Sexta-feira, 28 de Julho de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº951

MONITOR DA IMPRENSA > EMPRÉSTIMO E FRAUDE

A criminalização de práticas que se confundem com o plágio

Por Roy Peter Clark em 09/04/2013 na edição 741

Tradução: Jô Amado, edição de Leticia Nunes. Informações de Roy Peter Clark [“Why we should stop criminalizing practices that are confused with plagiarism”, Poynter, 27/3/13]; este ensaio representa as opiniões pessoal e professional do autor e não deve ser usado para caracterizar opiniões do Poynter ou padrões e conduta da Poynter.org

Está na hora de descriminalizar certas práticas que são descritas como plágio. Tem havido muito bla-bla-blá sobre plágio desde 1983, quando escrevi pela primeira vez sobre o assunto. Assumo parte da culpa. O resultado é que atos sérios de roubo literário acabaram se misturando com outros banais. A negligência foi erroneamente chamada de corrupção. Normas claras de moralidade pessoal e ética profissional foram confundidas com padrões e conduta.

Um caso clássico de exagero ocorreu em 2007, quando professores de Jornalismo da Universidade do Missouri condenaram um colega por plágio depois que ele usou citações de um jornal estudantil num texto opinativo sem dar o devido crédito. Na época, argumentei que, embora a prática fosse descuidada, chamá-la plágio equivalia a “matar uma mosca com uma bazuca”. Levanto estas questões em função do encontro sobre plágio de 5 de abril, na véspera da reunião anual do Aces, em St. Louis. O lugar parece adequado. Os copidesques – tanto na teoria quanto na prática – são os porta-estandartes do ofício. Isto posto, sinto um cheiro de pânico no ar. Meu colega Craig Silverman apelidou o verão de 2012 – devido a suas várias transgressões literárias – de “verão do pecado”. Ele cita “uma cavalgada de plágios, invenções e reciclagem aética”.

Mas ele também podia ter escrito sobre 1981, quando o escândalo do “mundo de Jimmy”, do Washington Post, abalou o mundo do jornalismo. Podia ter viajado no tempo, até 1934, e ouvido o editor Stanley Walker queixar-se da quantidade de jovens repórteres que “inventavam” suas matérias. Não vejo evidência alguma convincente de que o abuso literário seja mais comum hoje do que no passado. Na cultura cortar-e-colar da tecnologia digital, pode ser mais fácil cometer o plágio, mas também é mais fácil detectá-lo. Os padrões podem parecer diminuídos quando, na verdade, os lutadores de crimes contra a mídia, como Silverman, são simplesmente mais afirmativos e estão armados com contadores Geiger melhores.

Quatro livros fundamentais

Receio que uma ética demasiado escrupulosa para com o plágio leve a uma caça às bruxas. O plágio – e seu primo invenção, ou ficção – deveriam ser policiados. A punição para infratores deveria ser dura. Mas a palavra plágio deveria ser confinada a casos bem definidos de fraude literária e jornalística.

Para fortalecer meu caso, pego de empréstimo quatro livros – e os recomendo a qualquer pessoa que venha enfrentando estas questões, tanto no contexto acadêmico quanto profissional:

The Little Book of Plagiarism, de Richard A. Posner, juiz federal, palestrante em Faculdades de Direito e escritor fecundo que escreve de forma convincente sobre questões como o plágio e a infração de direitos do autor.

The Anxiety of Influence, de Harold Bloom, professor e crítico de Yale, que avalia os padrões de influência que dirigem a maneira pela qual um autor aprende com outro.

Stolen Words, de Thomas Mallon, romancista e professor prático que aprofunda uma longa história de roubo literário praticada por alguns dos mais honrados autores no cânone da literatura inglesa e americana.

City Editor,de Stanley Walker. Um influente editor de Nova York na década de 30, Walker inclui um capítulo sobre os questionáveis padrões literários e jornalísticos de sua época.

O que é um ato de plágio?

O juiz Posner define plágio como “uma espécie de fraude intelectual. Consiste em copiar sem autorização o que o copiador pretende… ser original e a pretensão faz com que a audiência do copiador tenha um comportamento distinto daquele que teria se soubesse a verdade”. Vamos passar a limpo essa linguagem com um exemplo. Digamos que estou escrevendo um novo livro chamado Read, Write, Talk e, em pânico para conseguir cumprir o prazo final, copio um capítulo do livro Read to Write, escrito por meu mentor Donald Murray. Não dou crédito a Donald, que não me irá delatar porque morreu em 2006. Deveria ficar claro que estou cometendo uma fraude, criando a impressão de que meu capítulo é original. Dessa forma, atraio compradores para o meu livro que poderiam não comprá-lo se soubessem a verdade. Eu decepciono meus leitores. Privo o espólio de Donald Murray de uma renda em potencial. Quando Chip Scanlan, outro grande amigo de Murray, descobrir a fraude e a revelar ao mundo, mereço todas as sanções que se seguirão.

