Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

MEMóRIA > VLADIMIR HERZOG (1937-1975)

Nosso interlocutor, ainda

Por Luiz Weis em 17/10/2005 na edição 351

Trinta anos se passaram – e não parece que foi ontem. Só entre a morte de Vlado Herzog e a eleição do primeiro presidente civil desde 1960 foram intermináveis 9 anos e 3 meses. Nesse meio tempo, a ditadura suicidou o jornalista pela segunda vez, já então no corpo do operário Manoel Fiel Filho, fechou o Congresso, prendeu 1.700 estudantes numa só noite, reabriu o Congresso, acabou com o Ato 5, reprimiu as greves no ABC, concedeu a anistia, tolerou o terrorismo da ultra-direita, viu surgir o PT e as ruas serem tomadas pelas Diretas Já, perdeu o governo no voto indireto – e deixou o poder pela porta dos fundos. O Brasil que veio depois conheceu a tragédia de Tancredo e a euforia do Cruzado, a utopia da Constituinte e o arrastão da República de Alagoas. A geração que cresceu de costas para a memória de Vlado pintou a cara para acabar com a corrupção, desfrutou do real pintado de dólar, seguiu a estrela da esperança e agora se pergunta para onde ir.


Em 30 anos, é muito o que se empilha sobre o nome de um homem: as celebrações e as decepções, a convivência com a barbárie do dia a dia e com a miséria de esquina em esquina. Foi preciso que, de repente – quase coincidindo com o 29° aniversário de sua partida – um jornal desse um par de fotos de quem, nu diante dos seus inimigos, poderia ser o Vlado, mas não era, para o suplício do suicidado voltar a galope, carregando consigo o rosnar de seus algozes: um relance do que foi este país. Como tornou, passou. Os mortos de verdade e os que o são sem saber voltaram aos seus túmulos. Mas, em nós outros, passageiros do mesmo itinerário que o consumiu, o doloroso clarão de seu falso reaparecimento desarrumou sentimentos e lembranças. Afinal, o amigo fraterno, exigente, provocador e generoso, sobre quem Fernando Jordão escreveu em bronze esta história de opróbrio e grandeza, continuou sendo nesses 30 anos o nosso interlocutor.


Se este livro não precisasse ter sido concebido, a não ser como ficção e alegoria, quanta vitalidade e coragem moral o nosso Vlado não trataria de nos arrancar, ainda hoje, para fazermos melhor, porque livres, o que escolheu fazer sob a treva – depois de se reinventar como ser político, pela justiça social e a democracia no país do qual podia ficar longe, mas não quis. Aos 68 anos, ele já teria se proibido de virar um velho desencantado e indiferente.


Por sinal, caro Vlado, o que você me diz disso que está aí?

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