Sexta-feira, 24 de Março de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº937

MEMóRIA > PAULO FRANCIS (1930-1997)

O legado de um jornalista incômodo

Por Lúcio Flávio Pinto em 06/03/2007 na edição 423

O que permanece vivo do legado de Paulo Francis, 10 anos depois da sua morte? Antes de tudo, sua presença quase diária. Sua força estava exatamente no que escrevia de um fôlego num dia para ser publicado no outro dia. Isso o diferenciava e distinguia: poucos jornalistas estavam tão bem armados como ele para elevar o cotidiano a alguma coisa parecida com o caminho intelectual da humanidade.

Francis recolhia no dia a dia os elementos dispersos da história, pepitas diminutas – mas preciosas – que não são visíveis a olho nu. As lentes da percepção, quem as fornece é a cultura, o saber, consolidados através da leitura de livros.

Essa posição continua vaga na imprensa brasileira. Mas para recolher as pérolas produzida por Paulo Francis é preciso ir às coleções dos jornais nos quais ele escreveu ou às coleções de recortes, se as fizemos. O Diário da Corte de Paulo Francis, organizado em 1996 por Daniel Piza, um dos frustrados pretendentes a sucessor, é apenas aperitivo – e mal escolhido. Aguça a fome sem saciá-la. Dos livros que Francis escreveu, o que sobreviverá, ao meu ver, é O afeto que se encerra e, talvez, Cabeça de papel. Os demais, sobretudo os de ficção, são efêmeros: o vento da história os varrerá das prateleiras.

Característica incomum

No fevereiro de muitas comemorações e lembranças – merecidas – sobre o crítico da cultura, a melhor face de Francis, ficou um tanto de lado a sua maior contribuição ao jornalismo: a de editor. Francis esteve à frente de alguns dos melhores empreendimentos da imprensa brasileira no século passado. Primeiro, cronologicamente falando, mas também pelo critério de qualidade, a revista Senhor. Quem tem o privilégio de possuir os cinco anos da publicação pode bem avaliar sua importância. Até hoje, é a mais vanguardista das criações do nosso jornalismo. Piauí está aí mesmo para não me deixar exagerar.

Depois, foram o segundo e quarto cadernos do Correio da Manhã. Jornalisticamente falando, o ‘Caderno B’ do Jornal do Brasil superou o ‘Caderno 2’ do Correio: mas como conteúdo, não. Já o ‘Quarto Caderno’ mostra sua força quando confrontado com as capas de caderno de O Estado de S.Paulo, durante vários anos uma fonte de conhecimento fabulosa para quem pagava pouco por um jornal diário.

Mas o ‘Quarto Caderno’ tinha mais força, era mais atual. Não podendo esperar por ele no domingo, já o lia quando saía da oficina, no sábado, durante o período em que trabalhei no Correio da Manhã. À noite, quando ia ao cinema (especialmente o Paissandu) já o devorara.

Finalmente, a revista Diner’s, sobre a qual Ruy Castro deu um excelente depoimento. Graças a um amigo, pude voltar a folhear duas de suas edições, um tempo atrás. Continuam vivas, de impressionar. Qual seu segredo? O homem que a editou sabia do que estava falando e o que estava fazendo. Não é uma característica comum no jornalismo.

Que viva Francis, pois.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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