Segunda-feira, 17 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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O instinto dizia-lhe onde esperar uma boa imagem

21/04/2009 na edição 534

Durante sua longa vida, muita gente procurava conversar com Helen Levitt sobre suas fotografias. Ela sempre se recusava, pelo menos em termos de declarações públicas. ‘Não sei articular-me’, dizia. ‘Eu me expresso pelas imagens.’ Ou, então: ‘Se eu soubesse responder, não teria que tirar fotografias.’

A conseqüência disso era a de que poucas pessoas a conheciam, com exceção de fotógrafos profissionais e seus parceiros de pôquer. E ela gostava disso. Vivia completamente sozinha, apenas com Binky, seu gatinho. A única fotografia divulgada após sua morte mostra um rosto agradável, cabelo curto e muito batom, franzindo a testa. Tinha, na época, por volta de 50 anos e parecia indignada com a câmera.

Repórteres mais decididos seguiam-na até o quarto andar do prédio marrom, na Rua 13 Leste, onde ela viveu a maior parte de sua vida. As escadas não a intimidavam, apesar da ciática e de um eterno mal-estar no ouvido que a fazia cambalear o tempo todo. Mas na última década, ela achou que sua velha Leica ficara muito pesada para transportar e mudou para uma Contax automática. Foi um momento doloroso. Ela fora inspirada a usar uma Leica de 35 mm por ninguém menos que Henri Cartier-Bresson, em 1935, quando o acompanhava enquanto ele fotografava os ancoradouros de Brooklyn. Ela admirava muito seu trabalho, mas ela achava que qualquer comparação com ele era ridícula.

Abandono da escola

A maioria de suas fotografias era do Spanish Harlem e do litoral Leste de Nova York. Nas décadas de 1930 e 40, ela fotografava em preto e branco, com impressão a gelatina de prata, e nas décadas de 1960 e 70, a cores e com impressão em transparências. Nessa época, ela fez cinema por algum tempo. O tema era o mesmo: as ruas de Nova York. Com exceção de uma viagem que fez à Cidade do México em 1941, nunca encontrou um tema melhor em sua vida.

Os lugares sem asfalto eram sua grande alegria. Seu mundo consistia de ruas em mau estado, construções em terrenos plenos de entulho, armazéns e degraus de entrada dos prédios cheios de lixo. Isso era fotografia urbana e com uma vingança: pequenos pedaços de céu e nenhuma árvore. Quando ela namorou Walker Evans, em 1938, pedia emprestada sua câmera, assim como (‘naturalmente’) dormia com ele, e ele ficava com medo de acompanhá-la até onde ela ia, na cidade alta. Alguns dos jovens que ela fotografava – bamboleando-se com suas jaquetas de ombros largos e calças que se afinavam em baixo, além de chapéus de ‘diplomata’ – tinham um inegável olhar ameaçador. Mas a maioria de suas imagens era de mulheres fofocando e – suas preferidas – crianças fazendo bagunça. Um tipo de visor angular permitia-lhe tirar a fotografia sem que fosse percebido, mesmo – como Evans lhe explicou – quando a pessoa se encontrava a seu lado, no metrô.

Ela nasceu no Brooklyn, onde seu pai vendia roupas de malha por atacado. Ela tinha desejos de fazer algo mais artístico, mas não sabia desenhar. Durante algum tempo, fez balé, o que a ensinou a apreciar a musculatura dos corpos em movimento e a graça espontânea de seus motivos infantis. Abandonou a escola de segundo grau e foi trabalhar na câmara escura do laboratório de fotografia comercial de Florian Mitchell por 6 dólares por semana. Foi ali que foi fisgada.

Desenhos de giz nas calçadas

Uma imagem boa, pensava ela, era questão de sorte. Mas seu instinto de nova-iorquina parecia dizer-lhe exatamente onde esperar por uma. Um carro quebrado logo atrairia pessoas a se deitarem em baixo dele, espiar debaixo do capô ou tentar empurrá-lo; uma cadeira de balanço na calçada traria um senhor idoso com um charuto e um jornal, ou uma jovem gordinha com uma jaqueta e exausta devido ao calor; com alguma sorte, também apareceriam cachorros, vira-latas peludos ou poodles com casaquinhos recém-lavados; aberta, a porta traseira de um caminhão revelaria trabalhadores de entregas reclamando em cima de montes de sacos, ou cochilando entre fardos rosas e azuis de tecidos. Qualquer coisa abandonada – uma caixa de chá, um caixilho de um espelho, os pilares de entrada de um prédio vazio – logo atrairia bandos de crianças precipitando-se, trepando, brigando e contorcendo-se de todas as maneiras possíveis.

Suas fotos não tinham nome. ‘Nova York’ e o ano era o rótulo da maioria delas. Não precisavam ser explicadas, eram ‘apenas o que você vê’. Muitas tinham como pano de fundo pôsteres, grafitti ou quadros de avisos que, de certa forma, serviam como comentário. ‘Espaguete especial, 25 cêntimos’; ‘Não entregue contas’; ‘Nozes assadas todo dia’; ‘Botões e idéias no andar acima’; A mãe de Bill Jones é uma puta’. Seu primeiro projeto, com uma câmera de segunda mão, era fotografar desenhos em giz, feitos por crianças nas calçadas. Nunca tentou interpretá-los; o que importava era o padrão que criavam.

‘Aqui e ali’

Na década de 1960, quando ganhou duas bolsas da Fundação Guggenheim, começou a fotografar as ruas em cores. O difícil processo de revelação acabou frustrando-a, e as ruas também haviam mudado. As crianças ficavam mais em casa, vendo televisão. Mas naquilo que ela encontrara graça e textura em preto e branco, a cor produzia beleza em correspondências. As bolinhas multicolores das máquinas de chiclete podiam ser encontradas num vestido de uma menina, ou a cor vermelha de um salto de sapato fininho podia ser combinado com a moldura da janela de uma loja. Seus carros quebrados eram agora pálidos animais contra o reboco das paredes. E das cacas esverdeadas de suas portas podiam surgir mulheres com casacos de peles, ou cabelos encaracolados pintados de rosa, ou meias com listas cor-de-laranja.

Ela não valorizava muito seu trabalho. Embora, às vezes, suas impressões originais fossem vendidas por dezenas de milhares de dólares, ela as deixava empilhadas em seu apartamento, em caixas com rótulos como ‘Nada de bom’ ou ‘Aqui e ali’. Quando começou, sua esperança era de que contribuísse com uma espécie de depoimento socialista, mas abandonou a idéia a conselho de Cartier-Bresson. Uma ‘boa foto’, como ela reconhecia, com relutância, que algumas dela eram, era uma obra de arte que tinha valor em si própria, assim como uma celebração da obra de arte imprevisível e fértil que é a cidade de Nova York.

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