Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MEMóRIA > JACINTO FIGUEIRA JR. (1927-2005)

Mais um caso, mais um fato

Por Josué Duarte em 02/01/2006 na edição 362

Que Jacinto Figueira Jr. ajudou a levantar a audiência da TV Globo em São Paulo, nos anos de 1966 e 1967, é fato inegável e reconhecido o por Walter Clark e por Luiz Eduardo Borgerth, no livro Quem e como fizemos a TV Globo (A Girafa, 2003, págs. 30-31). Mas como isto realmente aconteceu tem muito a ver com aquele momento mágico da comunicação brasileira, que marcou o surgimento do Jornal da Tarde, da revista Veja e da própria Globo, o ressurgimento da Folha da Tarde e o primeiro suspiro de morte de jornais como Última Hora, Diário de S. Paulo e A Gazeta. Entre o golpe militar de 1964 e o ano de 1967, estes acontecimentos mudaram radicalmente o panorama jornalístico e de comunicação em nosso país.

O golpe militar foi uma vitória do capital internacional e o contexto político e econômico teve mudanças profundas, razão pela qual os meios de comunicação se voltaram para a nova realidade, com o surgimento de uma classe consumista, a classe média. Assim como as altas vendas de carpetes e tapetes fizeram surgir empresas comerciais gigantes, como a Tapeçaria Chic, a disputa pelo poder aquisitivo da população também levou à expansão da propaganda e dos veículos de comunicação, sendo a televisão o principal.

A TV Globo foi a primeira a aproveitar esta nova realidade e fez deste suporte o caminho seguro para a liderança que exerceu com hegemonia total durante muito anos. Logo no seu inicio, em 1965, Walter Clark trouxe seu parceiro José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que estava iniciando seu trabalho na TV Bandeirantes, de São Paulo. Os dois dividiram por dois anos ou mais uma mesa de boteco nas noites cariocas do início da década de 1960, onde a conversa era televisão e recursos criativos para melhorar o veículo. O tempo levou Boni para os Estados Unidos e depois, na volta, para a Bandeirantes, enquanto Clark foi para a TV Rio e depois para a Globo.

O público telespectador era popular, pessoas de baixa renda, residentes na periferia das cidades. Para conquistá-los, os programas deveriam ser também populares, e então a Globo carioca partiu para uma grade com programas desse tipo, sendo os seus carros-chefe Chacrinha, Derci Gonçalves e Raul Longras. Em São Paulo, a Globo entrou de sola numa programação já testada e aprovada no Rio, com o mesmo Chacrinha, Jacinto Figueira Jr. e os homens da luta-livre, que faziam um programa espetáculo chamado Tele Catch. É claro que no futuro a Globo iria em busca do melhor das novelas, quando a campeã de audiência do gênero, a TV Excelsior, mostrava as fraquezas que iriam levá-la à falência; assim como, em busca dos melhores artistas, como Roberto Carlos, também tirando-os da TV Record, que havia sido a emissora com grande audiência graças aos seus musicais, inclusive festivais de música.

Mas naquele ano de 1966, em São Paulo, a Globo tinha como armas os três campeões de popularidade. No auge da audiência, no entanto, Jacinto cometeu um erro ao promover um Natal para pobres, marcando um domingo para entrega de presentes às mães carentes. O número de pessoas que compareceram ao evento demonstrou o quanto Jacinto e seu programa O homem do sapato branco eram populares, mas ao mesmo tempo criou uma massa surpreendente de pessoas no centro da cidade em dia praticamente sem movimento que é o domingo. As ocorrências policiais neste dia foram numerosas e Jacinto, até então vitorioso em seu trabalho, acabou perdendo tudo.

Problemas com a ditadura

Jacinto era apolítico, apesar de amigo de policiais e de dirigentes do regime. Mas, a despeito de tudo isso, a ditadura queria e fez de tudo para destruí-lo, pois Jacinto tinha poder, era popular, foi eleito deputado estadual com grande votação. E já havia o caso do repórter policial Nelson Gatto, que tomou a Companhia Telefônica de São Paulo, naqueles dias do golpe militar de 1964, em nome do governo em queda, mas legal, de João Goulart.

Jacinto poderia ser também um problema no futuro. Por isso, a ditadura não perdeu tempo ao surgir a primeira oportunidade: a malfadada campanha de Natal em favor dos mais pobres, que fez a Rua das Palmeiras, onde ficava a TV Globo, ser tomada por mais gente que o espaço permitia e fatalmente acabou em violência, espancamentos, feridos e até gente morta.

Jacinto foi preso e perdeu o programa, ganhou processo e nunca mais conseguiu se reerguer. Embora seu programa tenha voltado tempos depois, nunca mais teve o mesmo sucesso, aliás ficou muito aquém em audiência, prestígio e a conseqüente fama.

