Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DO LEITOR > JOSÉ DIAS HERRERA (1920-2010)

Um caso de amor com o fotojornalismo

Por Rafael Motta em 26/01/2010 na edição 574

‘Saudades, só do bonde 17. De Santos, gosto de tudo, de praia a favela’ (José Dias Herrera, fotógrafo profissional)

O mais antigo repórter-fotográfico de que se tinha notícia no Brasil não vai mais impressionar gerações de profissionais de comunicação com sua vitalidade: José Dias Herrera, que morreu no domingo (17/1), em Campinas (SP), aos 89 anos, em decorrência de complicações causadas por um câncer no estômago.

Zezinho – ou seu Zezinho, para os mais novos ou não tão velhos – era fotógrafo profissional desde 1937. Foram 72 anos de atividade ininterrupta. Trabalhou com todas as tecnologias do registro fotográfico de imagens, do flash com pólvora aos equipamentos digitais de hoje.

A modernidade fustigava Zezinho. Não por dificuldades de adaptação, mas porque julgava que, assim, qualquer um poderia fotografar. Sabia que disparar a máquina, simplesmente, é diferente de ser fotógrafo. Mas percebia nisso a desvalorização da atividade profissional. Profissão que defendeu desde os primeiros anos em que esteve em atividade. José Herrera era o último fundador vivo da sede regional de Santos do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, criada em 1942.

Santos, a propósito, foi a cidade para onde a família o trouxe aos 7 anos – nascera no bairro do Brás, em São Paulo. Santos que ele amava. Onde se tornou o primeiro fotógrafo a registrar, pela imprensa, imagens de Pelé com a camisa do Santos Futebol Clube, na década de 1950. Onde fotografou governadores e presidentes da República em suas passagens por jornais santistas, como O Diário (extinto) e A Tribuna.

Um acervo de 19 mil negativos

José Dias Herrera era um profissional tão dedicado ao trabalho que foi uma das poucas pessoas que vi serem constantemente homenageadas em vida. Mereceu, sem dúvida: eu mesmo já o vi, do alto de seus mais de 80 anos de idade, descer correndo as escadarias da Prefeitura de Santos com a máquina a tiracolo. Foi na administração local seu último emprego, desde 1987. Zezinho deixou a Prefeitura há cerca de meio ano, por insistência das filhas, que moravam em Campinas e queriam cuidar dele e de sua esposa, também idosa. Mal se mudou, teve diagnosticada a doença.

‘Ele tinha um caso de amor com essa cidade. Vivia dizendo que queria andar pela Avenida Ana Costa (uma das principais vias de Santos). Pedia que lhe dessem a máquina, para ir fotografar. Falou até o fim como se ainda estivesse na ativa’, me disse Ilka, uma das filhas de Zezinho, no dia em que ele morreu.

José Dias Herrera teve seu corpo sepultado na Memorial Necrópole Ecumênica, no Marapé, em Santos. Seu acervo está sob os cuidados da Fundação Arquivo e Memória de Santos, que comprou dele, em 2003, cerca de 19 mil negativos com imagens da cidade.

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Repórter do jornal A Tribuna, Santos, SP

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