Quarta-feira, 11 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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MONITOR DA IMPRENSA >

Os perigos da pressa na era digital

Por George Packer em 07/05/2013 na edição 745

Na semana passada, alguém com uma imaginação macabra e uma genialidade satírica, agindo em nome do Exército Eletrônico Sírio, descobriu com precisão como explorar o triste estado febril deste momento na história dos Estados Unidos e fazer-nos parecer idiotas. A maioria dos setores da economia vem sendo tão inativa há tanto tempo que a palavra normal seria depressão, mas há exceções, principalmente as mesmas duas que já vimos ao longo de uma geração e ambas originárias de um mundo de vertigens: finanças e computadores. Tenho uma hipótese, não comprovável, de que o fantástico interesse que elas criam é, em parte, compensação – e, talvez, uma abstração – da impressão geral de estagnação que predomina em outras áreas. O mercado de capitais bate recordes enquanto o Vale do Silício continua revolucionando a maneira pela qual os americanos passam seu tempo. Portanto, se você for um hacker sírio simpatizante do presidente Assad, o que você faria para aliviar o estado das coisas e sabotar a confiança nacional do inimigo declarado do governo sírio?

É claro que você iria invadir a conta do Twitter da Associated Press, escrever uma falsa mensagem dizendo “Últimas notícias: duas explosões na Casa Branca e Barack Obama está ferido” e esperar para ver o que iria acontecer. Um leitor cuidadoso da Associated Press poderia ter notado o tipo de sutis improbabilidades que também são a perdição mesmo do melhor falsificador de e-mails da Nigéria. A conjunção aditiva “e” é totalmente dispensável e “Barack Obama” também soa mal – deveria ser “presidente Obama” ou apenas “Obama”. Mas esse leitor cuidadoso não era a audiência pretendida pela falsa informação. Cuidado era precisamente aquilo com que o hacker não esperava encontrar. A coisa funcionou como um feitiço.

Dar megafone ao fofoqueiro

“O humor mudou de imediato no andar da Bolsa de Valores de Nova York”, relatou o Times. Duas populações conhecidas por seu nervosismo de alta velocidade bateram de frente e explodiram no que seria o equivalente digital à fusão nuclear. A primeira delas, constituída pelos usuários obsessivos das mídias sociais; a segunda, a dos estonteantes corretores, fazendo operações de alta frequência [as chamadas ações de alta frequência consistem em usar ferramentas tecnológicas sofisticadas e algoritmos de computador, com os quais se executam operações em alta velocidade], usando algoritmos complexos, que examinam automaticamente volumes imensos de dados para executar operações e explorar as mínimas flutuações do mercado. Apenas alguns segundos depois do falso tuíte da AP, mais rapidamente que a maioria das reações nervosas de um ser humano – rápido demais para cuidado ou ceticismo –, as notícias tomaram o mundo virtual: o índice da Dow Jones caiu 150 pontos e perderam-se 136 bilhões de dólares em valor de mercado. (Depois, quase tudo seria recuperado.)

Em algum lugar no mundo não-virtual, alguém estava rindo.

Talvez o(a) hacker, onde quer que estivesse, soubesse que, apenas há um mês, a Comissão de Valores Mobiliários decidiu autorizar as empresas a divulgar notícias financeiras, como, por exemplo, lucros corporativos em sites de mídia. Era o equivalente a dar um megafone ao fofoqueiro da cidade (porque, na realidade, é isso mesmo, é mais antigo que Virgílio, que escreveu “Fama volata” [o boato tem asas] e nunca foi tão rápido quanto na era digital). O comércio de alta frequência foi a causa da quebradeira de 2010. Há muito tempo que está uma meia dúzia de passos à frente dos reguladores, apesar dos enormes esforços de algumas pessoas em Washington. Dodd-Frank não conseguiu chegar a um acordo com o comércio de alta frequência e a Comissão de Valores Mobiliários, apesar do barulho que vem fazendo há vários anos a respeito de lançar uma luz sobre os chamados “poços escuros” de liquidez em mercados distantes das bolsas de valores, vem ficando cada vez mais longe.

As piores tendências da mídia

Acrescente aos algoritmos dos corretores a imensa quantidade de dados encontrados nas mídias sociais – que podem ser minuciosamente examinados, por sofisticados programas de computador, em dois ou três milissegundos – e a prestação de contas parece impossível. “Não estamos num mundo em que as pessoas vivem no vácuo”, disse um gerente da Bloomberg LLP, que distribui em seus terminais mensagens relevantes do Twitter a seus assinantes.

Vale ressaltar que, se o modo de transmissão do hacker foram as mídias sociais e as operações de alta frequência, o alvo imediato era uma relíquia de eras passadas, a Associated Press. Antes, o Exército Eletrônico Sírio invadira as contas da CBS, da NPR e da BBC. Estes soldados digitais não gostam da cobertura feita pela mídia ocidental da guerra civil na Síria e levam suficientemente a sério os principais veículos da grande mídia para tentar prejudicá-los. Talvez levem a grande mídia mais a sério do que algumas pessoas nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha.

