Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

MEMóRIA > GORE VIDAL (1925-2012)

Produtivo, elegante e amargo

Por lgarcia em 01/08/2012 na edição 705

 

Tradução e edição: Leticia Nunes

Morreu na terça-feira [31/7], aos 86 anos, o escritor americano Gore Vidal – de complicações de uma pneumonia. Da geração de Truman Capote e Norman Mailer, é considerado um dos maiores autores dos EUA.

Vidal teve uma longa carreira – com dezenas de romances, ensaios, peças e roteiros – marcada por momentos polêmicos. Logo em seu terceiro romance, ele escandalizou a crítica literária americana ao se tornar um dos primeiros grandes escritores do país a abordar a homossexualidade de forma clara e direta.

Ainda que tivesse jurado que nunca escreveria sobre si próprio, lançou um primeiro livro de memórias, Palimpsesto, em 1995. Nele, contava das vezes em que disputou cargos públicos e de seus trabalhos como roteirista e dramaturgo. Em um segundo livro de memórias, Navegação Ponto por Ponto, de 2006, falou sobre suas amizades com celebridades como Jacqueline Kennedy, Tennessee Williams e Federico Fellini, e escreveu sobre a doença e morte, três anos antes, de Howard Austen, seu parceiro por mais de cinco décadas. Os dois viveram mais de 30 anos em um auto-exílio na Itália.

Vida agitada

Aos 17 anos, durante a Segunda Guerra Mundial, Vidal entrou para o Exército, e seu primeiro romance, Williwaw (1946), foi baseado nas experiências em um navio militar. A fama, no entanto, veio apenas no terceiro livro, A Cidade e o Pilar (1948), o primeiro romance americano a lidar de maneira franca e positiva com o tema do amor homossexual. O escritor foi brutalmente criticado pela obra, mas através dela ocupou lugar de destaque no cenário literário. Vidal, no entanto, resistia em ser rotulado de gay, pois dizia que não há algo como uma “pessoa homossexual”, e sim “atos homossexuais”.

Eugene Luther Gore Vidal nasceu em West Point, Nova York, em outubro de 1925, filho de um piloto da aeronáutica e ex-jogador de futebol americano e de uma atriz e socialite. Seu pai foi um dos fundadores da companhia aérea TWA e, segundo conta-se, foi o grande amor da vida da pioneira da aviação Amelia Earhart. Sua mãe, como o próprio Vidal afirmava, era amante do ator Clark Gable. Na infância, ele viveu com o avô materno, o senador Thomas Gore, em Washington. O escritor era primo distante do ex-vice-presidente democrata Al Gore.

Política, História e muita opinião

Alguns de seus livros mais conhecidos foram escritos por conta de seu fascínio pela política e pela História. Entre eles estão Washington, D.C. (1967), Lincoln (1973) e Burr (1984), este último sobre o vice-presidente Aaron Burr, que matou Alexander Hamilton, primeiro secretário do Tesouro dos EUA, em um duelo em 1804. Entre suas peças políticas estão The Best Man e An Evening with Richard Nixon. Vidal também adorava o cinema, e contribuiu em roteiros de filmes como Ben-Hur, De repente, no último verão e A festa de casamento. Um de seus romances mais famosos, Myra Breckinridge, que satirizava a transexualidade e a pornografia, foi considerado escandaloso em seu lançamento, em 1970, mas acabou transformado em um longa estrelado pela atriz Raquel Welch – diz-se que Vidal teria odiado o filme.

Muita da atenção que o escritor recebia, no entanto, não tinha relação com suas obras, e sim com suas opiniões. Em 1998, ele escreveu um ensaio na Vanity Fair que criticava a guerra contra as drogas, o sistema de saúde americano e o monitoramento do governo sobre ligações telefônicas. O artigo foi lido pelo ex-soldado Timothy McVeigh, condenado pelo atentado a bomba em Oklahoma em 1995. McVeigh entrou em contato com Vidal, e os dois se corresponderam por dois anos. O escritor chegou a dizer que, em sua opinião, McVeigh havia sido processado erroneamente como principal suspeito no ataque que deixou 168 mortos. Vidal foi uma das cinco pessoas convidadas por McVeigh para assistir à sua execução. Ele planejava escrever sobre o evento para a Vanity Fair, mas acabou não comparecendo.

Durante o escândalo envolvendo o presidente Bill Clinton e a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky, Vidal sugeriu que o promotor Kenneth Starr fosse julgado por traição por tentar anular o resultado de duas eleições presidenciais.

Ele dizia ainda que os americanos que morreram nos atentados de 11/9 não eram apenas vítimas do terrorismo, mas também da política externa dos EUA. “Fiquei sabendo que a equipe de Cheney-Bush não gosta que sua junta seja comparada aos nazistas. Se eles parassem de se comportar como nazistas, não haveria comparação”, chegou a afirmar. Vidal criticava Bush pela guerra do Iraque e Barack Obama por dar continuidade à guerra no Afeganistão. Em 2008, afirmou que os EUA estavam apodrecendo, e que não se podia esperar que Obama salvasse o país.

Vidal morreu em casa, em Los Angeles, nos EUA. Ele vivia sozinho e já estava doente há algum tempo, informou seu sobrinho, o ator e diretor de cinema Burr Steers. Com informações de Carol Memmott e Bob Minzesheimer [USA Today, 1/8/12].

***

Leia também outros artigos sobre a morte de Gore Vidal:

Prolific, Elegant, Acerbic WriterThe New York Times

He Did It His Way (And Loved Every Minute) – Huffington Post

Gore Vidal's Forgotten Moral CoreThe Atlantic

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem