Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Dez anos sem o mestre

Por Marcos Marques de Oliveira em 08/08/2005 na edição 341

O interesse da biografia parece opor-se diretamente a um projeto global, mas ela própria tem como pano de fundo o mundo histórico em que o indivíduo se integra. (Friedrich Hegel)

Em 10 de agosto de 1995, a ciência social brasileira perdia um de seus mais importantes nomes, a política nacional deixava de contar com um de seus mais vibrantes militantes e o nosso jornalismo dava adeus a um de seus articulistas mais críticos. Famoso por sua trajetória acadêmica e parlamentar, Florestan Fernandes, nascido em 22 de julho de 1920, escreveu, em diversas fases de sua vida, em diários de grande circulação. Neste artigo, presto uma singela homenagem a este honorável homem público, militante na academia e professor na política, destacando alguns de seus encontros com o mundo jornalístico. [O estudo sobre um mal-sucedido transplante de fígado, o segundo erro médico sofrido por um mesmo paciente, pode ser conferido em ‘Vítimas de hemodiálises: casos diversos e o caso Florestan’, no livro Os anjos também erram, de Ivone Bulhões (Rio de Janeiro: [sn], 2001)]

O primeiro desses encontros localizo no fim dos anos 1930, no centro de São Paulo, quando um jovem garçom chamava a atenção dos freqüentadores, na maioria jornalistas e intelectuais, do Bar e Restaurante Bidu. Por sua visível dedicação aos livros e habitual inteligência aferida nas conversas cotidianas, um variado número de clientes abordavam o jovem Florestan perguntando sobre seus estudos. Sob esse estímulo, o garçom resolve dividir seu tempo com o curso de ‘madureza’ no Ginásio Riachuelo, voltando às salas de aula depois de ter interrompido o curso primário para ajudar, como engraxate e outros trabalhos comuns aos menores de idade, no sustento da família – que se resumia, àquela época, a ele e sua mãe, uma moça analfabeta filha de imigrantes portugueses da região do Minho, que abandonou o campo pelo trabalho doméstico na metrópole.

Completado o ciclo, Florestan ingressa, aos 21 anos, no curso de Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP), instituição criada para receber os filhos da elite paulistana. Logo no primeiro trabalho, sobre ‘a crise causal na explicação sociológica’, começa a ter dimensão das dificuldades que a vida acadêmica debitava a quem vinha de uma condição social diferenciada. Além da nota (4,5), o comentário do professor Roger Bastide foi ainda mais contundente: ‘Eu pedi uma discussão sistemática do assunto, não uma reportagem‘. Esse episódio marca a vida do jornalista insciente, fazendo aflorar os primeiros passos do cientista disciplinado, pronto a seguir o padrão monástico exigido pelo professor francês.

Em defesa da escola pública

A partir dessa experiência Florestan vai consolidar sua decisão em se tornar ‘professor’ e ‘intelectual’. Nessa empreitada, vai contar com grande ajuda, especialmente do sociólogo Fernando de Azevedo. Mas, o que o sustenta é a dedicação aos estudos para encontrar um lugar ao sol no meio intelectual da principal cidade brasileira. Para isso, investe na publicação de artigos em revistas acadêmicas e jornais. Entre 1944 e 1945, escreve – principalmente no Estado de S.Paulo e na Folha da Manhã (do qual chegou a ser correspondente) – apostando no folclore como objeto de estudo. Concomitante à graduação, ainda em 1943, Florestan ingressa na luta pela redemocratização do país através do Partido Social Revolucionário (PSR), organização clandestina de tendência trotskista, liderada pelo jornalista Hermínio Sacchetta, quando tem um contato mais denso com o marxismo. Entre suas ‘tarefas’, a feitura de um jornal, em sua própria casa, e a tradução da ‘Contribuição à crítica da Economia Política’, de Karl Marx. Mas, devido às dificuldades de um estudante pobre – e com a compreensão dos amigos trotskistas –, a luta entre o militante e o cientista, neste momento, terá como vencedor o segundo. É justamente esta opção que vai possibilitar a Florestan percorrer a trilha para a constituição de uma sociologia crítica e militante.

