Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MEMóRIA > HILDA HILST (1930-2004)

Novos leitores começam a nascer

Por Deonisio da Silva em 10/02/2004 na edição 263

Poucos escritores foram tão insultados pela omissão dos contemporâneos como Hilda Hilst. Provavelmente a reclusão voluntária no interior de São Paulo, em Campinas, terá contribuído para transformar a extraordinária poeta em vítima e cúmplice do incompreensível esquecimento que editores e leitores lhe devotaram quase a vida inteira.

Com efeito, apesar de sua obra já estar traduzida para algumas línguas e ser conhecida de gente culta e bem pensante há décadas, a maioria de seus livros foi publicada apenas por pequenas editoras, com notável destaque para Massao Ohno. De todo modo, ela venceu, como prova a origem da epígrafe deste artigo, cujos versos foram extraídos de Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, escolhidos pelo crítico e professor universitário Ítalo Moriconi (Rio, Editora Objetiva, 2001).

E como o município que ela escolheu para viver a tratou? Vejamos o que nos informa Silvana Guaiaume, correspondente do Estado de S.Paulo em Campinas: ‘[A escritora] enfrentou uma grave crise no final da década passada, quando a prefeitura de Campinas quis cobrar impostos atrasados sobre sua propriedade, ameaçando levar sua casa a leilão’.

Ao cobrir a morte da escritora, nossa imprensa, descontando-se mancadas antológicas, forneceu ao leitor abundantes matérias, por norma negadas quando viva. Ainda assim, seu cadáver ainda quente, um comentarista da Rádio CBN lamentou que ela tivesse demorado a conquistar os leitores e para fazer sucesso ela escrevera até mesmo livros de auto-ajuda, como Perdas e Ganhos, há tempos freqüentando a lista dos mais vendidos. (O livro em questão é de Lya Luft e não é de auto-ajuda). Hilda Hilst escrevendo livros de auto-ajuda! Esta foi para o Febeapá de Stanislaw Ponte Preta, edição póstuma, revista pelo espírito do autor, psicografado pelo comentarista em seu notável escorregão. Por se tratar de programa de rádio, a correção poderia ter sido feita instantaneamente, mas não o foi e a confusão teve ter feito escola, pois repetir é recurso ordinário na terra dos papagaios.

Angústias de Hilda

Carlos Heitor Cony, entretanto, no mesmo programa de rádio, destacando a importância dos livros de Hilda Hilst, a audácia dos temas e até o vezo pornográfico que imprimiu a alguns poemas, lembrou que, não apenas a obra, mas também a escritora era muito irreverente e propusera à amiga Lygia Fagundes Telles a fundação de um bordel geriátrico.

Hilda Hilst estreou como escritora no esplendor dos vinte anos, com Presságio. A nuvem de melancolia que pairava sobre sua obra foi o Brasil quem estendeu. E foi fruto de uma desgraça nacional: mais de meio século depois de sua estréia, o país ainda não foi alfabetizado e a riqueza dos livros continua concentrada como todas as outras, com a exceção natural do talento, que viceja misteriosamente em indivíduos aleatoriamente escolhidos pelo que chamamos também Destino. E este era o caso de Hilda Hilst.

Mas esses indivíduos não estão imunes ao meio social. Este problema foi magistralmente abordado por Thomas Mann em Os Buddenbrook:

‘Haverá sempre homens que têm direito àquele interesse pelo próprio eu e a essa observação minuciosa dos seus sentimentos: poetas que sabem dar forma segura e bela a sua privilegiada vida interior, enriquecendo assim o mundo sentimental de outras pessoas. Mas nós nada mais somos do que simples comerciantes, querida, as nossas auto-observações são desesperadamente insignificantes’.

