desses herdeiros. E como teu herdeiro de saberes e responsabilidades, faço questão de transcrever parte de um texto que sobre ti no meu blog postei, a 25 de fevereiro de 2016. Naquela data, a propósito do Prêmio Ibero-Americano de Teoria da Comunicação, a ti outorgado, assim escrevi, em tom de conversa entre nós:

“O prêmio atribuído homenageia em ti não apenas o cientista e o líder científico, produtor e organizador de conhecimento, mas também o persistente construtor da hoje vigorosa identidade institucional da área de Comunicação – no Brasil e nos espaços ibero-americanos.

O prêmio que vais receber, amigo José Marques, chega no momento ápice desse processo, já que, na plenitude da maturidade intelectual, além de seres presidente de honra da Intercom (entidade que nasceu com o teu DNA e o conserva), ocupas atualmente a presidência das duas mais representativas entidades internacionais da área: a Federação Brasileira e a Confederação Ibero-Americana de Associações Científicas de Comunicação.

Penso, porém, que o mérito dessa atuação de liderança não deve ofuscar a relevância científica da tua extensa produção intelectual, como pesquisador e pensador da área de Ciências da Comunicação. Tudo resultando em textos publicados – dezenas de livros, centenas de artigos, milhares de palestras e conferências.

O conjunto da obra constitui, sem dúvida, o nosso mais importante acervo organizador do conhecimento, na área da Comunicação. Portanto, uma bibliografia de referência essencial.

Mas faço questão de recortar, no conjunto da obra, os teus estudos sobre Jornalismo, espaço especializado no qual prioritariamente te situas. A esses estudos devemos, sem dúvida, avanços irreversíveis na descoberta e no entendimento das complexidades agregadas ao Jornalismo pelas modernas tecnologias e por suas decorrentes e revolucionárias transformações socioculturais.

O livro Jornalismo – Forma e Conteúdo, de 2009, é uma bela sinopse da vasta contribuição de ideias dada por ti aos estudos do Jornalismo. Nele, estão claramente demarcados os itinerários intelectuais, políticos e culturais do professor, do pesquisador e do pensador de jornalismo José Marques de Melo, incansável provocador de controvérsias.

Embora com fortes traços autobiográficos, é, na essência, um livro de ideias. E nessa faceta da obra te encontramos e identificamos – porque, sendo um livro de ideias, ele te expõe e te coloca em lugar próprio, acima das circunstâncias do tempo.” 

*****

Amanhã, irei ao Cemitério Morumbi. Em jeito de despedida, te direi: “Descansa em paz, amigo! – e zela por nós, os herdeiros, para que nada de ti se perca.”
No mais, prometo releituras regulares dos teus textos, para novas e renovadas conversas de aprendizado.
Até amanhã!

**

Carlos Chaparro é Doutor em Ciências da Comunicação e professor de Jornalismo na Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo.

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