Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MEMóRIA > Repórter do Brasil caipira

Era uma vez João Garcia

Por Rosana Zaidan em 31/08/2017 na edição 956

Era agosto de 1974 quando vi João Garcia pela primeira vez na redação do Diário, em Ribeirão Preto. Moço magro, moreno, misterioso, de andar característico, com um certo gingado que lhe dava ares de quem estava sempre com pressa. Pressa para a reportagem, ou, para pegar o ônibus de volta para Santa Rosa de Viterbo. Mais tarde, brincando na redação, ele usava essa flexibilidade para trançar as pernas, imitando Elvis Presley. Era um imitador nato. E com um ouvido fantástico. Conversou com Tom Jobim por telefone, algumas vezes, negociando com ele a trilha sonora do Canto da Piracema(1990). Tom não fez, mas passou o trabalho para o filho Paulo Jobim. Pois bem, as conversas com Tom, nessa época, renderam divertidas simulações com o timbre exato do maestro. Era delicioso de ouvir. João também gostava de soltar, do nada, frases curtas, jargões que viravam senhas entre nós: “Jack, não se mova! Há perigo no desfiladeiro!” Ou, proféticas palavras: “o mocinho morre no fim!”

Mas, em 1974, João ainda falava pouco na redação do Diário, na rua Américo Brasiliense. Ouvia e observava. E fazia reportagens com esse novo DNA que trazia. Simplicidade, inteligência. Um olhar novo, sempre questionador.     

O Brasil, sob governo militar, dava de presente enviesado a Ribeirão Preto dois gênios “exilados” , depois de perseguidos em São Paulo por ideias políticas. Foram resgatados por um homem de alma grande, o empresário João Dib, depois do sim do então controlador do Diário, Marcelino Romano Machado. O resultado é que eles trouxeram uma escola fantástica de jornalismo. Somos todos filhos deles.

Um desses gurus era o editor Sérgio de Souza, que havia formatado a melhor época do texto da revista Realidade, da Editora Abril. Uma lenda. Um jequitibá. Outro, o repórter José Hamilton Ribeiro, primo de João e também nascido em Santa Rosa de Viterbo, fato que confere à cidade a estatística de maior número de grandes jornalistas per capita.

Curiosamente, tanto João quanto Zé Hamilton se notabilizaram por matérias no Vietnã, outro recorde da pequena Santa Rosa. Hamilton, em tempos de guerra, o que lhe custou uma perna e reconhecimento internacional. João, em tempos de paz, o que lhe rendeu um especial no Globo Repórter, via EPTV, sobre o mundo do café, ao lado do repórter Dirceu Martins. Até hoje Dirceu não se esquece dessa passagem por quatro continentes para contar a saga do café. Ou da aventura de quase 1.700 km sobre lombo de cavalo, de São Paulo a Goiás Velho. Ideia do João para comemorar os 25 anos da EPTV, com a reconstituição do caminho do bandeirante Anhanguera, atrás de ouro.  

Pautas do João ‘laçavam’ grandes histórias com a pitada certa de aventura. Eram trabalhos de fôlego que exigiam entrega visceral. Durante a produção desses especiais, mergulhávamos no trabalho sem hora, sem dia, sem noite. Era o abismo do desconhecido e depois as alturas da transcendência absoluta. Era assim que João trabalhava. Árdua e intensamente. Era assim que, ao lado dele, toda a equipe ganhava um novo sentido para a vida. O trabalho tinha mais que comprometimento profissional. Tinha alma. Transcendência.

PARTE DOIS

Em 1º de outubro de 1980, em Campinas, ele com o número 54 e eu com o número 52, nos tornamos oficialmente funcionários da TV Ribeirão, que só seria inaugurada em 12 de novembro do mesmo ano. Havíamos nos reencontrado lá em meados de setembro, para o estágio na então TV Campinas, os dois vindos do impresso, aprendendo a fazer televisão.

