Terça-feira, 12 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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MEMóRIA > O valor da reportagem

Zé Hamilton Ribeiro: o grau zero da reportagem

Por Pedro Varoni em 04/06/2019 na edição 1040

José Hamilton Ribeiro. (Foto: Divulgação Globo Rural)

Roland Barthes identifica no estilo de Albert Camus em O Estrangeiro o grau zero da escritura, uma economia de maneirismos que torna a linguagem direta. Luiz Tatit utilizou a expressão de Barthes para se referir a João Gilberto, identificando na relação voz e violão do artista baiano a eliminação ou atenuação de todos os recursos desnecessários, resultando numa canção essencial. Sempre que tenho oportunidade de ver alguma reportagem na TV ou de ler algum texto de José Hamilton Ribeiro, penso nessa relação dele com uma espécie de grau zero da reportagem. A busca de uma narrativa despida de adereços, valorizando o centro do que é de fato objeto da reportagem. A máxima do menos é mais que distingue os gênios dos diluidores.

As oportunidades em que pude desfrutar de convivências breves com Zé Hamilton indicavam a relação dessa personalidade com um certo ethos do que Darcy Ribeiro chama de Brasil Caipira. De Zé Hamilton, sabia através de João Garcia Duarte Nogueira, seu primo, nascido na mesma Santa Rosa do Viterbo, no interior paulista. João era meu superior hierárquico quando chefiei a redação da EPTV/Ribeirão, nos primeiros anos do século XXI, e com ele aprendi muito da profissão, ensinamentos quase sempre relacionados a alguma história envolvendo Zé Hamilton. Vez ou outra, o repórter do Globo Rural aparecia na redação, o que era sempre a chance de renovar o aprendizado. Zé Hamilton ouve mais do que fala, pergunta mais do que responde e busca sempre traduzir o complexo em frases simples.

Na edição do caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo no último domingo, 2 de junho, o jornalista assina uma resenha, “Seymour Hersh e a guerra gloriosa do jornalismo contra a mentira”, sobre o lançamento, no Brasil, do livro de memórias de Seymour Hersh, intitulado Repórter (editora Todavia, tradução de Antônio Xerxenesky). Seymour narra a construção da reportagem sobre o combate de My Lai, na guerra do Vietnã, com o assassinato de 109 civis – incluindo velhos, crianças e mulheres – pelo tenente William Calley Jr. Ao falar do colega que, como ele, esteve no front de batalha, José Hamilton continua a nos brindar com ensinamentos certeiros sobre a nobre função da reportagem. Vamos a alguns trechos:

“Sua carreira, de mais de cinquenta anos, é a de um repórter arrasador que se move (ainda está ativo) com um só objetivo: confrontar os poderosos para poder escrever (com a devida documentação) como são falsos e mentirosos. No planeta todos mentem, diz ele, mas quando o ser humano mente para esconder um serviço (público ou não) que devia ter feito e não fez, ou fez criminosamente, tem que ser desmascarado.”

“Em seu livro de memórias, Hersh repete suas reportagens: é preciso, duro, implacável, documentado. Além do talento, sua principal arma – alguém disse – é a energia: leva o serviço a sério e se esforça mais que os outros. Assim, quase sempre chega antes. E quem chega na frente bebe água limpa.”

O diagnóstico de Hersh sobre os tempos atuais confirma, aponta José Hamilton, as relações entre jornalismo e democracia, hoje ameaçadas. “Estamos saturados de notícias falsas, informações exageradas e incompletas (…). Os jornais, as revistas e as redes de TV continuarão demitindo repórteres, reduzindo a equipe e encolhendo o orçamento disponível para uma boa reportagem, especialmente para reportagens investigativas, cujo custo é elevado, o resultado é imprevisível e ainda têm grande capacidade de irritar leitores e atrair processos caros (…). Por falta de dinheiro, tempo ou equipe habilidosa (e bem paga), estamos cercados por reportagens com ‘ele disse, ela disse’ nas quais o repórter não passa de um segurador de microfone.”

O tema de jornalismo e democracia esteve presente também no meu último encontro com José Hamilton Ribeiro, durante a gravação, no ano passado, de um dos episódios da websérie “Cartas da Mesa”, parceria entre o Observatório da Imprensa e o curso de jornalismo da ESPM. O episódio é também uma das chances de ter contato com a generosidade de quem compartilha o conhecimento adquirido em décadas de atividade.

No artigo da Folha, José Hamilton conclui que jornalismo investigativo é uma arma da sociedade para desmascarar os opressores, apontar erros e mentiras. “O que está em jogo não é só a sobrevivência do bom jornalismo, mas também a de um pilar da democracia, parte dos sistemas de pesos e medidas.” O livro de Seymour Hersh é uma aula de jornalismo – assim como a interpretação feita por ele de um dos nossos maiores repórteres. Evoé, José Hamilton Ribeiro.

***

Pedro Varoni é jornalista.

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