A seguir, torna-se mestre em Antropologia, doutora-se em Sociologia e conquista o título de livre-docente na USP. Sua ciência social ganha contornos definitivos, destacando-se a busca de mediações para definir a riqueza dos processos sociais e dos processos históricos. Seu objetivo: descobrir os nexos visíveis e invisíveis que tecem a realidade, resultando num pensar sociológico que tenta identificar os bloqueios que impedem ou retardam o desenvolvimento da sociedade. Busca, assim, consolidar uma nova consciência social no Brasil que, através de seus discípulos, transformar-se na ‘escola paulista de sociologia’, promotora de um elenco de indagações teórico-metodológicas fundamentais, com destaque para temas e grupos até então marginalizados pela historiografia. No seu caso específico, destaque para os índios tupinambás e o preconceito contra os negros, combatendo o mito da democracia racial brasileira. No trabalho em equipe, registra-se a criação do Centro de Sociologia Industrial e do Trabalho (Cesit), responsável pelo lançamento de pesquisadores que fizeram importantes investigações nos campos da sociologia e da economia.

Em todo esse período, dedicado a compreender os ‘dilemas sociais brasileiros’ e a profissionalizar a ciência social tupiniquim, coloca em segundo plano a militância política e a atividade jornalística. No entanto, num momento marcante na história do país, quando dos debates para a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, entre 1957 e 1961, Florestan faz um interregno e ingressa na ‘Campanha em Defesa da Escola Pública’. Nela, defende, novamente em artigos de jornais (principalmente no Estado de S. Paulo), a democratização do ensino contra o uso da educação como mecanismo de privilégio social. A vitória dos grupos ligados à iniciativa privada, liderados pela Igreja Católica e representados pelo deputado-jornalista Carlos Lacerda, entristeceu Florestan, mas não o impede de tirar relevantes lições.

Pedagogia nos jornais

O dilema educacional, a seu ver, indicava a complexidade do ‘dilema social brasileiro’, sintoma da resistência sociopática das elites nacionais à mudança social, portadoras de uma ação político-cultural incompatível com a retórica liberal. No caso em questão, o sinistro não foi o combate aos pressupostos ‘estatizantes’ das correntes socialistas, mas o massacre ideológico das concepções liberais ‘clássicas’, representadas, por exemplo, nas posições de Anísio Teixeira. Não que Florestan retomasse o mito pragmatista de que ‘todo o problema da época moderna é um problema educacional’. O fato é que, dependendo da sociedade e da conjuntura, a educação tende a desempenhar funções dinâmicas ou estáticas, podendo ser um fator de conservantismo ou inovação.

Um ponto fundamental para a efetiva adequação da escola às necessidades sociais de conservação ou inovação está, segundo Florestan, no papel desempenhado pelo educador como agente promotor da mudança social. Para tanto, um professor progressista precisa fundir os papéis de docente e cidadão para a construção de uma cultura cívica capaz de generalizar a consciência crítica. No caso de Florestan, esta fusão se mostrará madura quando, depois de passar pelas agruras da cassação profissional, advoga para si a missão de corroborar para a configuração de uma pedagogia socialista capaz de transformar a sociedade brasileira.

Certo de que foi punido pelos dados no currículo, Florestan parte para o exílio questionando sua condição de ‘militante da ciência’. Será a partir daí que ele retornará à luta política e (posteriormente) partidária, dando contornos a um tipo de orientação socialista que continua a ter base na esperança iluminista de racionalização da vida social. A tensão entre os ideais e a opção profissional toma, nesse momento, uma direção inédita no seu modo de pensar a realidade brasileira, o que não significa que a inflexão operada no seu pensamento seja um corte absoluto. É aqui que se dá a conversão de Florestan em ‘pedagogo da revolução’, quando se revela um ensaísta do processo sociopolítico, dirigindo-se mais freqüentemente à imprensa, com destaque para os artigos publicados no Jornal do Brasil e na Folha de S.Paulo. É nessa condição de articulista que afirmará a centralidade de sua ação político-revolucionária, destacando, entre as questões a serem investigadas, a ‘galvanização’ da massa proletária e os problemas concernentes à constituição do sujeito revolucionário. A partir de então, a tarefa primordial passa a ser a difusão do socialismo entre os trabalhadores, o cerne de uma pedagogia que dá conteúdo, forma e prosseguimento ao seu projeto de vida.

