Sábado, 24 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

MONITOR DA IMPRENSA > JORNALISMO E CIÊNCIA

O que jornais omitem significa tanto quanto o que divulgam

09/10/2012 na edição 715
Tradução e edição: Larriza Thurler

Se todas as matérias nos jornais alegando que a cura para o câncer está prestes a ser descoberta fossem verdade, a temível doença já não existiria mais. Infelizmente, não é o caso. Mas embora algumas publicações tenham a reputação de exagerar, muitas das matérias foram realmente baseadas pelo menos em pesquisas respeitáveis publicadas em periódicos, observa a The Economist [22/9/12].

Essa situação despertou a atenção de François Gonon, da Universidade de Bourdeaux, e seus colegas, que escreveram um artigo sobre o a cobertura jornalística de temas científicos em um paper da Public Library of Science. Gonon é neurobiologista e focou seu trabalho não no câncer, mas em outra doença que recebe muito atenção da mídia, o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) – diagnóstico que está na moda para crianças que têm problemas para prestar atenção na escola.

O grupo de Gonon analisou o PubMed e a Factiva, dois bancos de dados que têm, respectivamente, papers biomédicos e artigos de jornais sobre TDAH. Os pesquisadores avaliaram 47 papers sobre a doença, que foram citados em 347 artigos escritos em jornais em inglês durante os anos 90. Desses, escolheram focar em 10, que receberam mais atenção da mídia.

Primeiro, eles estudaram literatura científica escrita após os artigos, para verificar se realmente aconteceram as alegações divulgadas nos 10 jornais. Desses, sete haviam divulgado pesquisas destinadas a testar hipóteses novas. As conclusões de seis eram completamente refutadas ou substancialmente enfraquecidas pelas investigações de Gonon. O sétimo não foi confirmado nem rejeitado, mas Gonon e seus colegas, citando dois especialistas independentes em TDAH, afirmaram que a hipótese parecia “improvável”. Os outros três papers estavam reforçando hipóteses existentes em vez de apresentar novas ideias; dois deles foram confirmados pelo trabalho subsequente avaliado por Gonon, enquanto um foi enfraquecido.

As conclusões eram esperadas. Pesquisas sobre pesquisas – em especial, as médicas, nas quais as mostras são geralmente pequenas – revelam que muitas conclusões não reforçam o teste anterior. A refutação de hipóteses plausíveis é o modo com que a ciência progride. O problema é que, nesse caminho, o trabalho é divulgado pela imprensa.

Falta de evidências

No total, os 10 papers originais receberam 223 citações na mídia. Mas, depois, os jornais perderam interesse. Gonon e sua equipe descobriram 67 estudos posteriores que examinaram as conclusões dos 10 originais, mas essas investigações subsequentes foram registradas em apenas 57 artigos. Além disso, a maior parte da cobertura concentrou em apenas dois dos 10; os outros oito não receberam quase nenhuma atenção. Para Gonon, “há uma amnésia completa na cobertura do jornal de pesquisas biomédicas”.

Se as hipóteses divulgadas nos estudos originais permanecessem durante o período de teste, a pouca atenção jornalísticas não seria um problema. Mas, como a equipe de Gonon mostrou, 80% dos papers mostraram-se errados ou questionáveis. A não cobertura pode gerar a falsa impressão de não progresso no campo científico.

Seria fácil culpar jornalistas preguiçosos e a tendência natural da imprensa de se interessar mais pelo novo. Mas a ciência deve levar parte da responsabilidade também. Dos 10 artigos, oito foram publicados em veículos respeitados, como New England Journal of Medicine e Lancet. Os outros foram diuvlgados em publicações menos conhecidas. A própria pesquisa de Gonon foi pouco repercutida na mídia.

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