Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

MONITOR DA IMPRENSA > SÍRIA

Jornalista alemão criticado por entrevista com Assad

14/08/2012 na edição 707
Tradução: Larriza Thurler (edição de Leticia Nunes)

Mesmo antes da guerra civil na Síria, o presidente Bashar al-Assad raramente dava entrevistas para emissoras de TV estrangeiras. Sua entrevista com a jornalista americana Barbara Walters, em dezembro, para a rede ABC, foi um verdadeiro desastre de relações públicas – na ocasião, ele negou conhecer grande parte dos crimes pelos quais seu governo é acusado. Depois do episódio, foi uma surpresa quando, há algumas semanas, ele decidiu conceder mais uma entrevista a uma TV ocidental.

Desta vez Assad conversou com o alemão Jürgen Todenhöfer, de 71 anos, escritor, ex-juiz e ex-membro do Parlamento. Todenhöfer é conhecido em seu país por ser um defensor anti-guerra e crítico da política ocidental em relação aos países árabes. Ele também não aprova a cobertura ocidental do conflito sírio, considerando-a injustamente hostil a Assad e exageradamente simpática a seus inimigos. Com este histórico, Todenhöfer foi logo acusado de dar ao líder sírio uma plataforma para propaganda. Ele rebateu os críticos alegando ter sido uma oportunidade para que Assad se explicasse. “Achei importante falar com ele, quer o odiemos ou não”, afirmou.

A entrevista durou 20 minutos e foi exibida no dia 7/7 na ARD, emissora pública alemã. Primeiro, Todenhöfer perguntou a Assad se ele achava que deveria renunciar. “Um presidente não deve correr de desafios”, respondeu o líder sírio, apresentando outro cenário do conflito, como se os inimigos fossem responsáveis pelas atrocidades no país, incluindo repetidos massacres de mulheres e crianças. Assad também rejeitou comparações com ex-líderes fortes do Oriente Médio, como o líbio Muammar Khadafi, morto no ano passado, e o egípcio Hosni Mubarak, que hoje está preso.

Na entrevista, Assad expressou o desejo de falar com seus adversários, caso eles tenham interesse, e admitiu que seu Exército poderia ter lidado com as fases iniciais do conflito, em março de 2011, de maneira menos rude. Mas, como já havia feito antes, não reconheceu a legitimidade dos que buscaram derrubá-lo. Assad também se referiu a todos os seus oponentes armados como terroristas e acusou outros países árabes e os EUA de abastecê-los com armas e suprimentos.

Menos de duas semanas depois da exibição da entrevista, insurgentes chegaram ao círculo mais próximo de Assad. No bombardeio em Damasco, o ministro da Defesa, general Daud Rajha, foi morto, e o do Interior, Mohammed al-Shaar, ficou ferido. Desde então, diminuíram consideravelmente as aparições de Assad.

Os diversos lados de um fato

Em entrevista ao New York Times, Todenhöfer disse que o conflito sírio foi distorcido por meias verdades e ficções – muitas delas, em sua opinião, por opositores que querem que o mundo veja Assad como um carniceiro. “Mentir é a arma mais efetiva em guerras”, afirmou. Não foi a primeira vez que ele entrevistou Assad. Em 2011, quando foi à Síria, escreveu no jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung que acreditava que o líder poderia atingir uma transição pacífica para a democracia porque ainda “tinha autoridade entre a maioria da população”. Agora, ele acha que este cenário não é mais possível. “Há algo mudando na Síria; para mim, é uma terrível tragédia, uma clássica tragédia sem uma solução clara”.

Muitos discordam. Em um debate organizado pelo semanário alemão Der Spiegel, em julho, depois que a entrevista com Assad foi exibida, Christoph Reuter, correspondente veterano da Síria para a revista, classificou as conclusões de Todenhöfer como absurdas e rejeitou a afirmação de que Assad estaria interessado em um acordo. “Negociações reais resultariam em uma queda do seu regime e ele sabe disso”, argumentou.

Todenhöfer rebateu Reuter e outros jornalistas ocidentais pelo que chamou de “desejo de aceitar a narrativa rebelde”, com contagem de vítimas não confirmada, vídeos não verificados de destruição e testemunhos anônimos de atrocidades cometidas por militares. “Critico a campanha de desinformações e o ‘marketing de massacre’”, disparou.

Alguns críticos de Todenhöfer consideraram a entrevista um exercício auto-indolente que permitiu ao presidente sírio transmitir falsa humanidade. Outros, entretanto, acharam que a entrevista revelou muitas fraquezas de Assad. “Todenhöfer pressionou em algumas questões, mas Assad esquivou-se delas continuamente. Na verdade, ter Assad repetindo a total negação da existência de qualquer oposição política legítima causa muitos danos a ele”, avaliou Nadim Shehadi, especialista em Oriente Médio do grupo de pesquisa londrino Chatham House.

Interesse de longa data

A preocupação de Todenhöfer com a Síria reflete o que ele chamou de aversão à guerra e longo fascínio pelo Oriente Médio e culturas islâmicas, que começou quando viajou para a Argélia aos 18 anos. Durante a invasão russa do Afeganistão, ele visitou o país três vezes, entrando a pé por meio do Paquistão. Ele testemunhou a queda de Mubarak em fevereiro de 2011 e por pouco não ficou ferido em um bombardeio na Líbia, durante os protestos contra Kadhafi. Todenhöfer foi detido duas vezes quando trabalhava na Síria apenas com um visto de turista. Ele escreveu um livro sobre o conflito no Iraque, que se tornou best seller na Alemanha. Informações de Rick Gladstone [The New York Times, 5/9/12].

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