Degeneração prevista

Não é por acaso que nesse período Florestan, após um contato mais próximo com a herança leninista, participará do debate sobre os rumos da nossa democracia, inclusive com seu ingresso na Assembléia Nacional Constituinte (ANC) de 1987, para a qual foi o quarto mais votado pelo Partido dos Trabalhadores (PT) no estado de São Paulo. O trabalho parlamentar não deixará de expressar a tensão entre teoria e prática, mas, como afirma o marxista José Paulo Netto, ‘revela uma convicção de que a produção de conhecimentos sobre a realidade brasileira, propiciada pela dedicação à sociologia, aporta insumos às forças sociais que podem se colocar objetivos socialistas’ [A recuperação marxista da categoria de revolução. In INCAO, Maria Ângelo D’ (org.). ‘O saber militante: ensaios sobre Florestan Fernandes’. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p. 292-305.]. Apesar de algumas vitórias, devido a sua atuação parlamentar impecável, elogiada até por adversários ideológicos, Florestan não faz uma boa avaliação da experiência. Do seu ponto de vista, o texto final da Constituição ficou a meio caminho de atender às expectativas da maioria do povo brasileiro devido à falta de interesse dos poderes constituídos em equacionar os problemas da República e enfrentar os interesses das classes dominantes.

No entanto, com apoio dos movimentos sociais que representou no Congresso Nacional (tais como dos aposentados, índios, negros, sindicalistas e, é claro, da educação pública), reelege-se para um novo mandato. Um fator considerado importante para a reeleição, segundo o próprio Florestan, foi sua atuação como articulista de grandes jornais. Suas colunas na Folha e no Jornal do Brasil o tornaram conhecido por um público mais amplo, que ia além dos companheiros da academia e de militância partidária. Segundo o crítico literário Antonio Candido [‘Florestan Fernandes’. São Paulo: Perseu Abramo, 2001], nesse momento a escrita do ‘professor’ assume uma clareza e uma objetividade muito diferente dos textos anteriores. De acordo com a socióloga Miriam Limoeiro, em palestra assistida por esse escriba, ele costumava responder a todos leitores e utilizava os questionamentos para embasar os artigos seguintes – abordando temas diversos, em que até mesmo o futebol, por exemplo, merecia uma interpretação sociológica e socialista (como gostava de deixar claro), ainda que numa linguagem bastante acessível.

Florestan, nesse mesmo período, dedica-se ao fortalecimento do PT, contribuindo para os debates sobre o papel da respectiva agremiação na consolidação da democracia brasileira, que, a seu ver, corria grande o risco de continuar sob controle das mesmas forças beneficiárias do período autocrático. Ainda que um ‘fundador’ tardio do partido – já que só se filia em 1986, sob o convite de seus líderes e a pressão de amigos para concorrer à Constituinte –, o então deputado acreditava que o PT tinha condições de ser um instrumento dos setores mais pobres para ‘civilizar’ a sociedade civil, a partir do acirramento da luta de classes, e, assim, criar condições para instaurar uma real ‘ordem social competitiva’. Para tanto, Florestan afirmava que o partido não poderia ceder às correntes do ‘socialismo legalista’ [Para quem acha que a degeneração do PT é fenômeno recente, conferir ‘Contra o socialismo legalista’, de Adelmo Genro Filho (Porto Alegre: Tchê!, 1987), com prefácio de Florestan Fernandes.], que abriam caminho para a sua social-democratização, o primeiro passo para a criação de uma casta burocrático-eleitoreira disposta a entrar no jogo da representação política sem o nível de intransigência necessária para resistir aos apelos da cooptação e, quiçá, da corrupção próprias de uma ‘democracia’ burguesa.

Ideário questionado

A leitura destes textos de Florestan ajuda a esclarecer muitas coisas que correm nos dias de hoje. A notar, o registro de que uma das condições que o fizeram aceitar o convite do PT era a obrigação de contribuir com 30% de seu salário para a edificação do partido – situação bem diferente dos que hoje assumem, no mínimo, ter cedido à informalidade do ‘Caixa 2’ eleitoral, sem contar a suspeita de compra de parlamentares pelo ‘mensalão’ de R$ 30 mil.

