Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MONITOR DA IMPRENSA > INSTAGRAM NO FACEBOOK

Bolha ou tendência?

17/04/2012 na edição 690
Tradução e edição: Leticia Nunes

Os tempos mudaram. “Antigamente”, as chamadas start-ups, ou empresas iniciantes, de tecnologia, costumavam seguir o mesmo caminho: primeiro, chegavam na internet e estabeleciam seu espaço, para depois criarem uma versão de seu serviço para aparelhos móveis.

A compra do Instagram pelo Facebook por 1 bilhão de dólares bagunçou este caminho. Agora, as start-ups começarão a se perguntar se precisam segui-lo. Quem precisa passar pela internet se é possível começar direto como aplicativo de aparelhos móveis, fazer tanto sucesso e ser comprado pela mais popular rede social do mundo?

O Instagram, fundado em 2010 pelo americano Kevin Systrom e pelo brasileiro Mike Krieger, é um serviço de fotografia via celular que permite que os usuários usem filtros nas imagens e compartilhem suas fotos – em uma espécie de combinação de fotolog com rede social. Criado inicialmente para o iPhone, da Apple, recentemente o aplicativo ganhou uma versão para o sistema Android, do Google. Vale dizer que, desde sua criação, ele é imensamente popular.

Novas experiências

“Por décadas, o centro da computação foi o desktop, e os softwares foram moldados após a experiência das máquinas de escrever”, diz Georg Petschnigg, ex-funcionário da Microsoft e um dos criadores do Paper, um novo aplicativo para iPad. “Mas a tecnologia hoje é mais íntima e difundida. Nós a temos conosco o tempo todo, e temos que reimaginar novas e inovadoras interfaces e experiências ao redor dela”.

Diante desta tendência, os investidores estão prontos para apostar na tecnologia para aparelhos móveis. De acordo com um estudo feito pela empresa de pesquisas CB Insights, companhias e aplicativos voltados a plataformas móveis atraíram 10% do total dos investimentos de firmas americanas de capital de risco, que investem em empresas iniciantes,no último trimestre de 2011.

Ben Lerer, da firma de capital de risco Lerer Ventures, diz que prefere apostar em empresas que estão construindo serviços para plataformas móveis em primeiro lugar e para a web em segundo porque “negócios que estão pensando desta maneira estão planejando para o futuro”. Lerer foi um dos primeiros investidores da OMGPop, companhia de Nova York que estava prestes a falir até criar o aplicativo de desenho para iPhone Draw Something – que se tornou sucesso instântaneo e em dois meses já tinha sido baixado 50 milhões de vezes. Em março, a OMGPop foi comprada por 200 milhões de dólares pela empresa de jogos Zynga. Outro aplicativo de sucesso, o jogo Angry Birds, da empresa finlandesa Rovio, começou no iPhone antes de migrar para os computadores e vídeo games.

O Instagram tem um site, mas que funciona basicamente para estimular as pessoas a fazer o download de seus aplicativos. Assim, faz parte do grupo de empresas que conseguiram crescer inteiramente nas plataformas móveis. Outro exemplo é o Foursquare, serviço que permite que usuários compartilhem com seus amigos sua localização a cada momento do dia. “As pessoas estão vivendo o momento, e querem compartilhar naquele momento”, resume o professor S. Shyam Sundar, diretor do Laboratório de Pesquisa em Efeitos de Mídia na Pennsylvania State University. “O aparelho móvel te dá este senso de proximidade e conveniência”.

Exemplos de sucesso

Mas seria a compra do Instagram, uma empresa jovem que ainda nem chegou a dar lucro, pelo Facebook, outra empresa jovem que ainda nem finalizou o processo de abertura de capital, uma loucura? Para alguns analistas, o negócio é uma clara evidência de uma bolha na indústria de tecnologia.

Mas o histórico do Vale do Silício sugere que compras grandiosas como esta nem sempre são um ato de loucura. Em 2002, por exemplo, a start-up do momento era o eBay, um serviço de leilão online. O eBay comprou o PayPal, uma pequena empresa de pagamento online, por 1,5 bilhão de dólares. Hoje, a receita da unidade liderada pelo PayPal é equivalente ao que o eBay recebe com a venda dos produtos anunciados no site. Em 2006, um ano depois de abrir capital, o Google pagou 1,65 bilhão de dólares pelo site de compartilhamento de vídeos YouTube, que tinha pouca possibilidade de gerar lucro. O YouTube acabou se tornando uma importante plataforma de publicidade para o Google.

Engula os menores

Jovens empresas de tecnologia têm consciência da sua mortalidade. Justamente por começarem a fazer sucesso incomodando empresas maiores e mais antigas, elas sabem que podem, do mesmo jeito, ser eliminadas ou ao menos feridas por empresas ainda mais jovens e interessantes.

Em parte, é esta ansiedade que alimenta o processo de compra no Vale do Silício. A ordem parece ser: engula a start-up antes que ela te engula, ou antes que um rival coloque as mãos nela. Para se manter relevante, uma empresa de tecnologia tem ainda que tentar ampliar seu alcance de novos negócios o máximo possível.

Desta forma, a compra do Instagram pode ser vista como um esforço do Facebook para entrar em uma nova área antes que seus rivais o façam. Assim como o PayPal para o eBay e o YouTube para o Google, o Instagram tem algo de que o Facebook precisa desesperadamente: um novo público que use a tecnologia de uma maneira totalmente diferente. Para Mark Zuckerberg, o jovem fundador do Facebook, não importa que o Instagram não seja uma promessa imediata de dinheiro. O que deve ter sido medido é se valia a pena gastar 1 bilhão de dólares para garantir que o Instagram não começasse a roubar usuários do Facebook.

Grande desafio

Mas é claro que, como existem os casos de sucesso, existem também as histórias de fracasso. Nem sempre, no imprevisível mundo do Vale do Silício, a compra de uma nova empresa funciona do jeito esperado. Em 2005, o Yahoo comprou o site de compartilhamento de fotos Flickr. Na ocasião, uma porta-voz do Yahoo descreveu a compra como parte da estratégia “da nova geração de serviços de internet”. A promessa não vingou. O Flickr não conseguiu inovar o suficiente para se manter em dia com as mudanças impostas no novo ambiente das redes sociais e plataformas móveis.

Naquele mesmo ano, a News Corporation, empresa de mídia tradicional do magnata Rupert Murdoch, gastou 580 milhões de dólares na compra do MySpace, então a grande rede social do momento. Mas o MySpace acabou perdendo popularidade e usuários, que migraram para o Facebook. Em junho passado, a rede foi vendida por apenas 35 milhões de dólares.

Assim, um dos desafios do Facebook será manter os usuários do Instagram satisfeitos. Logo depois do anúncio da compra, alguns expressaram temor de que o aplicativo seja “destruído” pelo novo dono. Um usuário chamado “momkm” foi direto ao ponto: “Parabéns pela compra… mas devo dizer, entretanto, que a maioria de nós está no Instagram porque aqui não é o Facebook”.

Ainda assim, muita gente deu as boas vindas a Zuckerberg quando ele postou, logo depois do anúncio da compra, uma foto de seu cachorro, Beast. Foi apenas a quarta foto compartilhada no Instagram pelo fundador do Facebook desde que ele assinou o serviço, em outubro de 2010. E houve quem calculasse: compra de 1 bilhão, com cada foto saindo por 250 milhões de dólares. Com informações de Nick Bilton, Somini Sengupta e Jenna Wortham [The New York Times, 10/4/12].

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