Tarso Genro, o novo ministro da Educação, gosta muito da obra de Thomas Mann, autor que citou em diversos ensaios. Agora à frente do MEC pode deflagrar políticas educacionais que resolvam ou minorem problemas que impedem os brasileiros de lerem autores e livros que espelhem sua identidade e interrompam enfim a falsa imagem que nossa produção literária obtém no exterior, fazendo parecer que os dramas nacionais estão todos representados na obra de seu escritor máximo, Paulo Coelho, hoje consagrado na Academia Brasileira de Letras, ao lado de outros expoentes das letras nacionais como Marco Maciel e Ivo Pitanguy. As angústias de Hilda Hilst tinham grandes causas e não eram decorrentes de nenhuma depressão ocasional.

Profusão e diversidade

Outra mancada consistiu em mudar o local de nascimento da escritora, de Jaú para Campinas. Mas foi compensada largamente pela qualidade do que disseram as personalidades escolhidas para repercutir o desaparecimento da escritora.

‘Hilda é um caso raro na literatura brasileira’, disse Marçal Aquino, explicitando que ela tinha legiões de fãs, apesar do trabalho solitário e pouco reconhecido. O poeta Álvaro Alves de Faria, que a visitara havia pouco tempo, lembrou que ela estava preocupada com o que fariam depois de sua morte com os seus 70 cães.

Tomara que não façam o que a escritora revelou num artigo que publicou no jornal Correio Popular, de Campinas (1/3/93):

‘E um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também gostava de poesia… Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas… Perguntei: ‘E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?’ Resposta: ‘Tive de matá-los’. ‘Mas por quê?!’ Resposta: ‘Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou minha casa não queria os gatos’. ‘Você não podia soltá-los em algum lugar, tentar dar alguns?’ Olhou-me aparvalhado: ‘Mas onde? Pra quem?’ ‘E como você os matou?’ ‘A pauladas’, respondeu tranqüilo, como se tivesse dado uma morte feliz a todos eles. E por aí a gente pode ir, ao infinito. Aqueles alemães não ouviam Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin (?????) à noite, e de dia não trabalhavam em Auschwitz? A gente nunca sabe nada sobre o outro. E aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e juntá-las?’

O Estadão destacou-se pela profusão e pela diversidade das repercussões, postas ao lado da relação completa de suas obras.

Tarefa urgente

Houve diversas tentativas de assassinato por esquecimento premeditado. A todas Hilda Hilst resistiu com talento, pertinácia e irreverência – suas grandes armas para enfrentar o descaso de um país inteiro diante do que de melhor seus filhos já produziram, como ocorreram a tantos outros escritores.

E a escritora morreu certa de que, se não teve em vida os leitores que desejava, teve o reconhecimento que nunca procurou, que sua obra granjeou naturalmente entre aqueles que por ela se interessaram.

Na década de 1970 ocorreu processo semelhante com Clarice Lispector, de quem foi requerido, como de hábito, o atestado de óbito para o reconhecimento.

Hilda Hilst inspirou grandes poetas brasileiros em atividade, como é o caso de Neide Archanjo, que acaba de lançar livro novo em Paris e vai ter toda a sua obra publicada pela editora A Girafa.

Como o escritor é a lenha de sua própria fogueira, que a morte de Hilda Hilst nos leve à formulação de novas estratégias para o livro, que evite tanto descaso. Ainda não é tarde, pois nunca é tarde para recomeçar. E a tarefa é urgente.

E por fim, fechando esta homenagem à escritora, a ‘Poesia XXII’ extraída de Odes Mínimas (São Paulo, Nakin Editorial, outra pequena editora que se interessou por Hilda Hilst):

Não me procures ali

Onde os vivos visitam

Os chamados mortos.

Procura-me

Dentro das grandes águas

Nas praças

Num fogo coração

Entre cavalos, cães,

Nos arrozais, no arroio

Ou junto aos pássaros

Ou espelhada

Num outro alguém,

Subindo um duro caminho

Pedra, semente, sal

Passos da vida. Procura-me ali.

Viva.’

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