Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MEMóRIA > PORTUGAL PARA PRINCIPIANTES

Entre rosas e espinhos

Por Paulo Affonso Grisolli em 28/12/2004 na edição 309

Será que você conhece este país? Para sabê-lo, ponha de lado, antes de mais nada, o desdém que tradicionalmente os brasileiros alimentam pelas coisas de Portugal. Desdém, sim. Temos, no Brasil, uma tradição hipocritamente inconfessa de desdenhar o português. A tal ponto que o adjectivo luso chega a ganhar significado pejorativo entre nós. Habituamo-nos a cultivar a piada de português com contumaz perversidade. Que depois dizemos, com hipocrisia para uso além-fronteira, tratar-se de mera jocosidade afectuosa.

Há razões históricas para isso, sem dúvida. Portugal impôs-nos, durante mais de trezentos anos, o peso de sua colonização de rapina. Os primeiros contingentes imigratórios provindos de Portugal após a nossa Independência, entre meados de século 19 e o início de 20, destinados sobretudo a substituir a mão-de-obra escrava definitivamente extinta em 1889, eram constituídos por cidadãos rudes e grosseiros – açoreanos sobretudo, tidos como os únicos capazes de aguentar as miseráveis condições de trabalho a que eram forçados os imigrantes no Brasil. Que terminaram por compor uma imagem típica altamente desfavorável a tudo o que fosse luso.

No final do século 19, uma onda de nacionalismo instalado na então emergente sociedade brasileira generalizou um sentimento de hostilidade ao português, já sem distinção de classe. Em 1894, por exemplo, um jornal brasileiro, que sintomaticamente se chamava O Jacobino, publicava em editorial: ‘Parece incrível que uma repartição pública coma a Estrada de Ferro tenha tanto português trabalhando lá. Quando esses desmandos cessarão? Quando esses labregos deixarão de ocupar os lugares que deveriam ser dos brasileiros natos?’

Tudo isso deixou traços no nosso comportamento social. E que, entretanto, de há muito já deveriam ter sido extintos.

Pois a verdade é que a cultura que produziu a Independência do Brasil foi uma cultura luso-brasileira. E entre o final do século 19 e o início do 20 éramos não apenas lusófonos mas intensamente lusiformes. O Brasil mudou muito no pós-guerra, assumiu características retiradas de outras influências, sobretudo a norte-americana. A língua brasileira modificou e degradou-se em termos vocabulares e léxicos, distanciando-se muito da índole do idioma original. Egresso de ditadura tão abomináveis quanto a salazarista, o Brasil cresceu e tem amadurecido politicamente. A cultura nacional consolidou-se, embora nem sempre desatada das raízes lusas que lhe deram origem.

Portugal, por seu turno, ao acordar da letargia salazarista para democratizar-se, começou a palmilhar um cainho de modernização imparável. Ás vezes aos trancos e barrancos, tanto quanto também por vezes trôpega anda a democracia, na qual o país se exercita cada vez mais. Lá e cá…

Relaxar e gozar

Brasil e Portugal são, hoje, duas nações livres, renovadas e parentes. Parentes de grande proximidade, não obstante as transformações por que têm passado. Não há porque se desdenhem uma à outra.

Mas não se iluda. Portugal não é nenhum paraíso. Muito menos o novo Eldorado que muita gente imagina ao atirar-se para cá, de mala e cuia, na esperança de melhorar de vida.

Com uma longa história de país exportador de gente, Portugal viu-se transformado, ultimamente, por ingerências históricas, em país de imigração. E não recebe apenas brasileiros. Finda a colonização em África, não só os portugueses lá residentes transferiram-se em massa para cá, mas também muitos nativos das ex-colónias, desejosos de melhores empregos e mais oportunidades, ou de formação escolar, universitária ou não. Para além disso e por conta do seu europeísmo, Portugal recebe ainda um contingente enorme de cidadãos oriundos dos chamados países de Leste—ex-integrantes da extinta União Soviética.

Os centros maiores incham com esses imigrantes à procura de trabalho, que mesmo para os nacionais está muito difícil. Portugal não foge à regra do desemprego e que aflige quase o mundo inteiro. Cuidado, pois. Sem qualificação profissional, sem contrato de trabalho, sem legalização da sua permanência no país sem alguma base de apoio, você corre o sério risco de integrar a multidão de excluídos sociais que hoje marcam presença em Portugal.

Mas há também o relaxar e gozar. Os portugueses, de modo geral, gostam dos brasileiros. E há até os que chegam a achar bonita e melodiosa a barulheira típica que se escuta quando um grupo de brasílicas figuras se reúne em qualquer lugar. (Português bem educado fala baixinho, baixo demais até, o que me parece ser uma reminiscência do medo que a PIDE de Salazar implantou, durante cinquenta anos, neste país.)

Sede ao pote

Embora frequentemente contrariado em suas tradições agrícolas em consequência das regras do mercado comum a que pertence por força dos tratados europeus, Portugal continua a produzir vinhos excelentes. E a oferecer a seus visitantes uma gastronomia saborosa e gorda, que via muito além da simples bacalhoada que a maioria dos brasileiros costuma equivocadamente referir como sendo a única glória culinária lusitana.

Apesar de crises e graves problemas sociais como o dos toxico-dependentes, Portugal oferece a média de seus habitantes um apreciável nível de qualidade de vida. Acolhe e aplaude telenovelas e jogadores de futebol provindos do Brasil. Assim como faz filas em restaurantes para degustar uma boa feijoada ou um variado rodízio de churrascos. E consume, também com voracidade, a música brasileira—da bossa nova ao rock pesado, passando por Caetano, Calcanhotto, Chico, Vinicius e Toquinho e outras coisas boas, tanto quanto pelo country brega e até pelo intragável Tiririca (que me desculpem os seus fãs).

Nem tudo são rosas. Nem tudo são espinhos. O importante é não ir com muita sede ao pote. Portugal só tem o tamanho do nosso Estado de Santa Catarina. Não cabe muita gente aqui.

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