Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

MEMóRIA > Homenagem ao jornalista Artur Almeida

Um post scriptum

Por Paulo Rezende em 01/08/2017 na edição 952

Foto: Reprodução/Globo

Por quê o Artur e não um destes ex-presidentes que andam por aí? É uma pergunta infantil, que a gente vai continuar a fazer até que chegue a vez de alguém perguntar, sobre nós, “por quê Fulano?” e coisa e tal.

Um dia depois da morte, me veio um segundo “por quê?”, mais consistente. Ao ver as homenagens nos telejornais mineiros, nos programas de rede, no encerramento do Jornal Nacional e até no obituário da Folha de S. Paulo (texto ótimo da Carolina Linhares), me perguntei o porquê da morte do Artur ter despertado tanta comoção. Pergunta canalha ao ser feita por um amigo, mas cabida a um profissional. Por quê um noticiarista vira notícia, e notícia que mobiliza milhares de pessoas?

Não há a menor dúvida de que há uma só resposta: porque era o Artur Almeida. Mas quem era o Artur?

Foi parte de alguns “filhos da PUC” que se formaram em Belo Horizonte nos primeiros anos da década de 1980. Para quem tinha fome e garra, uma época mágica: ditadura agonizante, mas ainda dando coices, um anseio nacional por liberdade, de quebra a chegada de uma nova emissora, a Rede Manchete. Boa parte dos “Wolverines” famintos por oportunidades, daquelas turmas pré-1984 da então Católica, foi parar na redação da Manchete. Uma estufa fantástica para focas: além de infraestrutura, equipamentos, salários e uma nova maneira de viver o jornalismo, a Manchete ofereceu uma pós-graduação com os veteranos que os Bloch foram buscar em outras emissoras (Sandra Moreyra, ícone global, foi uma das “professoras” em BH).

A maioria aproveitou a oportunidade, e muito bem. A nova emissora virou um celeiro, abastecendo redações do país todo. E menos de dez anos depois, quando o sonho dos Bloch, começou a ir por água abaixo, a Globo Minas foi buscando, aos poucos, aqueles “filhos da Católica” que, por opção, continuavam em BH. E estes souberam, mais uma vez, agora numa estrutura mais “empresarial”, aproveitar, e bem. Um timaço com produtores, repórteres, editores, chefes de reportagem e de redação capazes de desequilibrar qualquer disputa por pontos no Ibope.

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“Almeidinha, o canalha”

Convivemos uns 14 anos, em duas redações. Quem o via no ar nos últimos anos, com aquela desenvoltura toda, pensava: “esse aí nasceu em frente a uma câmera!” Que nada, aquela desenvoltura toda foi fruto de muita dedicação, de muita disposição, de capacidade de se trabalhar para usar a câmera como um mecanismo de teletransporte que o levava tão íntimo para dentro das milhares de casas. Artur era fruto dele mesmo, e da sua capacidade de pairar acima das diferenças nas redações. Artur trabalhava. Por isso tanto respeito.

Acima de tudo, um ser humano em que tudo parecia no lugar. A começar pelo pai: putz, como eu invejava o cara por ser filho de um jornalista exilado (ainda era ditadura), por ter morado fora, até por ter um pouquinho a mais de dificuldade com o português por conta do espanhol. Artur era gente boa demais. Tanto que criamos e mantivemos viva durante anos uma piada só de nós dois. Eu dizia que ele sabia fingir muito bem, que ninguém conseguia ser gente boa direto, e que pelo menos em algum momento do dia ele se transformava em “Almeidinha, o canalha”. E inventava as maiores atrocidades que ele teria cometido quando dominado por este alter ego. (Ele ria, “Dom Pablo, Dom Pablo!”) Não foram dez nem vinte as vezes em que, ele no estúdio, eu na mesa, soltava pra ele um “canalha!” no fone de ouvido. Aí surgia nele aquele sorriso leve: o cara era bom!

Uma das lembranças que me vieram ao saber da morte dele foi a de um encontro de afiliadas da Globo em Araxá, uns 19 anos atrás. Saímos de BH em uma van extremamente lenta. Deve ter levado umas seis para oito horas. Só suportáveis porque a gente ria o tempo inteiro com as besteiras inventadas. À noite, Grande Hotel cheio, sobrou pra mim dividir o quarto com ele. Na janta, brinquei que eu queria trocar, que não confiava em mim mesmo para dormir perto de um cara sedutor daqueles (cansado de saber que o que seduzia ali era só a bondade mesmo). De manhã, ainda ameacei roubar uma cueca dele e para sortear entre o fã clube feminino (como se ninguém soubesse da Sara, de quem ele parecia não cansar de falar). “Dom Pablo, Dom Pablo”, ria ele.

Saudade grande do Artur, ressentimento imenso do Almeidinha. Que, afinal de contas, parece que existiu mesmo, pelo menos nesta hora: pô, exagerou na maldade, que coisa mais canalha, levar um amigo embora deste jeito!

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Paulo Rezende é jornalista e editor de livros.

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