Quinta-feira, 19 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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O processo da checagem de dados na New Yorker

06/11/2012 na edição 719

No mês passado, aColumbia Journalism Review Books e a editora da Universidade de Columbia lançaram o livro The Art of Making Magazines: On Being an Editor and Other Views from the Industry (A arte de fazer revistas: sobre o papel do editor e outros aspectos da indústria, em tradução livre), uma antologia de percepções e reminiscências de importantes editores de revistas. O livro baseia-se em palestras dadas aos estudantes da faculdade de jornalismo daquela universidade. O texto que se segue é um trecho do capítulo 5 (“Verificação de dados na revista The New Yorker”), pinçado de uma palestra dada por Peter Candy, ex-diretor da New Yorker, em 28 de fevereiro de 2002.

Para começar a checar os dados de um texto de não-ficção, deve-se consultar o autor sobre como o texto foi elaborado, usando as fontes do autor, assim como as da própria revista. Então, fundamentalmente, desconstrói-se o texto e torna-se a construí-lo de novo. Depois, são conferidos os nomes e datas. Caso se pretenda descrever o motivo pelo qual a FDA [Food and Drug Administration, agência reguladora vinculada ao Departamento (equivalente a um ministério) de Saúde dos EUA] aprovou ou desaprovou os exames médicos que o ImClone usou para o anticorpo Erbitux, então é necessário descobrir quais eram as complexidades dessa situação. É claro que esse processo tem consequências, especialmente se for encontrado algo errado.

A revista também trabalha com textos complicados, como os que vem publicando nos últimos meses sobre a equipe ultrassecreta do Pentágono que é treinada para roubar armas nucleares de países belicistas, ou o texto sobre o drone (avião não-pilotado) Predator, que conseguiu um bom ângulo para atirar no mulá Omar mas não disparou o tiro porque os advogados do Centcom [Comando Central das Forças Armadas dos EUA] não tinham certeza sobre a legalidade da operação.

Os Papéis do Pentágono

O que é desagradável é que quando a revista The New Yorker erra em suas afirmações – o que ocorre de tempos a tempos –, a gritaria não é contra o autor ou o editor, mas contra quem verifica os dados. Nesse departamento específico, chama-se a isso a Síndrome do Tiro no Verificador de Dados, que é um dos riscos das atividades do departamento.

Antes do período de Tina Brown, oito pessoas comandaram o departamento de verificação de dados. Especificamente durante a época em que William Shawn era o editor da revista – de 1952 a 1987, quando Canby comandou o departamento –, as matérias progrediam sem problemas até a publicação. Os autores trabalhavam os textos pelo tempo que achassem útil e necessário, o que muitas vezes significava anos. Uma vez aceitos, os textos eram editados, copidescados e submetidos à verificação de dados num período de semanas – e, às vezes, meses.

Esse processo eventualmente produz resultados maravilhosos. O último texto em que Canby trabalhou antes de sair da New Yorker foi uma série de quatro matérias que compuseram o livro A Bright Shining Lie (Uma mentira brilhante, tradução livre), de Neil Sheenan, que não só ganhou o National Book Award, mas também o prêmio Pulitzer. Sheenan foi um dos principais jornalistas que cobriram o Vietnã e a quem o ex-analista militar Daniel Ellsberg deu os “Papéis do Pentágono”, documentos secretos do governo que questionavam a conduta dos líderes americanos na Guerra do Vietnã.

O protagonista de A Bright Shining Lie era um homem chamado John Paul Vann. Sheenan conhecera Vann no início da década de 1960, quando era repórter para a UPI no Vietnã e Vann era uma espécie de oficial do exército dissidente que era muito crítico à forma pela qual o mundo vinha sendo conduzido. Não era apenas um dissidente, mas descontrolado – falava muito à imprensa e muitos dos primeiros jornalistas o tinham como fonte. Mas Vann tornou-se uma voz cada vez mais ruidosa entre os militares, o que não os deixava muito contentes. Acabou saindo do comando do exército e caiu em desgraça. Devido a seu gênio peculiar, voltou ao Vietnã como civil e tornou-se a terceira pessoa mais importante da guerra, apenas abaixo do embaixador e do comandante no comando, algo sem precedentes na história militar americana.

Vann acabou sendo morto. Era típico dele que, mesmo na posição em que estava, se envolvesse numa batalha, da qual teve que fugir de helicóptero. O helicóptero foi abatido e ele morreu. Após sua morte, ele tornou-se uma obsessão para Sheenan, que trabalhara no livro sobre ele, A Bright Shining Lie, por 16 anos.

