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Domingo, 19 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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MONITOR DA IMPRENSA > CNN

Emissora é criticada por divulgar diário de embaixador morto

02/10/2012 na edição 714
Tradução e edição: Larriza Thurler

Três dias depois que o embaixador americano na Líbia Chris Stevens foi morto em Benghazi, a CNN encontrou um diário manuscrito de sete páginas. O documento foi achado, segundo a emissora, no chão do “consulado menos seguro no qual ele foi fatalmente ferido”, e continha informações de valor jornalístico. Nele, Stevens escreveu que, nos meses anteriores à sua morte, estava preocupado sobre o que chamou de ameaças de segurança em Benghazi e um aumento no extremismo islâmico. A CNN também divulgou que Stevens havia mencionado que seu nome estava em uma lista e alvos da al-Qaeda.

Depois de encontrar o material, a equipe da CNN fez o que qualquer jornalista competente faria: ler, identificar as partes de interesse público, confirmar sua autenticidade com fontes independentes e reportar os fatos ao mundo. Os jornalistas também notificaram a família do embaixador. A divulgação do diário foi defendida pelo âncora da CNN, Anderson Cooper, em seu programa. “Não foi divulgação de fofoca das páginas do diário. Não foram detalhes da vida particular. Foram informações que poderiam impactar a segurança dos EUA e das instalações americanas em outros países”, observou.

Em resposta à divulgação, o porta-voz do Departamento do Estado americano, Philippe Reines, emitiu um ataque atipicamente virulento e agressivo à rede. Classificando a conduta da CNN como “repulsiva”, Reines pediu à família de Stevens para insistir que a emissora havia feito algo inescrupuloso. “O que eles não estão admitindo é terem lido e transcrito o diário de Chris bem antes de se importar de contar à família ou qualquer um que pegaram o material do lugar do ataque. Ou quando finalmente contaram à família, ignoraram seus desejos e, no final das contas, quebraram a promessa feita a eles apenas horas depois que eles testemunharam o retorno dos restos mortais de Chris aos EUA”, disse o porta-voz. “Quem terá o primeiro instinto de retirar da cena do crime o diário de um homem morto, com três outros americanos servindo o país, ler o material, transcrevê-lo, mandar o conteúdo por email à redação e somente quando a curiosidade estava plenamente satisfeita ligar para a família ou notificar as autoridades?”.

Na opinião de Glenn Greenwald [The Guardian, 24/9/12], qualquer jornalista. A primeira obrigação da CNN é revelar ao público o que é de interesse público, e não ocultar informações. Se não fizessem isso, seria um não cumprimento, sem desculpas, de sua obrigação – então a palavra “repulsiva” seria apropriada. O que eles divulgaram não tem nada a ver com a vida pessoal do embaixador e tudo a ver com o seu papel como oficial do governo; portanto, a “permissão” da família era irrelevante.

“Repulsivo” na realidade é o fato de o Departamento de Estado explorar o luta da família de Stevens em uma tentativa de omitir e tirar a legitimidade de uma reportagem que não é favorável ao governo, à reputação da secretária de Estado Hillary Clinton, ao legado da guerra na Líbia e, possivelmente, às perspectivas políticas de Barack Obama em um ano de eleição. As informações contradizem às do Departamento de Estado e da administração, de que não havia indício de um ataque.

Ameaça em potencial

Na realidade, o embaixador estava alerta de uma ameaça em alto nível contra ele. “Talvez a questão real no caso seja por que o Departamento de Estado está atacando agora o mensageiro”, afirmou a CNN. “Essa é a questão real e as críticas bizarras do Departamento dão dicas para a resposta. O objetivo principal é manter o legado de Hillary Clinton na Líbia – e em Washington – intacto. Certamente as explicações do porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, e da embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, assemelham-se: de que o ataque foi motivado pelo vídeo anti-Islã A Inocência dos Muçulmanos e que havia um protesto do lado de fora do consulado, às 10 da noite. “Essa história inicial foi desmentida. O fiasco parece ser em grande parte relacionado ao Departamento de Estado. Foi o Departamento que falhou em dar ao embaixador segurança adequada; que deixou Benghazi após o ataque, aparentemente falhando em limpar ou deixar a cena do crime segura, deixando para trás o diário; e que assumiu o comando depois da intervenção na Líbia.”

O impacto mais relevante é como isso reflete na guerra na Líbia, que foi celebrada como um grande sucesso por Washington e depois esquecida. O diário de Stevens mostra a extrema instabilidade, violência e falta de leis que tomam conta do país após a intervenção. Com informações de Andrew Beaujon [Poynter, 25/9/12].

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