Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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A Bloomberg e o jornalismo que move mercados

18/06/2013 na edição 751

Muitos jornalistas sonham em revelar casos de corrupção governamental, fazer uma grande entrevista ou ganhar um Pulitzer. Mas esses não são os objetivos de Thomas F. Secunda, que fundou a Bloomberg em 1982 junto com Michael Bloomberg.

“O único jornalista que importa é o tipo que move mercados”, disse Secunda aos seus funcionários numa recente discussão na sede da empresa. A questão de como alguns repórteres da Bloomberg descobriram informações capazes de “mover mercados” se tornou crítica para o grupo.

Em abril, o banco de investimento Goldman Sachs queixou-se de um repórter que monitorou as atividades de um de seus executivos através de um terminal da Bloomberg, serviço usado por instituições do mercado financeiro que contém diversas informações sobre economia, companhias, mercado e pessoas. A revelação levou a investigações por mais de 20 clientes, incluindo o Banco Central dos EUA, o Departamento de Tesouro e o Banco Central Europeu. Daniel Doctoroff, executivo-chefe da Bloomberg, desculpou-se, chamando a prática de “erro”.

Operações misturadas

No entanto, entrevistas com mais de 30 funcionários da empresa exibem um retrato de uma organização agressiva, que não só tolerava, mas encorajava uma relação simbiótica entre as operações jornalísticas e as financeiras, incluindo o uso dos terminais por jornalistas para conseguir furos noticiosos.

Repórteres dizem que conversavam com seus colegas no setor financeiro para ganhar acesso adiantado a anúncios de empresas, incluindo lançamentos e prospectos de títulos prestes a se tornarem públicos. Os jornalistas também usavam funções dos terminais para ver informações de clientes.

“Diziam-nos sempre: descubra maneiras de usar os terminais para escrever matérias”, disse um ex-jornalista da Bloomberg que, como a maioria dos funcionários, foi obrigado a assinar um acordo de confidencialidade que o proíbe de falar sobre as práticas da companhia.

No mundo de Wall Street, onde empresas protegem qualquer migalha de informação, a invasão de privacidade ameaça enfraquecer a Bloomberg. Após a reclamação do Goldman Sachs, a empresa imediatamente bloqueou o acesso da redação às funções do terminal. Doctoroff também prometeu a abertura de um inquérito e criou a função de “diretor de confidencialidade dos dados do cliente”.

Apesar da Bloomberg agir rapidamente, diversas pessoas próximas à companhia disseram que executivos consideraram a polêmica exagerada, espalhada pela frustração dos bancos com a cobertura agressiva e ardente para negociar preços de terminais mais baratos.

Controles

Competidores também tiraram vantagem da situação. Em uma conferência de investidores, Lex Fenwick, executivo-chefe da Dow Jones, editora do Wall Street Jounal, introduziu um novo sistema de mensagens da empresa, que, como disse, “seria armazenada nos seus servidores e não poderíamos ver o que vocês estão conversando”.

Yvonne Diaz, porta-voz da Thomson Reuters, afirmou que “existem controles rígidos para que nenhum funcionário fora do setor de vendas ou de desenvolvimento acesse informações de consumidores”.

Um porta-voz da Bloomberg, Ty Trippet, disse que a companhia não perdoa a invasão de privacidade e que todos os novos funcionários devem assinar um acordo de confidencialidade que os proíbem disso. Ele também apontou que repórteres nunca podiam ver trocas comerciais específicas de clientes ou quais artigos foram lidos por eles nos terminais.

Desde os anos 1990, repórteres foram treinados e testados sobre as funções dos terminais. Muitos saem das sessões de treinamento impressionados com as máquinas, descritas por um funcionário como um “tanque soviético de um sistema operacional”.

“Você poderia ver um mapa de todo navio no oceano que carregava suco de laranja”, disse um ex-jornalista da empresa, “ou poderia ver que [o presidente do FED] Ben Bernankeusou o terminal no dia de hoje”. Em 2011, um repórter do canal de televisão da Bloomberg disse que usou os terminais para monitorar Kweku Adoboli, operador do banco UBS, que havia fugido após um escândalo financeiro.

 

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