Candy e um colega passaram dois meses trabalhando nos trechos de A Bright Shining Lie para a New Yorker. Foi particularmente difícil porque Sheenan morava perto de Washington e suas fontes estavam guardadas em 25 caixas de arquivo em sua casa. Não eram simples caixas de arquivo, mas do tipo industrial, com mais de um metro de comprimento até a parede. E não estavam cheias de longos relatórios, mas folhas de papel avulsas. Era um trabalho de dezesseis anos e não se colocava a possibilidade de que ele o enviasse para Nova York, portanto os dois foram para Washington. A coisa ainda ficou mais complicada porque Sheenan tinha insônia e só acordava às 3 horas da tarde – e os dois representantes da revista tiveram que adaptar-se a esse horário. Um outro dado sobre Sheenan é que a experiência foi particularmente frustrante para os verificadores de dados porque ele nunca anotava algo errado, o que deixava os verificadores sem nada que fazer e o departamento de verificação de dados seria uma perda de tempo.

Resenhas literárias

Portanto, essa era a velha New Yorker. A maior diferença entre a New Yorker de David Remick de hoje e a New Yorker de Shawn é a de oportunidade. Na época de Shawn, as resenhas literárias levavam meses para serem feitas, até anos aguardando correções com data de publicação. Os autores escreviam sobre assuntos importantes sem se preocuparem com novos ganchos ou com o que acontecia no mundo lá fora. Era assim que as pessoas pensavam e era essa a onda em que a equipe editorial estava ligada.

Tudo isso mudou com a chegada de Tina. Enquanto antes os prazos de edição eram previsíveis com semanas de antecipação, ou meses, com Tina começava-se a editar textos com 8 mil, 10 mil, 12 mil palavras numa quinta-feira para fechar a edição na quarta-feira seguinte. Além disso, antes de Tina a revista era, na realidade, conduzida pelo autor – e era por isso que davam tanta liberdade aos autores, pois queriam que os autores desenvolvessem seus próprios interesses, às vezes, excêntricos.

Lógica, imparcialidade e equilíbrio

Com Tina, os conceitos de redação passaram a ter origem nas reuniões de editores e as tarefas eram repassadas aos autores, a quem, fundamentalmente, era dito sobre o que escrever. Muito do que os editores queriam era projetado para ser oportuno, de acordo com o momento, e tendia a mudar de dia para dia. O resultado, portanto, era que se trabalhava com textos muito mais controvertidos e muito menos finalizados do que quaisquer outros feitos anteriormente e as equipes de verificação de dados e edição acabavam trabalhando a noite inteira.

Na última década, quando começava a deslanchar a nova New Yorker e chegavam essas matérias de última hora, questões como lógica, imparcialidade e equilíbrio – que antes eram de responsabilidade dos editores – passaram a cair nas costas dos verificadores de fatos. Isso não era porque alguém o quisesse. Era porque os editores estavam ocupados construindo as matérias e queriam que os verificadores as olhassem a partir de fora, para ver se as expressões se encaixavam, e também a partir de dentro, avaliando a lógica e a forma pela qual eram narradas, as citações usadas e muitas outras coisas.

Anotações dos autores

Outra mudança que ocorreu com a verificação de fatos da New Yorker nesse mesmo período veio em meados da década de 90, como resultado das consequências do que ficou conhecido como caso Janet Malcolm, que é uma excelente escritora que contribui com a New Yorker. Em 1983, ela escreveu o perfil de um psicanalista chamado Jeffrey Masson, que depois a processou e também a revista. O tribunal não resolveu o caso até 1994. A acusação era de que Janet resumira, reacomodara e mesmo inventara citações. Em 1993, ela foi absolvida das acusações de calúnia e difamação num tribunal de San Francisco. Antes dessa decisão, quando os autores submetiam suas fontes à New Yorker, traziam também livros, recortes de revistas e de notícias e números de telefone, mas não entregavam as anotações. Após a solução do caso, a revista começou a insistir com os autores para que também trouxessem as anotações.

Antes desse caso, quando pessoas eram citadas, a revista as chamava para verificar a informação na citação – e não a citação propriamente dita. Isso por motivos óbvios: quando você apresenta uma citação a alguém e essa pessoa não gosta do que ouve, ela diz: “Não era isso que eu queria dizer” o que representa um problema. Esse padrão foi mantido e, quando a revista liga para alguém, nunca lê as suas citações.