Era uma turma grande, recrutada depois de várias entrevistas, por José Bonifácio Coutinho Nogueira, José Bonifácio Coutinho Nogueira Filho, o Boni e Oliveira Andrade. Os nomes: Nélson Araújo, hoje repórter do Globo Rural, Heraldo Pereira, hoje repórter e apresentador da Rede Globo, baseado em Brasília, e mais a repórter Mirtes Wiermann, Carlos Alberto Nonino, Gilberto Silva, Cláudio Dias, além de mim e de João Garcia. Essa era a equipe original de Jornalismo, que pôs a emissora no ar. De Campinas, veio para a chefia Mara Rubia Vieira. João, a essa altura, já tinha dois filhos com a sua Yara. João Cirilo e Terence já haviam nascido. Marília nasceria depois, em janeiro de 1984.

1985 foi um ano marcante, por dois motivos: a TV Ribeirão completou cinco anos e João e eu fizemos a primeira produção especial, juntos. O programa Cinco Anos de TV. Além disso, no final do ano, assumiu a direção em Ribeirão Preto Antonio Carlos Coutinho Nogueira, o Toni, então um jovem com pouco mais de 20 anos. Tínhamos, mais que o diretor perto, um receptivo e atento estimulador de projetos e séries, com um olho clínico infalível.

Com o aval de Toni, depois sediado em Campinas, produzimos séries como “Um rio chamado Pardo” (1988), “Nossa Gente” – que comemorou os dez anos da EPTV (1989) – ; “Era uma vez Dioguinho” (1990). Para fazer Dioguinho, a história do bandido que assombrou a região no final do século 19, João usou funcionários da equipe técnica e moradores da região como atores. Foi a primeira experiência regional com reconstituição histórica. A série também teve trilha sonora do compositor José Márcio Castro Alves, amigo pessoal de João. Dioguinho foi um marco. Depois, João Garcia publicaria o livro “O Matador de Punhos de Renda”, em que faz o resgate do dialeto caipira, uma preciosidade. O livro foi entregue ao amigo e editor Sérgio de Souza, da “Caros Amigos” e da “Casa Amarela”.

Em 1991, João começou a produzir, em tempo real, a mais ousada de todas as reportagens: a piracema nos rios Pardo e Mogi, na região de Ribeirão Preto e Campinas, uma das mais urbanizadas do país. Todo o esgoto de Ribeirão Preto e mais 35 cidades, era lançado no Pardo sem tratamento. E, na região de Campinas, muito industrializada, o Mogi já havia sido agredido por grandes descargas de resíduos químicos de fábricas. Haveria ainda piracema nesses rios? Os peixes ainda tinham como nadar contra a correnteza para se reproduzir? Haveria lagoas para reprodução?

 João Garcia convidou para o trabalho o então repórter Ciro Porto, de Campinas (hoje diretor de Jornalismo da EPTV) , que fez cursos de mergulho para mostrar as profundezas dos rios e localizar cardumes. Uma grande rede de pescadores se formou para dar informações. O grande momento, ao lado do cinegrafista Renato Moraes, foi quando João, em pessoa, repórter tenaz e obstinado, conseguiu flagrar a rodada dos dourados, os maiores peixes de rio, à flor d’água, no ritual de acasalamento.

O Canto da Piracema, nome que faz referência ao ruído dos peixes em frenética busca de parceiros para a reprodução, teve trilha sonora de Paulo Jobim, gravada pela Sinfônica de Campinas. Uma obra prima, com a marca de João Garcia. Prêmio Libero Badaró de melhor programa do ano de 1992. Depois disso, ele ainda produziria e dirigiria belezas como “Rota do Sol”, sobre a migração das Andorinhas, com Ciro Porto; “Caminho da Roça”, sobre a saga antropológica do caipira, O ouro de Kaffa, viagem ao Mundo do Café, projeto e produção de Pedro Varoni com Dirceu Martins na reportagem, “e “O Caminho do Ouro”, ainda com Dirceu Martins – também transformado em livro. A saga do Anhanguera comemorou os 25 anos da EPTV em grande estilo. Foi também a despedida de João.

Em fevereiro de 2006, ele se virou para mim e deu quase uma ordem:

– Pegue sua bolsa e vamos.

Eram dez horas da manhã. Não questionei. Desliguei meu computador na EPTV, peguei minhas coisas e fui com ele. Quando já estávamos a caminho do prédio da rua São Sebastião, 610, ele me falou, quando perguntei a que hora voltaríamos.