Na fase final de sua obra, Florestan Fernandes vai considerar o jornalismo como uma forma de intervenção política e uma atividade intelectual parelha às ciências sociais. Prefaciando um livro de Carlos Benedito Martins [‘Ensino pago: um retrato sem retoques’. São Paulo: Cortez, 1989, p. 13.], afirma que ‘cada civilização perpetua-se ou deixa rastros de sua existência por certas formas de testemunhos históricos. A sociologia e o jornalismo são fontes históricas vigorosas da civilização das sociedades de classes sob o capitalismo monopolista da era atual’.

Tal perspectiva se consagra na leitura dos seus últimos artigos (1989-1995), principalmente os publicados pela Folha de S.Paulo, ao mesmo tempo em que se consolida no Brasil um novo projeto político, que terá entre seus próceres seu discípulo mais famoso: Fernando Henrique Cardoso. O desconforto em tê-lo como adversário político não impediu as críticas a sua candidatura e a seu governo. Desde o início apontava para o fato de que sua vitória redundaria em novo ciclo de desenvolvimento periférico, perpetuando a falta de mentalidade capitalista autônoma e de responsabilidade cívica das classes dominantes. Desta forma, Florestan investe contra o programa neoliberal de reformas, implementado desde o governo Collor, questionando a adoção do ideário do Estado ‘mínimo’ social e a incorporação subordinada ao ‘neocolonialismo’, que se dá pela privatização do aparelho estatal. Rejeitando uma simples volta ao nacional-desenvolvimentismo, Florestan lembra a necessidade de construção de um projeto nacional de reformas dirigidas a partir dos interesses da maioria do povo, condição para que não se perpetue um tipo de dependência nascida da instrumentalização externa do Estado, da cultura, da economia, da ciência e da tecnologia.

Dançando com Florestan

Mas, como registra seu filho, o jornalista (talvez não por acaso) Florestan Fernandes Jr., em depoimento a um filme produzido pela TV Câmara [falo do documentário Florestan Fernandes – o mestre, dirigido por Roberto Reis Stefanelli, vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2005], a análise crítica da conjuntura não redundava num pessimismo quanto ao futuro da humanidade. É o que constatamos nos seus últimos artigos, nos quais permanece a esperança num processo educativo permanente nas relações sociais em crise, que sob condições democráticas pode engendrar a formação de um novo senso comum, dos quais um dos pilares deve ser o resgate das memórias que podem revelar a verdade de uma história que o medo, de um lado, e a cobiça, do outro, tendem a disfarçar: a do trabalho como fonte social de riqueza. Este, a meu ver, é um dos maiores méritos dos escritos finais de Florestan, indicando que como publicista ele consegue articular, de forma muito proveitosa, as suas duas outras mais conhecidas vocações. Um dos últimos gestos dele, por sinal, foi morrer trabalhando, dedicando-se a um derradeiro artigo para sua coluna semanal na Folha de S. Paulo.

Meu desejo é que ao menos os jornais pelos quais Florestan deixou sua marca dediquem, como vêm fazendo alguns intelectuais e políticos, parte de seu tempo e páginas para levar às novas gerações o exemplo de vida ilibada, a coerência ética e política e, principalmente, a pertinência de sua obra para a compreensão da nossa história e, quem sabe, a indicação de possíveis formas de intervenção que almejem uma outra sociabilidade. Como lembra sua filha, a socióloga (provavelmente não por acaso) Heloísa Fernandes, num estudo crítico sobre a concepção pedagógica de Émile Durkheim [‘Sintoma social dominante e moralização infantil’. São Paulo: Escuta/Edusp, 1994, p. 199.], ‘quando os ‘mortos’ cantam e falam, afirmam um outro tempo e dão passagem à utopia’.

Na academia, na política ou no jornalismo, vozes como a de Florestan Fernandes fazem muita falta. Afinal, lançando mão de um outro Friedrich, o rebelde aristocrático Nietzsche, só vale a pena acreditar em deuses que saibam dançar. Especialmente os que dançam, cantam e falam outras melodias que não as da moda.

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Jornalista e cientista social, co-autor de Democracia e educação em Florestan Fernandes (Autores Associados, 2005), com o capítulo ‘O articulista Floresta Fernandes: educação e democracia em tempos de neoliberalismo’

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