Depois que o caso Janet Malcolm chegou ao fim, a revista começou a pedir aos autores que enviassem suas anotações, fitas gravadas e transcrições, assim como o material da fonte e isso deu muito mais flexibilidade à maneira de abordar as matérias. Continuava a pedir fontes, mas quando isso era muito controvertido ou quando se tratava de alguém com quem não conseguia falar, a revista tinha as anotações para se apoiar. O ideal era – na realidade, quase uma regra – usar as anotações e telefonar, pois as anotações podem ter erros, como qualquer outra coisa.

E sempre era feito o possível para dar às pessoas citadas no texto a oportunidade de dizer se havia algum motivo imprevisível pelo qual o texto não deveria ser publicado. Isso era importante porque o contato com essas pessoas, em última instância, humanizava o processo. O uso das anotações dos autores levantava outras questões complicadas. Quando essa política foi adotada, houve muitos debates internos sobre como deveria ser posta em prática e alguns sugeriram que os autores usassem gravadores. Isso foi rejeitado porque se avaliou que não seria o caso de colocar os autores numa camisa de força metodológica. O resultado, entretanto, foram anotações de todas as formas e tamanhos, variando de notas bem redigidas e legíveis até as completamente ilegíveis. A maioria das complicações em relação à nova política era em torno da questão de como usar as anotações. Quando você está fazendo uma reportagem, você está sentado, conversando com alguém. Se estiver anotando à mão, não é possível fazê-lo com a rapidez com que você e o entrevistado falam. Portanto, você acaba filtrando o essencial do que a pessoa diz.

Parte essencial do processo

Você pode escrever em maiúsculas, a frase em maiúsculas ou em fragmentos. Mas você sabe que quando está escrevendo o que a pessoa diz, seu raciocínio está dividido em duas ou talvez três partes. Você tem que prestar atenção e escrever o que a pessoa disse um minuto atrás; você tem que prestar atenção ao que a pessoa acabou de dizer neste momento; e você tem que se preocupar em saber qual será sua próxima pergunta.

Quando termina a entrevista, você guarda o caderno de anotações no bolso, guarda a caneta e, quando se prepara para ir embora, a pessoa para você e diz a coisa mais importante de todas. E você percebe que o fato de o dizer naquele momento tem a ver com o fato da caneta não estar na sua mão e o caderno de anotações ter sido guardado – e se você pegar de novo o caderno e a caneta, o encanto terá sido quebrado e você irá perder aquele momento de revelação. E aí o que é que você faz? Você prolonga a conversa do jeito que pode, consegue o máximo de informações possíveis e volta para seu carro, ou para o café, e anota tudo o que ouviu. Talvez não exatamente o que a pessoa disse, mas é legítimo. É assim que acontecem as reportagens.

Tudo isso significa apenas que trabalhar com as anotações de uma pessoa não é uma ciência. É preciso discernimento e discrição e – o que só vem com a prática – um sentido do que é aceitável e do que não é. Em última instância, são cometidos erros. São inevitáveis e constantes. Escrever cartas à New Yorker apontando esses erros parece ser uma espécie de esporte nacional. Muitas vezes, essas cartas explicam que o remetente lê a New Yorker há anos e não se dava conta de que, por motivos de corte de despesas, a revista eliminara seu departamento de verificação de dados. Às vezes, acrescentando: vocês sabiam que antigamente havia verificadores de dados?

Essas cartas não são propriamente divertidas, mas não deixa de ser uma consolação saber que a indignação talvez seja um reflexo das expectativas desses leitores e do alto grau de respeitabilidade que geralmente a revista consegue alcançar, de maneira nítida e oportuna. E o único motivo pelo qual o sistema da New Yorker funciona é que sempre contou com apoio institucional. Todos os editores foram grandes apoiadores do processo de verificação de dados.

Com a ajuda dessas pessoas, a verificação de dados tornou-se parte essencial do processo de edição da New Yorker – um grupo de pessoas que tentam ser inteligentes e diplomáticas, para tentarem fazer as coisas funcionar. Para tentarem não obstruir a publicação, mas divulgando as coisas da maneira mais correta possível. Isso não faz o departamento de verificação de dados muito popular na revista, mas parece funcionar. Com informações de Peter Canby, ex-diretor do departamento de verificação de dados da revista The New Yorker [Columbia Journalism Review, 23/10/12].

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