– Nunca mais vamos voltar. Estou te levando para conhecer o jornal A Cidade

Não deu tempo de chorar. Já havia concordado em sair da EPTV e sabia que teria de arregaçar as mangas e recomeçar do zero. Mas estava com ele. Tínhamos um novo desafio e, mais uma vez, eu já sabia que valeria a pena, como valeu, cada dia, cada mergulho, cada esforço.  

João foi meu grande parceiro profissional e o de algumas outras pessoas. A inteligência dele e o comprometimento que tinha com a pesquisa da cultura popular, especialmente do caipira, o homem da região dele, eram inacreditáveis. Um compromisso que ele nunca rompeu.

“TIÃO PERO”, O LEGADO

É aí que entra “Tião Pero”, o livro que deixou como último legado. Sei que ele o escreveu com muita pressa, como se não tivesse muito tempo. De fato, não tinha. Pode-se ver a data do início e do final do trabalho dele. Foram três meses, um pouco mais. Muito rápido.

Ele ia sair de férias no dia 20 de agosto de 2012. Me entregou o livro uns 15 dias antes para que o revisasse, embora ele mesmo já o tivesse feito. Tinha esse hábito, gostava que eu lesse tudo. Me pediu pressa, mas eu protestei: livro difícil, não ia ser fácil essa revisão! Só depois entendi. As férias do João não duraram mais que uma semana. No dia 27 de agosto, um infarto fulminante o matou. Ainda agora, parece mentira.

MÉTODOS

João gostava de produzir cedo. Sentava-se ao computador, às 4 da madrugada, e mergulhava no trabalho. A mulher dele, Yara, chegava a brigar! João ficava ali umas quatro, cinco horas diariamente, isolado.Só depois tomava café, fazia sua caminhada e ia para o trabalho.

João tinha uma ideia fixa com esse período do Brasil, em que se falava a língua geral. Ele queria fazer esse resgate. Uma língua perdida no tempo. Os bandeirantes o assombravam e apaixonavam. No livro “Dioguinho” ele fez o resgate da linguagem caipira, também um atrevimento. Em “Tião Pero”, queria chegar de fato às raízes. Buscou dicionários de tupi-guarani, leu vários, chegou a encomendar um pela internet, coisa que jamais havia feito antes [ “é baixo” (expressão caipira) ele dizia, com o dedo puxando a pele sob os olhos para baixo, gesto característico dele].

Também consultava muito um primo, de nome Paulo, com quem trocava e-mails. Paulo, um paleontólogo amador muito tímido com estranhos, não falava com muita gente. Mas com o João, a conversa rendia. Eram dois sabidos, os primos.

Outro para quem o João gostava de mandar os escritos dele era o Mylton Severiano da Silva [(autor dos livros sobre o João Antônio e sobre a Realidade (revista)]. Ele achava o Myltainho excepcional como editor. Viver e trabalhar com João Garcia foi um privilégio. Ele inspirou profissionais em Ribeirão Preto, São José do Rio Preto e Campinas. Quem o conheceu, sabe.

QUEM FOI JOÃO GARCIA DUARTE NETO

– Nascido em Santa Rosa de Viterbo, em 14 de maio de 1947 (teria feito 70 anos neste 2017)
– Casado com Yara Teixeira Duarte
– Pai de Terence (cientista, vivendo em Nova York); João Cirillo (ótimo fotógrafo e pequeno criador de gado) e Marília (jornalista da área gráfica). Avô de João Arthur, Luísa, Theodora, Manu e Diana.
– Início: revista Bondinho, em São Paulo, 1971 (foram 42 anos ininterruptos de trabalho)// Jornais de Ribeirão Preto, Campinas, São José do Rio Preto e EPTV. O último cargo foi de diretor editorial de A Cidade)

LIVROS DE JOÃO GARCIA:

– Dioguinho, o Matador de Punhos de Renda (Casa Amarela)
– Caminho do Ouro (EPTV)
– As anedotas picantes do dr. Gabriel (Casa Amarela)

Rosana Zaidan é jornalista.

 

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