Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1071
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MEMóRIA > Centenário

Erico Verissimo: a trajetória jornalística do escritor consagrado

Por Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite em 10/12/2019 na edição 1067

(Foto: Wikimedia)

Minha tendência no momento é dizer que o grande herói desta hora é o povo, o homem comum, que, se continua vivo, é de teimoso.
Erico Verissimo, em 1975

Em 17 de dezembro de 2019, completam-se 114 anos do nascimento, no município de Cruz Alta (RS), de um dos grandes nomes da literatura nacional e internacional: o gaúcho Erico Lopes Verissimo. Entre contos, romances, biografias, narrativas e novelas, como O senhor embaixador, Incidente em Antares e O tempo e o vento, esse sagitariano nos legou uma vasta produção literária, totalizando 36 obras. Nem todos conhecem, porém, a veia jornalística do escritor.

Em sua cidade natal, a precoce aproximação com o jornalismo ocorreu no âmago familiar, pois seu pai, Sebastião Verissimo, era fundador e responsável pelo jornal humorístico O Calhorda. Segundo a bacharela em Comunicação gaúcha Luiza Carravetta, o exercício do jornalismo se refletiu na obra de Erico Verissimo, conforme explicou, “não só pelo jornalismo ser usado como tema, por ele ter criado vários personagens jornalistas, mas, também, pelo modo de narração e de construção de suas histórias.”

Na infância, a arte de desenhar esteve presente no processo de criação do futuro jornalista e escritor. Em 1914, aos 9 anos de idade, ele criou uma revista artesanal, A caricatura. Na realidade, era um exemplar composto por duas folhas de papel almaço, ilustrado com desenhos e umas pequenas notas. O projeto não foi além do primeiro exemplar. Em plena Primeira Guerra Mundial, o menino Erico criou sua segunda publicação, chamada Íris. Na capa, destacava-se o retrato do então presidente norte-americano Woodrow Wilson (1856-1924).

Hábil na arte da escrita, Erico Verissimo passou, na adolescência, a colaborar com o jornal O Pindorama, do internato de orientação protestante Cruzeiro do Sul (atual IPA), em Porto Alegre, onde permaneceu até o final de 1922. Erico não quis frequentar o curso preparatório para ingressar na Faculdade de Direito e retornou a Cruz Alta. Com a falência da farmácia e a separação dos pais, o garoto, a mãe e os irmãos foram morar na casa dos avós maternos. Diante das dificuldades econômicas, ele passou a trabalhar como balconista no armazém do tio Americano Lopes.

Entre as publicações lidas por Erico, a Revista Brasil era uma das suas favoritas. Com ela, o futuro escritor ficava ciente da vida literária do país, que, naquele momento, vivenciava o movimento modernista, no qual despontavam nomes importantes, como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Graça Aranha e Monteiro Lobato, entre outros destaques. Dominando a língua inglesa, ele traduziu, em 1923, os poemas do indiano Rabindranath Tagore.

Em 1925, Erico passou a trabalhar na filial do Banco Nacional do Comércio. Transcorrido um ano, junto com um amigo de seu pai, tornou-se sócio da Farmácia Central. Infelizmente, o empreendimento faliu, deixando uma dívida que só seria saldada dezessete anos mais tarde. Além de desempenhar o ofício de farmacêutico, Erico também lecionou literatura e inglês.

Manoelito de Ornelas, autor de Gaúchos e Beduínos (1948) e Terra Xucra (1967), conheceu Erico Verissimo na década de 1920, em Cruz Alta. Ambos tinham em comum a paixão pela literatura e a profissão de farmacêutico. Ao ler o conto Ladrão de gado, Manoelito convenceu seu amigo a enviá-lo para a Revista do Globo, onde foi publicado. Erico, a partir dessa iniciativa, deu um passo importante na sua caminhada literária, graças ao incentivo do amigo. O surgimento dessa amizade sólida é narrado no livro Manoelito de Ornellas: vida e obra de um ex-presidente da ARI, da professora Maria Alice da Silva Braga.

No ano de 1929, no mensário Cruz Alta em Revista, ele publicou Chico: um conto de Natal. Ainda enviou para o diretor Souza Júnior, do suplemento literário do Correio do Povo, o conto A lâmpada mágica, também publicado. O êxito dessas iniciativas resultou em novos horizontes que se descortinaram para o jovem escritor.

Em dezembro de 1930, o escritor deixou novamente Cruz Alta, viajando para Porto Alegre com apenas a roupa no corpo e outra muda na mala. Aos 25 anos, Erico sentia a imprescindível necessidade de obter um emprego que lhe possibilitasse concretizar o seu sonho: ser um escritor. Convidado por Mansueto Bernardi, diretor da Revista do Globo, começou a trabalhar na Livraria do Globo, iniciando uma nova fase profissional.

Um bar boêmio

No Bar do Antonello, na rua da Ladeira (atual General Câmara), Erico se reunia com outros intelectuais da época, que transformaram o local num ponto de encontro, principalmente durante a madrugada, quando ali se apresentavam duvidosas estrelas vindas do Rio da Prata. Entre os frequentadores estavam Augusto Meyer, Paulo Corrêa Lopes, Ernani Fornari, Reynaldo Moura, Mário Quintana, Darcy Azambuja e Athos Damasceno Ferreira.