Foram duas semanas duras para a mídia digital e impressa. As bombas da Maratona de Boston trouxeram o que alguns jornais têm de melhor (o Boston Globe e o Times proporcionaram uma cobertura excelente), mas também destacaram as piores tendências da nova e da velha mídia. O New York Post começou mal, apenas algumas horas, ou minutos, após as explosões, e não parou, chamando de suspeito um saudita vítima da bomba e acabou estampando uma foto de dois jovens completamente inocentes, assim como um de 17 anos, na primeira página. Sem o mesmo deslumbramento, a CNN (“o nome mais confiável do noticiário”), que inicialmente boicotou a decisão da Suprema Corte sobre cuidados com a saúde no verão passado, fez o mesmo em Boston, divulgando erroneamente que dois suspeitos estavam detidos dois dias depois das bombas.

O triunfalismo das novas mídias

Na internet, um grupo de justiceiros do Reddit, um site de localização (cujo maior acionista é a empresa proprietária da The New Yorker), perseguiu e expôs os mesmos dois homens via posts no Twitter, assim como um terceiro inocente, um estudante da Brown University, Sunil Tripathi, que estava desaparecido há um mês – causando uma dor inimaginável à sua família. Era o equivalente a uma pobre alma que vagamente lembrava o rosto indistinto num cartaz de “Procurado” e que é quase linchado por uma multidão. Os detalhes desse último caso são particularmente reveladores. Após seguir o nome do estudante da Brown pelo Twitter, um auto-nomeado caçador de recompensas/repórter de última hora chamado Greg Hughes estava lendo a transcrição não oficial de um documento da polícia feita pelo Reddit por volta de duas e meia da madrugada, três dias após as bombas, quando o Reddit anunciou que a polícia tinha um nome. Às 2:42, hora registrada por Alexis Madrigal, da revista The Atlantic, Hughes enviou um tweet: “Este é o teste da internet ‘Esteja certo, não seja o primeiro’ com a reportagem da matéria. Até o momento, as pessoas estão fazendo um excelente trabalho.” Um minuto depois, tendo decidido, por motivos não perceptíveis, que o nome mencionado pela polícia era o de Tripathi, Hughes provocou um fiasco no teste da internet de maneira espetacular.

“O único problema é que o nome de Sunil Tripathi não é mencionado no áudio anterior ao tweet de Hughes”, escreveu Madrigal. “Eu ouvi uma dúzia de vezes e não há coisa alguma que possa remotamente parecer o nome de Tripathi.” Tarde demais. Num período de sete minutos, outros pegaram a pista falsa. Trabalhavam para websites, canais de televisão e revistas e ficavam acordados e online a noite toda para serem os primeiros, ou pelo menos parte deles. Então, às três horas da madrugada, o grupo Anonymous manifestou-se pelo Twitter. Madrigal descreve o corre-corre que se seguiu: “Era um frenesi total enquanto milhares e milhares de mensagens eram enviadas pelo Twitter, muitas delas comemorando a vitória e a surra sobre a velha mídia. Foi um dos dias mais loucos de que me lembro.”

O corpo de Sunil Tripathi foi encontrado dentro d’água, em India Point, Providence. Seu bom nome foi sacrificado em nome da causa do triunfalismo das novas mídias, cujos apoiadores queriam tanto comemorar a vitória que a evocavam do ar. Depois do prejuízo e quando a verdade veio à tona, o Reddit pediu desculpas à família de Tripathi. Hughes e outros apagaram seus tweets tão rapidamente quanto os haviam enviado. E a multidão seguiu em frente.

A importância da autorrestrição

Além da autorrestrição, que não está na moda nestes últimos tempos, quase nada pode ser feito para evitar coisas como esta. Os corretores de alta frequência continuarão usando algoritmos que transformarão milissegundos de informação em enormes lucros, continuarão mantendo os mercados em risco permanente e afastarão os investidores comuns de negócios de capital de risco (a menos ou até que a Comissão de Valores Mobiliários comece a controlar mercados não digitais – um grande teste para sua nova presidente, Mary Jo White). Os sites de mídia social encontrarão novas maneiras de disseminar informação, para melhor ou pior, para mais longe e mais rapidamente. Pessoas como Greg Hughes continuarão a competir com a mídia mais velha e mais lenta e continuarão a ter razão em algumas coisas enquanto estarão completamente errados em outras.

E os jornalistas, aqueles que vivem disso, continuarão a ter fé numa profissão abalada, enquanto entram em pânico e deixam de lado seus padrões para não serem importunados pelo Reddit às 2:43 da madrugada. Porém, ao contrário dos corretores de alta frequência, dos empresários de internet e dos justiceiros online, os jornalistas têm padrões definidos, o que é o único motivo para que profissionais façam esse trabalho. Quando as pessoas lutam pela sobrevivência, elas podem esquecer interesses de longo prazo que são sua única garantia. Talvez os triunfos e as derrotas de Boston e a piada que o Exército Eletrônico da Síria fez com a Bolsa de Valores sirvam para lembrar aos jornalistas o tanto que eles ainda são necessários, desde que exerçam suas melhores qualidades, as quais, entre outras, incluem a autorrestrição.

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George Packer, da New Yorker

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