Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

MONITOR DA IMPRENSA > SEM GATEKEEPERS?

Jornalismo e verdade: mais complicado do que nunca

30/10/2012 na edição 718
Tradução: Jô Amado (edição de Larriza Thurler)

No passado, a verdade sobre um evento social ou político era aquela que o jornal ou o noticiário da TV dizia que era. Mas agora, quando qualquer pessoa pode publicar sua opinião, o processo de chegar à verdade é muito mais complicado – e até mais importante. Quando o ex-ombudsman do New York Times, Arthur Brisbane, perguntou tempos atrás se os repórteres do jornal deveriam ser “vigilantes da verdade”, a resposta foi imediata e decisiva: claro que sim, disseram os leitores – não era isso, afinal, o que os jornalistas deveriam fazer antes de qualquer outra coisa?

Entretanto, como destacaram o escritor e professor Clay Shirky e outros participantes de um fórum organizado pelo Instituto Poynterna terça-feira (23/10), esse trabalho de tornou infinitamente mais difícil à medida que aumentou o número de fontes de informação, graças à internet e às mídias sociais. Verificar fatos específicos talvez se tenha tornado mais fácil – agora, que todo mundo pode fazê-lo –, mas seria possível chegar a algum tipo de consenso sobre a “Verdade com 'V' maiúsculo”?

O fórum, intitulado “Ética Jornalística numa Era Digital”, resultou de uma coprodução entre o Instituto Poynter e o CraigConnects – um projeto criado pelo fundador da Craiglist, Craig Newmark, para aumentar a confiabilidade pública e a credibilidadeno jornalismo – e incluiu uma série de painéis, com John Paton, diretor-presidente da Digital First Media e a pesquisadora social Danah Boyd, entre outros, assim como uma audiência composta exclusivamente por convidados, celebridades da indústria de mídia como o escritor Jeff Jarvis e o veterano Dan Gillmore. O evento foi transmitido ao vivo e o Poynter também criou um blog em tempo real da sessão no site Storify.

Restrições econômicas

Num passado não tão distante, disse Shirky, podíamos basear-nos em oráculos da mídia confiáveis, como o ex-âncora de TV Walter Cronkite, para determinar qual era a verdade sobre um evento da mídia qualquer, mas isso só era possível havia poucas fontes de mídia ou de jornalismo naquela época. Essa escassez artificial de informação explodiu com o que o site Om chamou “democratização da distribuição” das mídias sociais e o resultado é que existem, literalmente, milhares de versões diferentes sobre uma matéria qualquer. E, sem gatekeepers, quem determina qual é a correta?

Como Shirky destaca num ensaio que escreveu, o fato de qualquer pessoa poder opinar virtualmente sobre qualquer tema – algo que nunca foi possível antes da chegada da internet e das mídias sociais – torna muito mais complicada a tarefa de chegara qualquer tipo de consenso sobre a verdade. Ele diz o seguinte:

“Eis aqui o que a literatura ‘pós-fato’ faz: a internet permite-nos ver o que as outras pessoas de fato pensam. Isso resultou numa imensa decepção. Quando qualquer pessoa pode dizer qualquer coisa, já nem podemos fingir que concordamos sobre a verdade da maior parte das afirmativas.”

Na realidade, Shirky sugere que a maioria dos discursos políticos e sociais tornou-se – ou está em vias de tornar-se – uma gigantesca sala de bate-papo na qual os debates nunca terminam e qualquer pessoa com um teclado e acesso à internet pode participar. Portanto, como se pode esperar que os jornalistas deduzam algo com sentido de tudo isso? O painel do Instituto Poynter concordou, fundamentalmente, no seguinte: tudo se tornou exponencialmente mais difícil e o jornalismo tradicional talvez não esteja à altura de fazer o trabalho. Como disse Shirky: “As estratégias desenvolvidas no século 20 para relatar a verdade simplesmente não funcionam mais.”

Por um lado, disse Tom Rosentiel, do centro de pesquisas Pew Research Center for the People & the Press, as redações são mais limitadas, em termos de recursos, do que nunca, pois os jornais e outros veículos tentam cortar gastos. Portanto, uma entidade jornalística que em outros tempos poderia fazer várias coisas bem feitas – simples reportagens, reportagens investigativas, verificação aprofundada dos fatos etc. –, hoje em dia tem que optar e voltar seu foco para uma delas. Além disso, as restrições econômicas significam que a maioria dos veículos vai escolher a mais lucrativa, ou a mais atraente para os anunciantes, ou simplesmente a mais rápida.

Abertura maior

E não basta confiar em entidades sem fins lucrativos, como a FactCheck.org, para fazer o trabalho pesado, disse Adam Hochberg, da Faculdade de Jornalismo da Universidade da Carolina do Norte, pela simples razão de que essas organizações também têm dívidas de gratidão a doadores e fundações que proporcionam recursos para o seu trabalho e isso pode ser um fator tão significativo sobre o que (e como) é verificado um fato quanto a relação de qualquer veículo comercial com os anunciantes. Na maioria dos casos, disse Hochberg, os anunciantes que pagavam pelo jornalismo nos suplementos dominicais não se preocupavam com o conteúdo – só queriam uma grande audiência.

Craig Silverman, do blog Regret The Error, destacou que reconhecer os erros e estar aberto a um processo de verificação de fatos, ou dizer a verdade – e a complicada natureza inerente a isso – poderia, na realidade, aumentar a credibilidade na mídia, ao invés de diminui-la. Shirky, no entanto, disse que a noção de “objetividade” foi inventada pela mídia nas décadas de 50 e 60 do século passado para atrair uma audiência maciça (e, portanto, agradar aos anunciantes) e hoje em dia deixou de ter objetivos úteis.

Um dos resultados óbvios dos debates no Instituto Poynter foi o de que a definição da verdade deixou de ser algo a ser feito isoladamente por jornalistas profissionais, e passou a ser algo que emerge ao longo do tempo por meio de um processo que envolve jornalistas e aqueles que Jay Rosen chamou “as pessoas que eram conhecidas como audiência”. É por isso que qualquer tipo de verificação dos fatos – tanto de fatos específicos quanto questões mais abrangentes da verdade – é algo que deve ser feito em público. De certa forma, sempre foi assim, mas agora é mais fácil perceber o que realmente acontece.

Chegar à verdade pode muito mais complicado do que era antigamente porque há participantes em movimento e mais fontes do que nunca, mas no final talvez seja mais próximo do que o que nos forneciam no passado os gatekeepers de nossas mídias tradicionais. Informações de Mathew Ingram [Giga OM, 23/10/12].

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