Quarta-feira, 20 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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Um publisher inteligente e ousado

Por Carlos Eduardo Lins da Silva em 01/05/2007 na edição 431

A morte de Octavio Frias de Oliveira, aos 94 anos, ocorre num momento de transição do jornalismo impresso no Brasil. Os 45 anos em que ele esteve à frente da Folha de S.Paulo representaram uma fase que está provavelmente prestes a se encerrar, coincidentemente quase ao mesmo tempo em que sua vida acaba.

Quando Frias comprou a Folha, um jornal praticamente falido, o Brasil contava com alguns diários lucrativos e influentes. Mas a imprensa brasileira como um todo – inclusive os veículos que aparentemente davam certo – eram primitivos em termos de administração de negócios e muito frágeis no que se refere à qualidade editorial.

Frias alterou todo aquele panorama. Saneou a empresa, investiu em tecnologia, adotou métodos de gerenciamento modernos, buscou eficiência, revolucionou a maneira de fazer o jornal. Os padrões que obteve na Folha – sob todos os pontos de vista – cedo ou tarde acabaram adotados por quase todos os concorrentes.

Injeções de ânimo

A lógica era simples e irrefutável: sem independência econômica, o jornal não consegue independência editorial, que é o seu principal instrumento para aumentar o número de leitores e, em conseqüência, obter mais anúncios e ser lucrativo. Para garantir a independência econômica e editorial era preciso, acima de tudo, coragem, persistência e rigor.

Essas três qualidades sempre sobraram em Octavio Frias de Oliveira. Tratou de utilizá-las e de transmiti-las a seus comandados. A lista de realizações da Folha nestas quatro décadas e meia que se devem ao espírito empreendedor de Frias é enorme: das pesquisas de opinião pública que ele transformou num hábito à ênfase em gráficos e tabelas; das cores a um sistema de distribuição efetivo; dos textos os mais objetivos possíveis à visão sempre crítica das declarações de fontes (principalmente as de governo); do apartidarismo ao ombudsman.

Na década de 80, muitas dessas inovações eram ridicularizadas por jornalistas mais tradicionais. A equipe de Frias às vezes se deixava abalar por esses ataques. Mas ele, porque não se considerava jornalista e porque nunca se deixou abater por críticas quando tinha certeza de que estava certo, fazia pouco delas e incitava ânimo no seu time. A história mostrou quem tinha razão: era ele.

Inteligência prática

Sua morte deve ser particularmente sentida porque a imprensa brasileira precisa agora de um líder renovador e inquebrantável como ele para encontrar soluções para a crise com que se defronta. Os jornais diários – e nem só os brasileiros, diga-se de passagem – não encontraram ainda o rumo para enfrentar com sucesso o novo ambiente do universo da comunicação, que envolve internet, blogs, TV em várias formas e diversos outros elementos novos que parecem ameaçar os jornais de obsolescência ou irrelevância.

Diante desses novos desafios, a inteligência prática e ousada de Frias certamente se colocaria a trabalhar e encontraria saídas, as quais exigiriam muito trabalho, dedicação, teimosia que ele saberia prover para si e para seus aliados. Que o espírito de Octavio Frias de Oliveira ilumine seus sobreviventes no jornalismo brasileiro.

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Jornalista e diretor da Patri Políticas Públicas

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