Vamos levar a definição do juiz Posner para uma lista de verificação. Um ato de plágio exige: 1) um trecho considerável, copiando sem crédito a linguagem de uma pessoa por outra; 2) que essa cópia seja fraudulenta, ou seja, para enganar e levar o leitor a pensar que o texto é original; 3) que o plagiador age com a intenção de enganar o leitor; que o ato tem consequências potencialmente negativas para o leitor e para o autor original.

Dez pontos que não são plágio

É difícil imaginar que alguém considere esses padrões controvertidos. Eis aqui as conclusões a que cheguei a partir desses padrões:

1. O chamado ato de “auto-plágio” não é plágio

Posner acerta na mosca: “Deveria se resistir à tentação de englobar práticas distintas com o plágio em nome da clareza; o ‘auto-plágio’, por exemplo, deveria ser reconhecido como uma prática diferente e raramente objetável.” Todos os escritores de sucesso “re-objetivam” seu trabalho por lucro e influência, mas deveriam ser sempre francos com os publishers em potencial e dizer se o trabalho é realmente novo ou foi reciclado.

2. A chamada “escrita de remendos” – desde que citadas as fontes – não é plágio

Não sou perito em escrita de remendos, mas aparentemente os estudantes universitários são. Usando as tecnologias de cortar-e-colar, escritores podem pegar material de várias fontes online, costurá-lo em conjunto, acrescentar alguma linguagem original e entregá-lo para divulgação. Eu não ensinaria esta prática como uma estratégia para uma escrita honesta, original e notável, mas uma vez que as fontes sejam citadas e acompanhadas, online, pelos links apropriados, não a equipararia ao plágio.

3. Paráfrase inadequada de uma fonte creditada não é plágio

Uma violenta controvérsia envolvendo o Instituto Poynter e seu blogueiro Jim Romenesko foi desencadeada quando alguém reclamou que a linguagem nos resumos ampliados de Romenesko não atendia apropriadamente aos créditos. Protestei, dentro e fora do Poynter, contra tentativas de caracterizar isso como plágio – que era o efeito da crítica contra ele. Com links diretos para as fontes originais, não houve fraude ou desonestidade envolvidas, assim como não houve prejuízo, concreto ou potencial, para a audiência ou as fontes citadas.

4. O uso de uma frase inteligente ou apropriada – de acordo com o nível da frase – não é plágio se você a pensou de forma independente, mesmo se outros a usaram antes

Lembro-me de um panfleto universitário sobre plágio (não posso citar a fonte original) que alertava os estudantes contra roubar uma “frase apropriada” sem crédito. Estava pensando numa legenda para meu próximo livro: Como escrever sucinto: 140 caracteres em busca de um autor, uma mistura deslumbrante dos requisitos do Twitter e da peça de Pirandello. Meu editor não ficou tão impressionado. E depois, é claro, apareceu como título de um ensaio na New York Times Book Review. Minha regra de ouro é: se você pensou de maneira independente, use-a. Não é plágio. É o que Posner descreve como “descoberta simultânea”.

5. Alusões literárias – mesmo um mosaico de alusões esotéricas – não são plágio

Quando meu amigo Howell Raines escreveu um perfil influente de um ambicioso filho de um político da Flórida, começou: “Will the son also rise?” [trata-se de um trocadilho; em inglês, son (filho) é homófono de sun (sol)]. Alguns leitores atentos reconheceram aquela frase como uma alusão a um livro de Ernest Hemingway [The sun also rises]. Um outro grupo de leitores, familiares com a Bíblia, reconheceu que Hemingway pinçara seu título do Livro de Eclesiastes. Raines gozou do benefício de ambas as fontes, usando uma frase que era clara para leitores que não reconheciam qualquer das outras. Alusão é diferente de plágio, pois pede detecção. O prazer é provocado pelo reconhecimento do empréstimo.

6. Descrições repetitivas de notícias, história ou segundo plano não são plágio

Uma vez entrevistei um editor do Wall Street Journal que me descreveu um “livro de receitas” que os redatores poderiam usar para dar aos leitores descrições claras, precisas e sucintas de termos econômicos como “Produto Doméstico Bruto” e “oferta de dinheiro”. Quando o papa Bento renunciou, consultei enciclopédias, histórias e outras fontes em geral para saber quando algo semelhante acontecera pela última vez. Se a linguagem emprestada é direta e informativa (por oposição, digamos, à metafórica), não vejo necessidade para esforços elaborados e que consomem tempo para reescrevê-la.

