Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

MEMóRIA > Porta-voz dos afrodescendentes

Jornal ‘O Exemplo’: A voz negra do Rio Grande do Sul

Por Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite em 28/11/2017 na edição 968

A história da imprensa gaúcha nos remete a um jornal que combateu o preconceito étnico-racial, lutou contra as injustiças sociais e preconizou por políticas de inclusão social, defendendo, principalmente, o valor da educação como o passaporte da cidadania. Trata-se do jornal O Exemplo (1892-1930) que se constituiu no porta-voz da comunidade afrodescendente.

Criado, em Porto Alegre, no Salão de Barbeiros Calisto, situado à Rua dos Andradas nº 247, este semanário, em sua segunda fase, a partir de 1902, adotou o subtítulo de Jornal do Povo. O Exemplo foi um instrumento de denúncias, discussões e reflexões dos chamados, na época, de “homens de cor”. No editorial do seu primeiro número, em 11 de dezembro de 1892, declarou:

“Devemos mostrar à sociedade que também temos um cérebro que se desenvolve segundo o grau de estudo a que o sujeitemos (…)”.

O jornal foi fundado em razão do preconceito e da discriminação sofrida por Justino Coelho da Silva. Classificado, em primeiro lugar, num concurso público estadual, ele foi impedido de assumir o cargo devido à anulação do processo seletivo. A justificativa desse ato foi que, embora comprovada a capacidade intelectual do candidato, este tinha o grave “defeito” de não ser um homem de tez branca.

O Exemplo foi dirigido, exclusivamente, por afrodescendentes, tendo sido, no gênero, o primeiro com periodicidade até as primeiras décadas do século 20. Circulando aos domingos, teve à sua frente nomes, como Arthur de Andrade, Esperidião Calixto, Tácito Pires, Alcibíades A. dos Santos.

Durante a trajetória do jornal, merecem registro, entre outros nomes, os irmãos Sérgio de Bittencourt e Aurélio de Bittencourt Júnior, filhos do grande jornalista e escritor Aurélio Veríssimo de Bittencourt. Entre 1920 e 1930, Dário de Bittencourt — que foi professor de direito na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) — dirigiu o jornal.  Nesse período, O Exemplo começou a abrir o seu espaço para colaboradores brancos, como Raul Bopp, Vargas Neto, Dante Laytano, Jorge Bahlis e Walter Spalding, entre outros destaques da nossa cultura.

Em sua primeira fase, o jornal circulou de 1892 a 1897 e retornou em 1902. Ao longo da sua existência, ocorreram 04 interrupções, encerrando a circulação, em definitivo, no primeiro semestre de 1930.

A educação — tema bastante presente no jornal — resultou na criação da escola “O Exemplo”, conforme anúncio publicado na edição de 2/12/1902 (p.4). Esta funcionava à noite, e seus professores alfabetizavam e ministravam o curso primário.  Não havia o ensino religioso, pois o jornal defendia a liberdade de culto.

Segundo a doutora Maria Angélica Zubaran, da ULBRA, quanto a denúncias, entre outras publicadas no jornal, O Exemplo, de 1º de maio de 1910, trouxe a público a “Roda dos Expostos” da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre e acusou o Juizado de Órfãos de agência de consignação de escravos. Segue um trecho:

“(…) são adquiridos rapazinhos para copeiros, rapariguinhas para “criadas de dentro” e cozinheiras, enfim, para todo o serviço (até para mulher dos patrões)”.

Zubaran coordenou o projeto “O Direito às Memórias Negras”, que resultou, em 2016, na digitalização de O Exemplo, considerado pelo professor e poeta Oliveira Silveira (1941-2009), como patrimônio cultural afro-brasileiro. Como militante do Movimento Negro, Oliveira foi um dos líderes da campanha em prol da criação do Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, comemorado no dia 20 de novembro. A data passou a fazer parte do nosso calendário, quando foi instituída, em âmbito nacional, mediante a lei nº 12.519 de 10 de novembro de 2011. Originais desse importante jornal foram também digitalizados pelo Instituto Histórico e Geográfico do RS (IHGRS), dirigido, atualmente, por Miguel do Espírito Santo.

Alguns exemplares de O Exemplo encontram-se sob a guarda do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, em Porto Alegre, que, em 10 de setembro de 2017, completou 43 anos, prestando valoroso serviço à comunidade cultural dedicada à pesquisa historiográfica.

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Carlos Roberto Saraiva é pesquisador e coordenador do setor de imprensa do Museu de Comunicação HJC.

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Bibliografia

MARÇAL, João Batista. A imprensa operária do Rio Grande do Sul (1873-1974). Porto Alegre: [s.n.], 2004.

MIRANDA, Marcia Eckert; LEITE, Carlos Roberto Saraiva da Costa. Jornais raros do Musecom: 1808-1924. Porto Alegre: Comunicação Impressa, 2008.

SILVEIRA, Oliveira. Três coleções preservam jornal da comunidade negra. CORREIO DO POVO, Porto Alegre, 8 out 1972, p. 22.

ZUBARAN Maria Angélica. Comemorações da liberdade de memórias negras diaspóricas. Anos 90 / Revista do Programa de Pós-Graduação em História. Porto Alegre, v.15, n. 27, Ed. UFRGS, 2008.

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