Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MONITOR DA IMPRENSA > PAQUISTÃO

Escândalo mina credibilidade do jornalismo televisivo

19/06/2012 na edição 699
Tradução e edição: Leticia Nunes

Não faz muito tempo, juízes e jornalistas paquistaneses estavam do mesmo lado: tinham a missão de expor os corruptos, fazer os poderosos assumirem suas responsabilidades e remodelar a dinâmica de uma democracia no mínimo frágil. Depois de um recente escândalo, no entanto, a situação mudou. A mídia destacou as acusações de corrupção contra a família do popular presidente da Suprema Corte, Iftikhar Muhammad Chaudhry; por outro lado, um vídeo vazado mostrando um tipo de jornalismo nada ético levou juízes irritados a ameaçar tomar medidas legais contra uma grande emissora de TV.

O caso se concentra no canal de TV Dunya. Na semana passada, a Suprema Corte ordenou um inquérito na emissora depois da exibição de uma entrevista com Malik Riaz Hussain, um incorporador imobiliário que alega ter subornado em 3,7 milhões de dólares o filho do juiz Chaudhry, Arsalan Iftikhar, na tentativa de influenciar ações na justiça.

Além da acusação de corrupção, o que chocou os paquistaneses foram evidências de que a entrevista havia sido armada. Foram vazadas imagens feitas no estúdio logo antes de o programa ir ao ar e durante os comerciais que mostravam os dois apresentadores, Meher Bokhari e Mubashir Luqman, conversando amigavelmente com Hussain, discutindo as perguntas e respostas. Em uma das cenas, Meher Bokhari diz a Hussain que ele deveria começar falando sobre si próprio, de outra forma a informação pareceria plantada. O outro entrevistador atende uma ligação do filho do primeiro-ministro paquistanês – com quem Chaudhry não tem boa relação – e passa o telefone para o entrevistado.

A liberdade e seus dois lados

O caso ainda se desenrola, mas há quem diga que a integridade do juiz já foi prejudicada. Do mesmo modo, a credibilidade da mídia televisiva paquistanesa parece próxima a naufragar. O escândalo é ainda mais grave para o público paquistanês porque a TV do país sofreu uma verdadeira revolução na última década, com a luta pela democracia. As regulações foram afrouxadas e os canais ganharam liberdade sobre o que exibiam. Desde então, a televisão se tornou um importante elemento na política do Paquistão.

Milhares de pessoas assistem diariamente aos programas jornalísticos noturnos, que trazem um misto de notícias quentes e debates acalorados. Os âncoras que lideram este espaço são considerados celebridades e ganham de acordo: os salários chegam a 32 mil dólares por mês em um país onde a renda per capita fica abaixo de 250 dólares.

A cobertura televisiva mais aberta fez com que os políticos passassem a se importar com a opinião pública, abriu novos debates sobre temas que eram considerados tabus e conseguiu estabelecer um novo patamar de responsabilidade entre as autoridades, inclusive as militares.

Por outro lado, a liberdade trouxe excessos. Alguns programas viraram plataformas para líderes extremistas – como Hafiz Muhammad Saeed, fundador do grupo militante Lashkar-e-Taiba, por quem os EUA já ofereceram recompensa de 10 milhões de dólares. Clérigos conservadores vêem na TV um espaço para reforçar ideias preconceituosas e incitar a violência contra minorias. Executivos não tem pudor em usar as estações de que são donos em nome de interesses próprios. Informações de Declan Walsh [The New York Times, 18/6/12].

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