De quantas maneiras você pode dizer “Roy Peter Clark formou-se em Letras na Universidade de Providence em 1970?”

7. Escrita-fantasma não é plágio

Para algumas celebridades e políticos, é fácil. Eles entregam ou publicam as maravilhosas palavras de escritores talentosos que se satisfazem com um bom pagamento e, se tiverem sorte, um pouco de reconhecimento nos agradecimentos. Desde que todo mundo esteja por dentro – inclusive a maioria dos leitores – e ninguém saia ferido, continua sendo uma prática aceitável.

8. Escritas para tipos – como o resumo legal ou o sermão –, nas quais há uma velha tradição de tomar emprestado sem citar crédito, não são plágio

Existem livros de sermão dos quais os pregadores são incentivados a tomar frases emprestadas. As decisões judiciais muitas vezes são escritas pelos escreventes. Todos os professores que conheço dizem umas palavras, durante uma oficina de redação, que foram pronunciadas ou escritas por outros. O crédito à fonte deveria ser atribuído quando é realmente importante, mas não é necessário arruinar uma boa aula com citações de créditos desnecessárias.

9. Copiar de outros autores aquilo que é considerado colaboração – de redações, serviços de agências, releases, manuais – não é plágio

Você está escrevendo sobre a seca na Flórida. Você consulta o que antigamente chamávamos de recortes. Você descobre que um colega, Joe Blow, escreveu sobre o assunto há cinco anos. Um parágrafo da matéria descreve a situação à perfeição. Com o assentimento de seu editor, você introduz aquele gráfico na sua matéria, em segundo plano. Sem problema.

Na maioria dos casos, escrever é uma atividade social. Os editores reescrevem leads ou inserem parágrafos. A informação básica é tomada de empréstimo da Associated Press ou de um release. Não se trata de atalhos tomados por charlatães. São passos essenciais ao ofício que não deviam ser criminalizados.

10. Copiar ou tomar emprestadas as ideias gerais ou questões que emergem do espírito da época não é plágio

Aqui, uma vez mais, o juiz Posner: “A distinção mais importante entre plágio de passagens verbais… e plágio de ideias… – uma distinção que sugere que muito da cópia de ideias não é plágio coisa alguma – é que velhas ideias estão constantemente sendo redescobertas por pessoas que não tinham consciência que essas ideias já haviam sido descobertas… Um redescobridor, ou descobridor independente, não é um copiador e, portanto, não é um plagiador.”

Como impedir plágio e ficção?

O fato de eu descriminalizar estas atividades não significa que as aprovo. Significa que eu as avalio, atuo sobre elas e até as critico de maneira diferente daquela de estigmatizar que a palavra plágio exige. Posso usar um bisturi, não um martelo. Ao montar meu caso pela descriminalização, eu me dissocio de escritores e professores como Kenneth Goldsmith, autor do livro Uncreative Writing, que, numa recente entrevista ao On the Media, descreveu as maneiras pelas quais incentiva os estudantes a tomarem emprestado de maneira generosa e criativa do trabalho de outros escritores. Goldsmith argumenta que vivemos numa cultura que recompensa e exige esse tipo de empréstimo, usando as amostras de músicas originais como analogia. Parece que Goldsmith eliminaria o plágio como categoria – e expandiria o uso justo ao infinito –, o que não é para onde quero que meu argumento conduza.

Já defendi esta questão antes e o faço de novo. Você não impede o caixa do banco de roubar mandando Fulana ou Sicrano para um seminário de ética. Se você for o gerente do banco, você aponta para a câmera de vídeo que está focada naquela agência. Nem um seminário, ou uma reunião de cúpula, irá impedir atos de plágio ou invenções por atacado. Para impedir o primeiro, você informa seus escritores que seus textos serão filtrados, rotineiramente e de maneira aleatória, por meio de softwares de detecção de plágio, que vêm ficando cada vez melhores e mais comuns. Para impedir as invenções, você diz aos autores que eles devem ficar a postos para proporcionar a um editor informação por contato com qualquer fonte mencionada numa matéria e que os editores se reservam o direito de contatar qualquer fonte a qualquer hora para verificar que existem e para checar o desempenho do repórter. Esse esforços de vigilância exigem trabalho e dinheiro numa época em que faltam ambos às organizações de mídia.

No meio tempo, não sobrecarreguemos os jornalistas que ficaram com os padrões impossíveis e inconvenientes que nunca bateram com a prática diária do ofício. Portanto, se forem apanhados roubando, pé na bunda e rua.

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