Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

MEMóRIA > ARTHUR OCHS SULZBERGER (1926-2012)

Morre ex-diretor do New York Times

Por OESP em 02/10/2012 na edição 714
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 30/9/2012

O empresário Arthur Ochs Sulzberger, que esteve à frente do New York Times por 34 anos, morreu ontem aos 86 anos. Ele foi presidente e diretor executivo da New York Times Co., holding do jornal, de 1963 a 1997, quando abriu mão do comando para seu filho, Arthur Ochs Sulzberger Junior.

Durante o tempo em que comandou o jornal, o New York Times passou por um período de expansão e de enormes mudanças na forma de informar os leitores. Quando Sulzberger tomou posse, o Times lutava com enormes dificuldades – a crise da economia nova-iorquina afetou todos os jornais da cidade.

A reação de Sulzberger foi investir em melhorias e expandir o jornal, em vez de cortar os custos a um ponto em que a qualidade jornalística seria afetada. Em meados da década de 70, o Times passou de suas duas seções tradicionais para quatro e, nos últimos anos de sua gestão, chegou a ter seis cadernos na maioria dos dias.

Para diversificar as fontes de renda, Sulzberger estimulou a compra de revistas, estações de TV, de rádio e abriu a venda de ações do Times ao público. Quando ele assumiu o cargo, em 1963, a receita do jornal era de US$ 101 milhões.

Quando deixou a presidência, a holding faturava US$ 2,6 bilhões e controlava o Boston Globe, 21 jornais regionais, oito estações de TV, nove revistas, duas estações de rádio em Nova York e uma agência de notícias.

Sua decisão mais importante à frente do jornal foi tomada em 1971. Sulzberger insistiu que os “Documentos do Pentágono”, a história secreta da Guerra do Vietnã, deveriam ser publicados. A decisão levou a uma sentença da Suprema Corte que marcou época: os jornais tinham o direito de publicar documentos secretos, livres da “proibição prévia” do governo.

Durante as três décadas em que esteve no comando, o New York Times ganhou 31 prêmios Pulitzer. A morte de Sulzberger foi anunciada ontem pela família no site do jornal. O executivo morreu em sua casa em Southampton, Nova York, após uma “longa doença”, segundo a nota.

Telefonemas

No período em que esteve à frente do New York Times, Sulzberger tornou-se uma pessoa tão influente que passou a administrar pressões vindas de todos os lados, principalmente da Casa Branca.

Em 1963, o então presidente John F. Kennedy fez de tudo para que o jornal trocasse seu correspondente no Vietnã do Sul. No entanto, por decisão de Sulzberger, o jornalista David Halberstam, que vinha desagradando a Casa Branca com suas reportagens sobre a guerra, permaneceu no cargo.

Em 1967, já durante a presidência de Lyndon Johnson, o então secretário de Estado dos EUA, Dean Rusk, telefonou para Sulzberger para demonstrar a “preocupação” da Casa Branca com o trabalho que o repórter Harrison Salisbury vinha realizando em Hanói.

Durante o governo de Ronald Reagan, ele foi convidado para comer no Salão Oval. Após a refeição, ele telefonou para a mãe, contando que tinha almoçado com o presidente, o vice-presidente e o secretário de Estado. “Ela me respondeu: ‘Que bom, querido, mas o que eles queriam?’”, lembrou Sulzberger, às gargalhadas. “Eu nunca soube direito o que os políticos queriam.”

Sobre o jornal que ajudou a construir, ele o definia de maneira simples e direta. “Você não compra notícia quando compra o New York Times, dizia Sulzberger. “Você compra discernimento.”

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