Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MONITOR DA IMPRENSA > NOVOS TEMPOS

Da era pós-industrial ao pós-jornalismo

Por Eugenia Siapera em 26/02/2013 na edição 735
Tradução de Jô Amado, edição de Leticia Nunes. Informações de Eugenia Siapera [“From post-industrial to post-journalism”, The Guardian, 14/2/13]

Estaria o jornalismo precisando de uma mudança de tática ou de um modelo inteiramente novo? E estaria o jornalismo atendendo às necessidades de uma sociedade em transição?

Dizer que o jornalismo está enfrentando problemas é um eufemismo dos maiores: receitas caindo, demissões, fechamento de jornais, tudo revela um campo perigosamente perto do fim. Portanto, a divulgação do relatório do Tow Center (Jornalismo pós-industrial) foi muito oportuna. Aceitando o fim da indústria das notícias como tal, o relatório apresenta uma análise extensa e profunda do estado do jornalismo (principalmente americano), oferecendo valiosas recomendações sobre como adaptá-lo ao presente. Examina os jornalistas e suas condutas, organizações e instituições, assim como o ecossistema mais amplo no qual a notícia é produzida e circula. O futuro que este relatório molda para o jornalismo é uma mistura excitante de práticas inovadoras e valores jornalísticos, inclusive responsabilidade. Os jornalistas já não são apenas repórteres, mas escavadores de dados, artistas da mídia, autores, analistas, testemunhas etc. É importante ressaltar que a reportagem revela uma mudança de poder das instituições e organizações de mídia para jornalistas individuais – na realidade, a mudança operada por Andrew Sullivan saindo do Daily Beast para seu site pessoal baseado em assinaturas é vista como um exemplo de jornalismo pós-industrial.

No entanto, quando passou a excitação, não pude deixar de me sentir um pouco insatisfeita: a reportagem proporciona uma tática, mas não uma estratégia abrangendo o jornalismo; sua visão é interessante, mas pouco ambiciosa. Irá a aquisição de um novo conjunto de talentos e uma guinada para mais flexibilidade salvar o jornalismo? Bom, a resposta poderia ser sim, caso fossem essas as causas dos problemas do jornalismo.

Capital simbólico

Mas pode ser que o motivo pelo qual o jornalismo tem um enorme problema pela frente não seja porque o modelo de negócios foi sabotado ou porque os jornalistas não sabem trabalhar com o programa Excel, mas pura e simplesmente porque ele não atende mais às necessidades de uma sociedade em transição.

Qual é o objetivo do jornalismo? Segundo o relatório, os jornalistas estão lá, como sempre, para descobrir e publicar informações, mas precisam fazer isto de uma maneira nova e mais colaborativa, ao mesmo tempo em que devem ser mais transparentes e responsáveis. É esse, na verdade, o verdadeiro papel do jornalismo enquanto instituição da modernidade. Ao longo do relatório – e apesar da insistência do autor de que as coisas não poderão continuar como estão nem voltar aos imaginários anos dourados do jornalismo –, presume-se que o papel regulador do jornalismo permanecerá mais ou menos o mesmo.

Entretanto, as maciças mudanças no sistema – não somente em jornalismo, mas na sociedade, de uma maneira mais geral – não podem sustentar um modelo de jornalismo que permanece vinculado a normas obsoletas e, hoje, em grande parte irrelevantes, concebidas para um tipo de sociedade que já não existe. Ao mesmo tempo, repensar as normas do jornalismo não é um exercício fútil em termos de teoria normativa. Também tem implicações importantes para a conduta. Como dizia Pierre Bourdieu, o jornalismo, como qualquer outro campo social, é um campo de luta entre diferentes jogadores que competem pela dominação e controle do capital econômico, do capital simbólico e do capital social. Os jornalistas, as instituições jornalísticas e os recém-chegados – como os novos infomidiários – são pragmaticamente orientados no sentido de se autopreservarem e manterem a dominação naquele campo.

Socialmente relevante

Mas sua dominação e sua própria sobrevivência irão depender de até onde irão conseguir impor suas normas e critérios de excelência. Portanto, as normas jornalísticas emergem não só como um ideal, como também como um mecanismo regulatório nesse campo. São usadas para justificar a dominação e excluir outras – para determinar o que é qualificável como jornalismo e o que não é. Deste ponto de vista, a conduta dos jornalistas bem-sucedidos é aquela que tem maior adesão às normas estabelecidas pelos jogadores dominantes. Se deixarmos essas normas fora da discussão, estaremos, concretamente, entregando o jogo aos jogadores que são, ou provavelmente serão, dominantes nesse campo – ou seja, aqueles que já possuem quantidades significativas de capital (econômico, cultural, social, tecnológico, simbólico). Portanto, uma pluralização do campo, embora esta seja, sem dúvida, uma atitude positiva, mascara as crescentes cisões entre os vários jogadores.

De uma maneira mais geral, o problema é que o jornalismo exige uma estratégia mais radical, e não apenas táticas de sobrevivência. Nós estamos muito distantes do tipo de sociedade de massa que exigia que o jornalismo fosse o mediador entre políticos, especialistas e o público. Nós – todos os acionistas, ou seja, em última instância todo mundo – precisamos radicalizar as normas e as funções do jornalismo e avançar no sentido de imaginar não apenas um jornalismo pós-industrial, mas pós-jornalismo. Isso iria se referir ao tipo de jornalismo que se aplica ao tipo de sociedade em que vivemos, uma sociedade globalizada e em rede na qual a informação é, simultaneamente, seu salva-vidas e seu meio de controle, no qual a constante comunicação, ao invés de levar a decisões mais informadas, termina numa circulação sem sentido num ambiente descrito como capitalismo comunicativo. O que precisa essa sociedade? Mais informação ou mais informação assimilada? Mais camadas de mediação entre imagens e infográficos? Mais personalização e informações afetivas? Ou outra coisa? Que seria o quê? Determinar isso será, ao mesmo tempo, redefinir e reorganizar o campo, conduzindo a um reajuste das várias posições e estabelecendo o valor, real e relativo, de várias condutas – do jornalismo de dados, da agregação de informação, do testemunho-cidadão, dos blogs de opinião, das informações afetivas etc.

O sucesso do relatório do Tow Center está em iniciar um diálogo mais abrangente sobre a conduta jornalística que vai além de encontrar um novo modelo de negócios. Mas isto, em si, não basta. Em última instância, o jornalismo só pode sobreviver se continuar sendo socialmente relevante e para isso precisa refletir sobre seu próprio papel normativo numa sociedade que não só vem se tornando mais diversificada, mas também mais estratificada – mais desigual e mais tensa.

***

[Eugenia Siapera dá palestras sobre novas mídias e jornalismo nas universidades de Dublin e Aristóteles. Seu trabalho mais recente inclui o livro Handbook of Global Online Journalism]

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem