Segunda-feira, 26 de Junho de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº946

MONITOR DA IMPRENSA > JORNALISMO PÓS-INDUSTRIAL

A transição na indústria e as diferenças entre EUA e Europa

24/12/2012 na edição 726
Tradução e edição: Larriza Thurler

Para o acadêmico europeu Rasmus Kleis Nielsen, há grandes diferenças entre as mudanças dos ecossistemas de mídia dos dois lados do Atlântico e, de diversas maneiras, os americanos podem aprender com os europeus. O relatório “Jornalismo pós-industrial: adaptando-se ao presente”, do Centro Tow para Jornalismo Digital (aqui a íntegra e seu resumo), da Universidade Columbia, traça alguns dos fatos que marcam o jornalismo americano atual.

Escrito por Chris Anderson, Emily Bell e Clay Shirky, o documento mostra, por exemplo, que o jornalismo está perdendo a coerência relativa que teve por grande parte do século 20 e está sendo redistribuído, difundido e distanciado das organizações que costumavam ocupar o cume do sistema de notícias na medida em que novos atores, práticas e plataformas mudam esse contexto.

Há um aumento da competição pela atenção das pessoas e pelos seus gastos com a mídia, assim como pelo orçamento dos anunciantes. Muitas audiências estão se fragmentando e apenas parcialmente, sobrepondo-se. Margens reduzidas têm levado a corte de custos, na medida em que provedores de notícias de menor porte têm dificuldades em competir com gigantes de notícias digitais, provedores de notícias de alta qualidade e, algumas vezes, com startups pequenas. Muitas dessas tendências também foram discutidas no relatório “Dez anos que agitaram o mundo da mídia”, de autoria de Nielsen.

Entretanto, o relatório “Jornalismo pós-industrial: adaptando-se ao presente” focou no ecossistema de mídia americano. Nielsen acredita que ele pode, em parte, ajudar nas discussões do que está acontecendo no jornalismo fora dos Estados Unidos.

Peculiaridades americanas

Os EUA são verdadeiramente excepcionais e as observações feitas no relatório e as lições aprendidas não são sempre aplicáveis em outros lugares. Algumas das tendências descritas por Anderson, Emily e Shirky também são perceptíveis além dos EUA. Mas a principal preocupação deles é com a ecologia peculiar americana, que pode ser dividida em grandes (e decadentes) organizações de notícias comerciais e uma vastidão de pequenas (e geralmente passando por dificuldades) organizações de notícias sem fins lucrativos – e mais os canais públicos PBS, NPR e suas afiliadas.

Nesse ambiente, mesmo com o modelo industrial de jornalismo com fins lucrativos (apoiado em jornais e emissoras de rádio e TV) estando sob imensa pressão estrutural, uma nova rede de entidades especializadas está experimentando diversas maneiras de jornalismo, em sua maioria não institucionalizada (e geralmente animadoras).

Peculiaridades europeias

Embora haja semelhança nas democracias ocidentais, a situação americana é única. Na maior parte dos países da Europa Ocidental, por exemplo, nunca o tipo predominantemente comercial dominou a indústria jornalística, tampouco se observou o surgimento de uma rede de novas entidades, como nos EUA.

Em primeiro lugar, na Europa as emissoras públicas representam a maior parte do ecossistema midiático. Enquanto essas organizações enfrentam muitos desafios estratégicos, o seu financiamento é relativamente estável e há poucas tendências para formas de produção pós-industriais – elas ainda são grandes, burocráticas e integradas.

Em segundo lugar, especialmente no sudeste europeu, grande parte da indústria jornalística nunca foi realmente comercial – no sentido dos fins lucrativos das empresas de jornais nos EUA –, sendo de propriedade de indivíduos ricos, conglomerados diversificados ou grupos de interesse bem organizados, que administram os jornais menos para ter lucro do que para exercer sua influência. Até quando os proprietários (como Dassault no caso do francês Le Figaro; Fiat no caso da italianaLa Stampa etc) puderem manter os negócios, essas organizações de mídia podem manter seu modelo integrado.

Por último, com um número de exceções notáveis, a maior parte dos países da Europa ocidental ainda não viu a emergência de um ambiente de empresas jornalísticas inovadoras semelhante ao notado nos EUA.

Diferenças podem ser agregadoras

Essas diferenças culturais são importantes para balizar a atenção dos que, fora dos EUA, leem estudos interessantes sobre o futuro e o presente do jornalismo: os EUA são peculiares e as observações sobre o país e lições aprendidas nem sempre são aplicáveis em outros lugares. Insights analíticos devem ser testados de maneira comparativa, assim como modelos de negócios e inovações jornalísticas transformadas em prática em contextos muitas vezes diferentes.

Enquanto a mídia comercial na Europa ocidental, por exemplo, sente as pressões descritas no relatório, é importante ter em mente que houve sempre dois motivos, além do lucro, para pagar jornalistas para fazer seu trabalho: serviço público e propaganda. O declínio acelerado do modelo privado e com fins lucrativos não acarreta, necessariamente, o colapso de duas outras análises racionais para apoiar a produção institucionalizada de notícias. Isso pode ser visto nos EUA por meio do boom de apoio sem fins lucrativos para o jornalismo de serviço público, um fenômeno bem descrito pelo relatório.

O documento, entretanto, dá pouca atenção ao ressurgimento do proprietário político, na forma de Philip Anschutz, Douglas Manchester, e dos novos proprietários do Philadelphia Media Network. Para entender isso, americanos poderiam aprender com as experiências europeias. Informações de Rasmus Kleis Nielsen [Nieman Journalism Lab, 17/12/12].

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