Em 1931, traduziu os livros O sineiro, O círculo vermelho e A porta das sete chaves, de Edgar Wallace. O escritor e amigo Augusto Meyer lhe apresentou a obra Point Counter Point, de Aldous Huxley. Traduzida por Erico em 1933, com o título Contraponto, foi editada dois anos depois. Ainda naquele ano, o Diário de Notícias publicou vários de seus contos: Malazarte, O professor dos cadáveres, Aquarela chinesa e Como um raio de sol, entre outros.

Lançado em 1932, Fantoches é uma coletânea de quinze contos com influência de autores como Henrik Ibsen, Bernard Shaw, Anatole France e Luigi Pirandello. Foi elogiado pela crítica, teve 1.500 exemplares impressos e vendeu entre 400 e 500 unidades. Infelizmente, um incêndio no armazém onde se encontravam os livros destruiu grande parte da tiragem.

No ano seguinte, publicou Clarissa. Em seu primeiro romance, Erico traça o perfil psicológico de uma adolescente de 15 anos, pertencente a uma tradicional família rural, que vem estudar em Porto Alegre. A pensão onde vive é um microcosmo da vida urbana e, seus personagens, um retrato da classe média. O livro teve uma tiragem de 7.000 exemplares. Em 1935, nasce a filha do escritor, batizada de Clarissa.

Na Revista do Globo e na ARI

O escritor, jornalista e pesquisador Antônio Hohlfeldt, membro do conselho da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), enfatiza que Erico, ao assumir a direção da Revista do Globo, em 1932, fez com que ela desse um salto de qualidade. “A revista se transforma em algo de caráter nacional, deixa de ser algo de caráter social, que publicava fotos de aniversários de 15 anos de moças, para se tornar uma publicação de referência”. Com o tempo que lhe restava após o trabalho na Livraria do Globo, Erico escrevia a coluna A mulher e o lar, do Correio do Povo.

Em 23 de dezembro de 1935, com 88 votos de 114 jornalistas, foi eleito o primeiro presidente da Associação Rio-grandense de Imprensa (ARI). Eram profissionais das redações dos principais veículos de Porto Alegre: Correio do Povo, Diário de Notícias, A Federação, Jornal da Manhã, Jornal da Noite, Revista do Globo, Neue Deustsche Zeitung e Deutsches Volksblatt – dessa época, o único que não encerrou de forma definitiva sua circulação foi o Correio do Povo. Em seu discurso de posse, Erico conclamou a classe profissional do Rio Grande do Sul a se aliar à ARI, visando lutar pela liberdade de imprensa.

Ainda em 1935, lançou o livro Caminhos cruzados, que retratou o contraste existente entre ricos e pobres, levando o leitor a questionar as desigualdades sociais e os problemas gerados a partir dessa realidade socioeconômica. O romance traz uma abordagem crítica da sociedade brasileira contemporânea. Pelo teor da obra, Erico foi acusado pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) de ser comunista. Além disso, ele havia assinado um manifesto que condenava o fascismo. Apesar das polêmicas, o romance ganhou o prêmio da Fundação Graça Aranha.

Ao ser empossado como presidente da ARI, Erico assim se manifestou quanto às acusações do DOPS: “Sou um homem que não tem nem nunca tive partido político. Acho que todos os partidos são bons, desde que possam assegurar uma vida decente, razoavelmente confortável e cheia de ar puro e livre. Há uma convicção que ninguém varre da mente: a de que o ar não é prioridade de ninguém. Todos temos igual direito a respirá-lo de acordo com a capacidade de nossos pulmões”.

Em sua gestão, o alto índice de prisões que se seguiu à Intentona Comunista incluiu muitos jornalistas. As prisões decretadas baseavam-se na Lei de Segurança Nacional. Diante disso, Erico interveio, várias vezes, em favor da liberdade dos colegas e, quando não era possível, buscava obter melhores condições de carceragem, além de dar assistência à família do preso político. Ele costumava dizer que “comunista é o pseudônimo que os conservadores e saudosistas do fascismo inventaram para designar todo sujeito que luta por justiça social.”

Na alfândega, outras negociações também ocorriam junto ao governo, visando a liberação de papel importado para a impressão dos jornais, assim como garantir nas viagens de trem um desconto de 50% para os profissionais filiados à ARI. O escritor e jornalista Antônio Hohlfeldt enfatiza que a grande contribuição de Erico como presidente da ARI foi também reunir patrões, empregados e pessoas que trabalhavam diretamente com a imprensa.

Em 1936, assumiu dois programas na Rádio Farroupilha: Amigo velho e O clube dos três porquinhos, que acumulava com a direção da revista A Novela, editada pela Globo. No ano seguinte, porém, devido à censura exercida pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) durante o Estado Novo (1937-1945), abandonou as atividades na rádio por não concordar que os programas fossem submetidos à aprovação do órgão governamental. Foi presidente da ARI até maio de 1937 e, em 1938, abandonou definitivamente a Revista do Globo.

O jornalista Ayres Cerutti, membro da diretoria da Associação Riograndense de Imprensa, declarou que “o sucesso retumbante do Erico como escritor, como romancista, eclipsou sua importância como jornalista”. A partir de 1940, com o sucesso literário, sua colaboração nos periódicos tornou-se menos frequente. Morreu em 1975, aos 65 anos, vítima de infarto. Mar permanecerá vivo nos corações de todos os gaúchos. A grandeza de sua alma e de seu talento são os legados da sua fecunda existência.

***

Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite é pesquisador e coordenador do setor de imprensa do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa (MuseCom).

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