Confirmando os programas populares lançados pela Globo e sendo Jacinto Figueira Jr. um dos nomes dessa linha de frente, a história da emissora é contada pelo site TeleHistória:

‘Em busca de audiência das classes populares, a emissora lançou programas como Dercy Espetacular, no início de 1966, aos domingos, às 19 horas; O Homem do Sapato Branco, com Jacinto Figueira Jr. e também a Discoteca e Buzina do Chacrinha, às quartas e domingos, respectivamente. Além de Silvio Santos, líder absoluto de audiência – seu programa chegou a dar mais Ibope que a chegada do homem na Lua, conforme matéria da revista Realidade, em 1969. Deu certo. Junto com a audiência conquistada, começava a chegar o prestígio e o grande elenco de artistas, advindos das TVs Tupi, Excelsior, Rio e Record. Regina Duarte, Francisco Cuoco, Jô Soares, entre outros, pouco a pouco, integram-se ao cast da emissora.’

Pioneirismo popular na televisão

Além de ter sido um dos três pilares da Globo para conquista da audiência em São Paulo, Jacinto Figueira Jr. pode ser considerado o iniciador de tudo que hoje temos de popular na televisão. Os programas do Ratinho, Márcia Goldsmidt, João Kleber, e quadros em outros programas, como o Super Pop, de Luciana Gimenez, continuam adotando a fórmula de expor a intimidade de pessoas, algumas delas até públicas, e incentivar o atrito entre as partes envolvidas, criando uma certa sensação de julgamento e de revolta (pela ausência de solução dos casos) nos telespectadores. Esse envolvimento psicológico mantém presa a audiência desses programas e incentivam espectadores a assisti-los pelo interesse nos fatos da vida alheia e a sensação de poder expressar suas raivas com base nos fatos apresentados.

Da mesma forma que o indivíduo que entra numa discussão dificilmente desiste sem que seu ponto de vista venha prevalecer, o telespectador também fica preso ao programa, pois tem a mesma sensação da discussão. Isto Jacinto descobriu e levou ao extremo nas brigas de vizinhos, desentendimentos de casais, problemas de família, disputas das mais diversas e até mesmo casos pitorescos, como o cidadão de Jundiaí que um dia apareceu no programa para pedir ao Jacinto uma esposa.

A despeito da péssima condição física, cultural, financeira do homem, apareceram algumas mulheres bonitas e de nível bem acima do dele. Uma delas virou sua parceira, com as bênçãos de Jacinto, mas a união não deu certo, assim como outras tentadas para o mesmo cidadão também fracassaram. Este ‘cliente’ do programa foi tão marcante que acabou virando personagem de humor e durante muito tempo fez o telespectador rir tanto com o verdadeiro como com o personagem.

Jacinto Figueira Jr. também tinha outras facetas. Certo dia, em entrevista a um programa na TV, disse claramente, em bom som, que o brasileiro é um povo que não gosta de trabalhar, fazendo comparações com trabalhadores de outros países. Em outro momento, numa noite de Carnaval, no Clube Arakan (versão paulista da famosa ‘Noite em Bagdá’ do Monte Líbano, do Rio), Jacinto incentivava as mulheres que apareciam frente às câmaras a se mostrarem de maneira mais chamativa e escandalosa possível, para criar uma sensação maior que a própria folia. Diga-se de passagem, a cobertura de baile de Carnaval por televisão se torna difícil justamente pela repetição de situações, coisa que o Jacinto nesta noite no Arakan passou por cima e transformou a reportagem num show.

Nietzsche no Sapato

Publicado aqui no OI, edição 152, em 1º de janeiro de 2002, reproduzindo matéria da Folha, uma entrevista com Jacinto mostrava-o como um ex-televisivo que vivia com uma aposentadoria de 700 reais, sem grandes esperanças de voltar à TV. Sua explicação sobre o surgimento de O Homem do Sapato Branco, nesta entrevista de 2002, é surpreendente:

‘Eu lia Friedrich Nietzsche e Schopenhauer e vi, em vários trechos, os homens que usavam sapato branco. Você sabe que não é fácil entendê-los, mas eu entendi. E os homens de sapato branco eram dentistas, médicos, enfermeiros, pessoas que, realmente, desejavam o bem dos outros. Então, eu botei o nome O Homem do Sapato Branco.’

Para Jacinto, ainda nesta entrevista de 2002, a Globo voltaria a procurá-lo, pois iria ter que apelar para uma programação popular, como em 1966:

‘A Tupi foi a maior do Brasil. Acabou. Aí ficou quem? A Record. Quem acabou com a Record? Eu. Pois ela estava em primeiro lugar, em segundo estava a Tupi, em terceiro estava a Globo. Quando eu cheguei lá [à Globo] eu dava 60 de audiência. Então, eu a coloquei em primeiro lugar. Quando ela ficou em primeiro e não precisavam mais de mim, acabou o contrato. É um ciclo. A TV do Silvio Santos vai passar a Globo. Logo, logo. E ela terá de voltar a ser popular para conseguir sobreviver.’

E para fazer o que fez, Jacinto não precisava de nada além de um pequeno estúdio, um banco onde ficava e um microfone. Do lado oposto, as duas ou mais pessoas envolvidas em algum tipo de problema. Jacinto iria dar início a um novo caso, cujo final era imprevisível, com sua voz pausada e até certo ponto melancólica: ‘Bem, senhores telespectadores: vamos a mais um caso, mais um fato…’ Do outro lado, milhões de telespectadores atentos na situação que vinha a ser exposta e que seria a grande diversão do dia.

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