Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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MEMóRIA > LEONEL BRIZOLA (1922-2004)

Um microfone para a história

Por Marcos Marques de Oliveira em 29/06/2004 na edição 283

Leonel Brizola foi um homem de muitas bandeiras. Entre elas estão algumas que poderiam tornar o Brasil uma verdadeira democracia: reforma agrária, educação pública de qualidade para todos e garantia universal dos direitos civis (o que alguns confundiram, de forma oportunista, como leniência com o crime). No entanto, uma das mais importantes foi sua luta pela democratização dos meios de comunicação.

Costumava dizer que bastava um microfone para derrubar seus adversários. Foi assim que envolveu o povo brasileiro na defesa da posse legítima de João Goulart, quando da renúncia de Jânio Quadros em 1961, ainda que tenha tido de engolir o brando golpe do parlamentarismo. Foi assim também que conseguiu, no seu governo no Rio Grande do Sul, apoio popular para ser o primeiro político a iniciar um processo real de reforma agrária, universalizar o ensino fundamental e garantir o direito público sobre o privado ao encampar empresas estrangeiras que em nada contribuíam para o desenvolvimento do país. Foi assim também que garantiu sua vitória para o governo do Estado do Rio de Janeiro, em 1982, ao denunciar o esquema de contagem de votos no caso Proconsult.

Não foi por acaso que seus adversários tiveram o devido cuidado de afastar dele todos os microfones possíveis. Primeiro calaram sua voz com o exílio político. Depois, durante a ‘transição prolongada’ para a democracia, aconteceu com ele algo similar ao que tinha ocorrido com Getúlio Vargas na primeira metade da década de 1950, quando os proprietários dos meios de comunicação lhe canalizaram todo o ódio que a mezzo-burguesia brasileira (aquela que precisa explorar duplamente a classe trabalhadora para garantir mais-valia para si e seus sócios estrangeiros) lhe devotava.

Faltou-lhe espaço para fazer a defesa de sua proposta revolucionária de educação pública, da legitimidade das garantias trabalhistas, da necessidade de um projeto nacional de desenvolvimento, do uso racional e democrático dos aparatos policiais para a garantia dos direitos básicos de todos os cidadãos – e não apenas de uma pequena elite que ainda acha que problemas sociais se resolvem com truculência e armas.

Nem banquetes nem migalhas

Claro que cometeu erros. Muitos, com certeza. No entanto, faltam com a verdade àqueles que acusam de oportunistas suas posições em ‘defesa’ de João Baptista Figueiredo e Fernando Collor de Melo. No primeiro caso, não costumam lembrar que sua idéia era estender o último governo militar por mais um ano para instalar a eleição direta para presidente já em 1986 – antes, portanto, da convocação para o Constituinte. No segundo, não costumam verificar sua hipótese de que a deposição de Collor em nada contribuiria para impedir a perpetuação do processo de privatização do patrimônio público nacional e hegemonização do ideário neoliberal. Os governos de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva comprovam.

Talvez o maior erro do velho caudilho tenha sido perpetuar um tipo de liderança tão carismática que acaba por impedir a sucessão de bons ideais em novas personalidades políticas. Vamos sofrer muito com isso. Mas, talvez este seja um problema maior, fruto da imaturidade de nossa cultura democrática, na qual os políticos e os partidos stricto sensu tenham que se adequar aos ditames e interesses do ‘maior partido político do Brasil’, que é o dos conglomerados da comunicação. Qual dos políticos brasileiros de hoje, a começar pelos do PT, têm a coragem de contestar a concentração dos meios de imprensa em apenas algumas famílias (inclusive de políticos) e/ou corporações empresariais?

Brizola teve, e pagou caro. E continuará a pagar caro a população brasileira, que permanecerá (até quando?) vítima da falta de ‘microfones’ independentes, críticos e alternativos. Não quero dizer com isso que todo o problema do Brasil se resuma a essa questão. Mas duvido muito de que cheguemos longe (num lugar em que não haja ‘nem banquetes, nem migalhas’) senão tratarmos dela.

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Jornalista e cientista político

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